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Respeito muito a esquerda (onde sempre me situei politicamente) e o Emicida, um cara que aprendi a admirar o som e as posições desde os idos de 2013.

Por isso fico pensando em como fazer esse debate render algo sem ter "chute na canela", sem ter frase feita que encerra o debate.
Queria partir do básico: a esquerda não é branca e Emicida não é burguês.
A esquerda (ou "as esquerdas", porque somos muitos), no Brasil, não é exatamente branca. Foi, sim, como muitas instituições brasileiras, "embranquiçada", num movimento que parte foi interno e parte foi externo.
Minervino de Oliveira, Marighela, Osvaldão, Benedita da Silva, Áurea Carolina, Marielle Franco... A história das esquerdas no Brasil é uma história de homens e mulheres cuja negritude precisa ser enfatizada, correndo o risco de que sejam "branqueadas".
Porque esse é um movimento comum da nossa sociedade, transformar pessoas negras em "mulatas", "morenas", atenuar a cor, o preconceito sofrido e, por fim, diluir a experiência singular numa coletividade massificada.
Via de regra, as posições de pessoas em condição estrutural de opressão, para sair da margem do corpo social, dependem de um processo de "tradução" feita por quem tem um prestígio hereditário (que pode ser capital, econômico ou simbólico, mas também raça, gênero, sexualidade).
É claro que há resistências nesse processo, mas enfatizo a dinâmica estrutural e estruturante aqui. Não creio que exista espaço na sociedade brasileira onde isso não ocorra - isso inclui as esquerdas.
Não me peçam para dizer qual opressão estrutural isola/aliena mais as pessoas. Não cabe a mim medir o que eu não sofro.

Mas posso dizer que, considerando o passado escravista brasileiro, há uma forma peculiar do nosso racismo que tende a embranquecer pessoas negras.
Logo, quando se fala em "esquerda branca", esse processo estrutural tem que ser colocado em perspectiva, pois não podemos seguir invisibilizando homens e mulheres negras que lutaram pelos projetos emancipatórios das esquerdas nos séculos XX e XXI.
Logo, por trás da crítica de uma esquerda que se "embranquiça", há algo muito maior para discutirmos.
Nisso, queria dizer, mudando a chave, mas não o tema, que é preciso entender o que significa afirmar que um homem negro é rico no país do genocídio negro. Ele sempre foi rico? Ele carrega a riqueza como vantagem estrutural?
Fico pensando em figuras como Emicida e Mano Brown, artistas e intelectuais que vieram da própria classe trabalhadora brasileira e que, ao se tornarem produtos culturais, conseguiram juntar uma renda para serem considerados ricos.
O que eles fizeram com esse dinheiro? Que meios de produção eles adquiriram? Viraram burgueses?

Mais: criaram condições para suas famílias adentrarem estratos mais tradicionais da burguesia brasileira (uma classe esmagadoramente branca)?
Alguém pode dizer que o dinheiro entra como uma ferramenta que impulsiona esses intelectuais a se constituírem como representantes. Mas isso acarreta dois problemas:
1) Classe social não é só renda (ou de outra forma, a gente pode usar os rótulos tradicionais dos economistas que dividem tudo entre renda). Ter dinheiro é numa puta vantagem estrutural, claro, mas é suficiente para definir onde os sujeitos se situam na sociedade?
2) Mesmo que seja suficiente, essa posição tem uma correspondência política direta a favor da manutenção do estado atual das coisas? Um membro da burguesia vitoriana não pode ser um dos maiores organizadores da classe trabalhadora mundial?
Ou, em outras palavras, onde esse sujeito se situa politicamente com a sua riqueza não é, também, um fato? No caso, organizar comunidades na luta contra o genocídio negro no Brasil é um dado extremamente importante para saber onde, politicamente, está um Emicida.
(o clipe de "Chapa", com as Mães de Maio, deve ser visto e reivindicado aqui)

Eu não sei se é esticar demais a corda, mas esses artistas não operam como intelectuais orgânicos da classe trabalhadora brasileira hoje?
Não operam, com os meios que possuem, uma tentativa de organizar ou ao menos dar visibilidade a luta de milhões de brasileiros?

Caso seja forçar a barra demais pensar isso, talvez então pensar eles como artistas que produzem uma arte engajada na transformação social.
E uma das transformações mais urgentes desse país é acabar com o genocídio de pessoas negras nas periferias brasileiras. Se há artistas engajados nisso, sigo uma linha leninista aqui: estrategicamente, estamos juntos. Vamos ver a tática.
No campo da tática, eu largo Lenin e vou pro Leminski. Na luta de classes, vale tudo: pedra, pau e poema. Eu realmente preciso pensar sobre o que Emicida fala no seu vídeo, mas a rigor, sou a favor de todos os protestos anti-Bolsonaro agora.
Mas tenho um bebê de três meses em casa. Não vou ir para nenhum protesto físico, então encontro aqui meu limite político: não vou gerar risco para a minha família agora. Tem gente que não pôde fazer essa opção e aí, uma coisa: são essas pessoas com quem eu tenho mais acordo.
Porque é gente que tá sendo forçada a ir trabalhar por patrões e políticos inescrupulosos que arriscam a vida deles porque não vêem valor algum no trabalhador exceto a sua capacidade de produção.

E aí, como lembra o Boulos, lutar contra o fascismo é atividade essencial.
Mas há muitas formas de luta (embora algumas são mais eficientes) e a gente precisa respeitar isso. A frente ampla, para poder durar, não pode vir de acordo parlamentar, mas sim de acordo dos que lutam (seja como for qu lutem).
Se a gente conseguir estabelecer uma base bacana e mais horizontal, que favoreça os nossos acordos estratégicos, a gente entra nessa sem canelada, sem dedo no olho, baixando a guarda pra quem é aliado.

Com pau, pedra e poema mesmo.
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