Aqui vamos falar do sacrifício no candomblé a partir da condução litúrgica.

Faça uma oferenda e a morte se transformará em riqueza disse ifá!

A partir desse dito vamos fazer uma imersão ao rito e entendermos como um ato de morte se tornará um ato doméstico.
Eu vou tecer esse fio não por um lado social ou acadêmico e sim, através do próprio rito, buscando entendermos juntos como a narrativa do Oro N’jé é autoexplicativa. Primeiro precisamos entender que ainda que de forma indireta alguns Orisas estão presentes no rito independente
do Orisa que está recebendo o Oro. São eles Ògún em casos de ritos que utilizam faca, Omolu para os Orisas que não se utilizam do obé, Oxossi e Osaniyn. Vamos entendendo ao longo desse fio a função desses orisas na construção do rito.
Logo no início do rito, temos a evocação de Orisa Ògún enquanto Olobé, o senhor da faca, que será solicitado seu auxílio e supervisão do rito pela utilização do obé, no caso de Omolu será o mesmo sentido sendo que pela ausência da faca, ambos com seus ofós e cânticos específicos
Aqui focaremos no rito com a utilização do obé, a própria cantiga vai nos dizer isso "Ògún lo pá o... Ejé xoro xoro"... Muitos pensam que o rito gira em torno do ejé, ou seja, do sangue, mas isso não é uma verdade, a morte em si é importante também. Pois o sacrifício ele não
inicia sacro, ele vai se tornando ao decorrer, como assim ? Então, O ato inicia com a violência , ou seja, a morte do animal e só então a partir desse ato que se inicia a sacralização, quando a comunidade responde a cantiga Oxossi adentra o rito, iniciando o processo de
sacralização e comunhão daquele ato, enquanto o ejé se esvais em direção ao ojubó, ele se legítima como potência de axé, de vida, ele se faz a própria representação de Eledumare, o criador e gerador da vida de uma forma geral, pois o sangue é vida é o fluxo contínuo da mesma.
E a cada momento que se canta e se responde a cantiga aquele ato de violência inicial vai se tornando um ato coletivo, o rito não é mais apenas sobre o sacerdote que está ministrando o sacrifício e a divindade ou orí que está o recebendo, a comunidade agora está envolvida, está
participando e portanto trocando também. Iniciamos aqui de forma direta a transição do ato de violência ( a morte do animal) para um ato doméstico e de que forma isso ocorre? O segundo estágio do rito de sacrifício é temperar a "matança" nesse momento todo aquele rito
começa a assumir a forma de alimento, mas ainda sim o ejé está ali visível, e é onde a terceira parte o rito se faz necessário que é o momento de enfeitar, quando cobrimos com penas, esse momento surge para extinguir de vez os vestígios da morte, é a total domesticação do ato
E é onde faz todo o sentido a frase inicial do fio, "a morte se transforme em riqueza" é com a cantiga que se entoa para enfeitar que inclusive fazemos votos, como poderá ser visto de forma mais completa no texto do blog. Após terminarmos de arrumar o ojubó não haverá mais
vestígios da morte do animal, apenas o belo, apenas as penas que embelezam e trazem prosperidade e riquezas , favor entender riqueza no sentido iorubá da coisa rs, o último e não menos importante momento é quando se canta para salpicar água sobre todos os elementos.
a cantiga dirá que não houve morte naquele dia, e em seguida canta-se para as mulheres recolherem os bichos e transforma-los em alimentos para que a sociedade comungue e compartilhe com a divindade. Inclusive, é ainda por conta dessa ideia de beleza e riqueza que conota o rito
que fazemos xirê após matanças, ainda que pequenos xirês, pois algo que iniciou com a violência se torna um rito doméstico se transforma em um momento de beleza, comunhão alimentícia e celebração da boa sorte. Por esse motivo é fundamental a partilha do axé.
Imolação sem alimentação não faz sentido!

Para ler esse fio de forma mais completa e com mais detalhes confira no blog:

vhcardozoo.medium.com/fa%C3%A7a-uma-…
Esqueci de falar de pai Osaniyn rs ele está presente ao final quando cantamos folha, esse momento temos 2 grandes objetivos, o primeiro apaziguar e encaminhar as energias que chegaram ali por conta da morte e do ejé Iku, Egungun e Iyami e a segunda tornar aquele natural
ou seja, mandar a mensagem que aquele animal foi sacrificado seguindo a lógica natural de sacrificar para alimentar a comunidade e também o início da restituição daquele animal imolado a natureza que vai se findar com a entrega do carrego e com a cerimônia do itá/afexu.

• • •

Missing some Tweet in this thread? You can try to force a refresh
 

Keep Current with Vitor Cardozo - Ògún Yande

Vitor Cardozo - Ògún Yande Profile picture

Stay in touch and get notified when new unrolls are available from this author!

Read all threads

This Thread may be Removed Anytime!

PDF

Twitter may remove this content at anytime! Save it as PDF for later use!

Try unrolling a thread yourself!

how to unroll video
  1. Follow @ThreadReaderApp to mention us!

  2. From a Twitter thread mention us with a keyword "unroll"
@threadreaderapp unroll

Practice here first or read more on our help page!

More from @vhcardozo

8 Jul
Candomblé não é Religião!

Hoje nossa jornada virá para pensarmos a exclamação acima, vamos entender que olhar o candomblé enquanto religião é negligenciar uma vasta abrangência desse ethos. Para isso faremos uma longa e prometo que interessante jornada em busca de entendimento
O primeiro conceito que precisamos entender é a própria ideia de Religião, conceito que surge no século XIII na Europa, vem para denominar o conjunto de crenças em um poder ou personagem divino. A própria etimologia da palavra vem do verbo em latim Religare que significa
religar, reconectar ou ainda há correntes que acreditam que a palavra vem do verbo Relegere que traz a ideia de retomar o que estava perdido. A primeira análise sobre esses conceitos vamos entender que eles não dão conta de abranger o Candomblé, e vamos entender isso ao longo.
Read 14 tweets
3 May
Aqui vamos falar de Ori e iniciação

Orí é sem dúvidas alguma a divindade mais importante do panteão Ioruba. Ori, a cabeça, é a primeira coisa a entrar no Aye, ori é domicílio de todas as escolhas, uma pessoa sem Orí é uma pessoa sem direção.
Para os iorubas a cabeça vai além de um membro, ela é uma divindade que origina do próprio Eledumare, Ori é o receptáculo de ideias, opiniões, sorte, emoções, do destino escolhido, da divindade escolhida, e da sorte que teremos ou não na terra. A integração de pensamento e emoção
Irão resultar na qualidade de nosso Ori. Essa cabeça é dividida em 2 partes, Ori Inú a cabeça interna onde esta nosso destino e Ori Òdé que é a cabeça física. Nela irá residir a personalidade e o intelecto do indivíduo que irá desdobrar a forma com que interagirá com Ori Inú.
Read 16 tweets
1 May
Aqui vamos organizar todos os meus Threads para facilitar a vida de vocês rs
Aqui falaremos sobre o Natal na visão Afro religiosa

Aqui falaremos sobre a verdade absoluta dentro do Candomblé

Read 15 tweets

Did Thread Reader help you today?

Support us! We are indie developers!


This site is made by just two indie developers on a laptop doing marketing, support and development! Read more about the story.

Become a Premium Member ($3/month or $30/year) and get exclusive features!

Become Premium

Too expensive? Make a small donation by buying us coffee ($5) or help with server cost ($10)

Donate via Paypal Become our Patreon

Thank you for your support!

Follow Us on Twitter!

:(