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Acho que talvez tenha abordado de forma errada o problema que sinto com certas posturas a respeito de Minneapolis. Em minha defesa, quase 2h da manhã, preparando material didático e com sono atrasado.

Vou tentar explicar melhor aqui.

(nada como uma noite de sono).
1) Há um repertório de ações da comunidade negra nos EUA (em certo ponto, chegou a ir também para a Inglaterra e países caribenhos) que envolve o motim ("riot") e o saque. Inclusive tem uma definição para isso que, em português, é até pejorativa: "race riot", ou motim racial.
2) Ao pesquisar saques e motins no contexto brasileiro e fazer levantamento bibliográfico sobre o tema em outras realidades, me deparei com esse que considero um elemento difícil de encontrar no Brasil. Os nossos saques e motins dificilmente foram racializados.
3) De fato, mais do que isso, nosso repertório de motins foi constante e duramente despolitizado por partidos de esquerda - que alegavam, por vezes, que tais atos eram ausência de uma vanguarda capaz de orientar as ações das massas.
4) "Isso agora em 2020?"

Não, mas em 1962. Em meio a maior greve geral (ou A greve geral) brasileira, nos subúrbios do Rio uma série de saques ocorreram, deixando um rastro de violência - em especial contra comerciantes que majoravam os preços dos alimentos.
5) A forma como tais ações repercutiram na imprensa dos partidos de esquerda foi basicamente a da "digna raiva", ou seja, era justo se revoltar. Mas era preciso organizar a revolta - ou seja, transformar o saque em disciplina política.
6) Há vários outros casos que me permitem falar em "fantasmagoria" dos saques no Brasil, não só para as elites, mas também para as forças progressistas. Desde 1917, creio que nenhum partido ou movimento de massas reivindica o motim como ação coletiva.

zapruderworld.org/journal/archiv…
7) Isso não quer dizer que não participem dessas ações. A revolta dos bondes, em SP, em 1958, contou com muitos comunistas. Os saques de supermercado no Rio de Janeiro eram acusados pelos militares de ter gente do PCdoB envolvida.
8) Até mesmo os saques na região Nordeste, relacionados ao contexto de secas nas décadas de 1970 e 1980, eram muitas vezes denominados como ações de "comunistas" por setores mais conservadores.
9) Mas a resposta de boa parte dos partidos era mais ou menos a mesma: saques e motins são atos de raiva justa, mas não são o tipo de ação política que NÓS defendemos. Nós, que somos tão organizados, democráticos, políticos, jamais agiríamos de forma tão "pré-política".
10) Em 2013, conforme atos de saques ocorriam em grandes capitais, as manifestações praticamente cindiram algo que seria impensado, separando o motim de um lado e o saque do outro, como se não tivessem relação alguma.
11) Isso é substancialmente diferente do caso americano, onde "riot" (motim) e "looting" (saque) são repertórios conjuntos e, ainda que não sejam marcados por uma posição do espectro político, estão racialmente identificados.
12) Esse artigo na Jacobin sobre os saques decorrentes dos protestos após o assassinato de George Floyd dá a tônica de um movimento novo, em que a esquerda americana tenta se aproximar de forma mais definitiva a um repertório de ações do movimento negro.

jacobinmag.com/2020/05/george…
13) Se nos EUA o "riot" é visto, ainda como ato racialmente construído, identificado com os negros, no Brasil o "motim" (ou o "saque") ainda é identificado com os pobres. E embora saibamos dos cruzamentos dessas categorias, isso muda a nossa análise.
14) O resultado mais interessante é que forças progressistas brasileiras estão vendo os incidentes em Minneapolis - que são surpreendentes para uma cidade pequena, de 400 mil hab - com certa expectativa não de um movimento negro que mimetize o repertório dos negros americanos...
15) ..., mas talvez de uma esquerda (entendida como força progressista que organiza as classes populares) que precisa organizar a sua raiva. Nisso, apontei ontem, uma espécie de "sujeito-ausente". Admirar a forma de organização dos "riots" americanos, diz um pouco sobre...
16) ...os nossos silêncios. Silêncios em relação ao repertório de saques e motins no protesto social, silêncios em relação às diferentes formas de racismo, de organização de movimentos sociais (incluindo o movimento negro, óbvio).
17) E silêncios também sobre a tragédia que é nossa, que é a do nosso próprio genocídio negro hoje. Sobre os limites de nossas experiências progressistas, de como as instituições brasileiras estabelecidas no pós-1988 fracassaram com grande parte da população brasileira, ...
18) ...ainda que não seja um fracasso total, dependendo da abordagem que vamos ter.

Eu não estou dizendo com isso que não devemos olhar para Minneapolis. Mas parafraseando o sambista, "cada lugar em sua coisa".
19) Minneapolis talvez possa servir para olharmos os nossos "pontos cegos" na história de luta e mobilização, tanto de classes populares quanto do movimento negro...mas o ponto cego é nosso, de quem olha - e não de quem tá no meio do corre.
20) PS: Tem uma imensa bibliografia sobre "race riots" nos EUA e admito não conhecer nem um centésimo dela, mas tem dois que gosto muito:

ABU-LUGHOD. "Race, space and riots in Chicago, NY and LA"
KELLEY. TUCK. "The other special relationship: race, rights and riots..."
21) Para Brasil, o artigo do Zapruder, que postei o link acima, tem um conjunto de referências iniciais importantes sobre saques e motins, mas a maior recomendação em termos de Brasil são os livros e artigos do professor da UFCE, Frederico de Castro Neves.
22) Ainda está para ser escrita, até onde sei, uma história dos saques no Brasil. E uma história dessas certamente vai ter que incorporar um viés capaz de olhar para as estruturas racializantes da sociedade e da ação social dos sujeitos.
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