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Thiago Krause @ThiagoKrause2
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Bem, o que era esperado aconteceu. Como entender a eleição e o que se pode esperar do futuro imediato? Eu não reivindico qualquer expertise - sou só um estudioso da história social e política do Brasil escravista e colonial - mas vou pensar aqui com vocês.
Não tem um fator só pra explicar o buraco em que nos metemos, porque, como dizia o Lawrence Stone, tudo que acontece de importante na história é multicausal.
O antipetismo é um fator central, derivado de vários fatores, em ordem de importância: os escândalos de corrupção, o conservadorismo moral, a crise econômica e algum conservadorismo social contra qualquer as levíssimas tentativas de amenizar a desigualdade desde a década de 90.
Só que essa eleição não foi só, e talvez nem principalmente, antipetista, porque o PT termina a eleição como o segundo partido mais importante do país.
Todo o establishment está contaminado pela corrupção, e nenhum dos grandes partidos da Nova Republica (OT, MDB, PSDB e DEM) se associou organicamente ao conservadorismo moral da considerável parcela homofóbica da população e ao punitivismo daqueles assustados com a violência.
O PSDB raiz só atende à pequena parcela da população interessada em ortodoxia econômica e tecnocracia gerencial. Conservadorismo moral e punitivismo estão presentes (às vezes muito), mas sempre pareceram mais estratégias do que essência - e por isso o partido não tem base social.
O Bolsonaro reuniu tudo:
Antipetismo ✅
Punitivismo ✅
Anticorrupção ✅ (seus pecadilhos são ignorados)
Conservadorismo moral ✅ (fake, mas convence)
Autenticidade ✅ (pra mim ele só parece burro, mas ele externa o senso comum que muita gente acredita)
O bolsonarismo do PSL e afins varreu o país e reordenou completamente o eixo da política. WhatsApp e Facebook foram importantes porque muita gente que não lia ou prestava atenção no noticiário político passou a se informar por esses canais como forma de interação social.
Certamente rolou crime eleitoral aí, mas a gente não deve minimizar o engajamento cívico das pessoas. Muita gente se mobilizou, com a euforia de estar participando da política e mudando o país: o problema é que é pra pior.
O Bolsonaro acabou sendo o polo em que as esperanças das pessoas foram projetadas, o que foi facilitado pela tragédia da facada, a aura de mártir que lhe circundou e a possibilidade de fazer campanha de casa.
O núcleo do bolsonarismo é o antiesquerdismo, definido de forma ampla como “tudo isso que está aí”: o liberalismo econômico do Posto Ipiranga só entra pra legitimar uma política preconceituosa, violenta é intolerante.
É uma inversão extremada da estratégia tucana, mas mais bem-sucedida eleitoralmente porque coloca o que é principal pra uma parcela maior do eleitorado (o conservadorismo punitivista) em primeiro plano e, como nunca foi governo ou relevante, não tem grandes escândalos.
A estratégia lulista de esticar a corda e a confiança do establishment de que nada ia mudar deram muito errado. O petismo torcia pro Bolsonaro achando que seria fácil derrotá-lo e adotou uma estratégia que fez sentido pro partido mas se provou terrível pro país.
A política hegemônica do PT cobrou seu preço: o partido foi abandonado no segundo turno e foi incapaz de sequer esboçar uma frente democrática. Não estendeu publicamente a mão o quanto deveria, talvez pra evitar contradições muito flagrantes com seu discurso progresso e futuro.
Fez um programa pros convertidos e passou grande parte da campanha falando pra dentro. Quando surgiu, após quase duas semanas de ressaca da porrada do primeiro turno, a frente democrática foi obra das pessoas e não do PT.
O Haddad era a melhor pessoa pra essa campanha, mas por disputas de poder ou interesses pessoais figuras como Gleisi, Pimentel e Pochmann atrapalharam demais. O PT tinha que ter feito a tal autocrítica há muito tempo - mas não acho que isso teria virado a eleição.
No final das contas, foi 55% a 45%. Foi a terceira menor vitória em segundo turno, só acima da de Collor em 89 e da Dilma em 2014 (abaixo de 2002, 2006 e 2010). Não foi tão acachapante quanto sugere o adesismo desenfreado das elites econômicas, políticas e administrativas.
Esses 55% são de fascistas? Óbvio que não. Tem uma parcela homofóbica, racista, machista, autoritária e violenta que é deplorável mesmo, mas certamente não chega a 20%. O resto tá pra disputar politicamente.
Sendo assim, o que esperar? A política brasileira agora vai girar em torno da extrema-direita: quem vai se opor à ela? A centro-direita, a centro-esquerda ou uma esquerda mais hard? O PSDB vai ser controlado pelo Dória e virar linha auxiliar do PSL, que já está na sucessão.
O PT vai viver uma intensa briga interna pelo controle do partido. Espero que Haddad e Jacques Wagner saiam por cima. Rede/PV/PPS e PSOL são pequenos. O Ciro deve cair num ostracismo merecido.
O bolsonarismo vai começar que nem um trator, com a adesão já anunciada da imensa maioria dos prefeitos, governadores e deputados - no Senado desconfio que vai ter mais dificuldades. Seu principal limite vai ser sua incompetência e inexperiência.
Vão começar a discussão de pautas econômicas, mas a relativa melhora cíclica da economia impulsionada pelo crescimento da confiança dos consumidores e da economia, assim como por um cenário internacional benéfico, deve tirar erradamente a urgência.
Como o Bolsonaro vai tentar corresponder às expectativas messiânicas colocadas sobre ele? Com pautas sobre costumes e segurança. Armamento, Escola sem Partido, mudanças na BNCC, redução da maioridade penal, que só não passam se a articulação política for muito ruim.
A situação dos professores vai ser muito ruim, e as universidades públicas vão ser sufocadas pelo desfinanciamento e repressão aos protestos.
Na segurança, vai haver um aumento brutal da violência policial, estimulado menos pelas leis do que pela retórica do Bolsonaro e muitos governadores, o que deve gerar maior sensação de segurança por um tempo, mesmo que a violência aumente.
A criminalização dos movimentos sociais deve ocorrer e gerar grandes debates judiciais, mas em geral deve haver também um aumento da violência contato índios, ativistas e LGBTs. Temos que pensar como proteger uns aos outros.
A relação com a imprensa deve ser muito conflituosa (exceto com os amigos, como a Record) e grande parcela dos apoiadores vai ignorar os problemas (fake news!). O nível do debate político vai piorar ainda mais, porque as pessoas vão viver em realidades paralelas.
Na seara ambiental o cenário vai ser literalmente de devastação, provavelmente atraindo críticas internacionais fortes, com possíveis consequências econômicas, como sanções da União Europeia - cujas agricultores adoram desculpas pra diminuir a competição a que são expostos.
Mas o que deve acabar a lua de mel com o mercado financeiro deve ser a dificuldade de lidar com a questão fiscal. A economia deve ser mal gerida, mesmo que atraiam colaboracionistas competentes, porque as concepções do Posto Ipiranga se chocam com as do núcleo político mais forte
Como o Renan Calheiros previu, o problema deve começar na segunda metade do ano que vem e estourar na época das eleições municipais, que devem fortalecer uma oposição - qual não sei.
Pra terminar porque preciso dormir, não acho que vá ter golpe militar ou algo do gênero. Os próximos anos vão ser de aceleração da erosão em curso da democracia brasileira, mas demorará pelo menos uma década pra gente virar uma ditadura, a julgar pelos exemplos internacionais.
Tudo vai depender do que vai acontecer nos próximos anos e da gente não normalizar os absurdos que virão, conseguindo fazer oposição a eles. O Bolsonaro é só um sintoma de um problema mais amplo, a febre que resulta da infecção da Nova República.
Eles querem acabar com a Nova República, que tantos avanços trouxe apesar de seus imensos problemas. Cabe a nós lutar pra que sua vida não tenha sido só de 30 anos. Nada está decidido, e nada estará por vários anos ainda. A luta é longa e tá longe de terminar.
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