My Authors
Read all threads
Tenho pouco/nada interessante a dizer sobre o problema do racismo. Mas meu doutorado foi sobre um tema com algum contato: a violência, incluindo escravidão e extermínio indígena, e suas repercussões na trajetória institucional dos Estados Unidos.
Segue fio 👇
A discussão teórica da tese tem como referencial principal o livro "Violence and Social Orders" de Douglass North e Barry Weingast. Mas dialoga também com as pesquisas de Acemoglu & Robinson e a literatura recente sobre guerra e Capacidades de Estado.
Essas três citações que iniciam a tese resumem bem o horizonte de preocupações de todo o trabalho. Em suma, autores e trabalhos importantes reconheceram a centralidade do problema da violência para entender o processo de desenvolvimento econômico.
Dois motivos importantes para a centralidade da violência:
1) Para o surgimento histórico da organização do Estado Moderno, definido pelo "monopólio do uso legítimo da violência".
2) Para o grau de limitação de acesso a recursos, direitos e status, seja por conflitos ou coerção.
Tanto para North quanto Acemoglu, a formação do Estado Moderno é condições necessária para o desenvolvimento. Ele contém conflitos internos, dá estabilidade para a sociedade e cria condições para o surgimento de organizações civis duradouras que melhoram as condições de vida.
E na limitação do acesso, Estado cria nova arena de conflitos. Agora políticos, não necessariamente violentos. Novos grupos podem disputar redistribuição de recursos e direitos e pressionar por novas regras institucionais que garantam acesso de mais pessoas a bens, direitos, etc.
Porém, ao me aprofundar seja nas pesquisas de North, Acemoglu, ou praticamente qualquer outro autor discutindo o tema, não consegui achar nenhuma definição precisa do que eles entendiam por violência. E não é um conceito óbvio de se entender. Muito pelo contrário.
Isso me incomodou e levou a uma das tentativas de originalidade teórica da tese. Fazer o trabalho de investigar mais a fundo o problema geral da violência e depois voltar a essa literatura e, quem sabe, identificar possíveis espaços para aprimoramento da análise.
Mapeando a discussão teórica da violência, o tratamento mais sistemático que encontrei foram as pesquisas de Johan Galtung, tido como fundador da área "Peace Studies". Influenciou até abordagem da OMS.

Ele distingue três grandes tipos de violência: direta, estrutural e cultural.
Ao voltar na discussão teórica de North & Acemoglu, achei 3 pontos que mereciam mais estudo:
1) "Alta probabilidade" de danos e privações e a tecnologia das armas
2) Violência direta, estrutural e cultural no caso da escravidão
3) Monopólio da violência e capacidades de Estado
Não tenho como resumir toda a investigação que se seguiu aqui, mas tentarei sintetizar algumas das conclusões.
Primeiro, passei a ser crítico da ideia de que os EUA, após guerra de independência e primeira democracia constitucional, criaram um estado moderno com bases para uma ordem de acesso aberto (North) / instituições inclusivas (Acemoglu).
Isso ocorreu de forma bem mais limitada do que aparece à 1ª vista. A força militar era de milícias voluntárias muito desorganizadas. A violência direta não era monopolizada devido à escravidão e aos crimes privados e sem controle nas fronteiras contra os nativos.
Isso levou a praticamente um século de guerra nas regiões fronteiriças dos EUA como exercício quase privado da violência. E conflitos crescentes relacionados com a escravidão, parte da população cada vez mais revoltada com a injustiça dela e outra cada vez mais dependente dela.
Esse poderio privado e sem controle da violência direta na expansão do oeste e direto e estrutural da escravidão culminou na Guerra Civil. Ali também se acumularam as tensões da revolução tecnológica das armas. As primeiras grandes fábricas estavam nos estados livres do norte.
Um dos argumentos de interpretação histórica da tese ante North/Acemoglu é que estado centralizado nos EUA, organização com expressivo monopólio do uso legítimo da violência, e regime institucional de acesso aberto/inclusivo, é melhor entendido *começando* após a Guerra Civil.
Ainda assim, é só o começo. A maior estabilidade pós-Guerra Civil deve-se em parte à maior escala das fábricas de armas que inviabilizaram resistências armadas internas. Violência estrutural seguiu no sul. Leis Jim Crow, substituição de escravos por trabalho de condenados, etc.
Essas capacidades adicionais de violência criadas pelas novas tecnologias e um estado mais organizado para esse fim levaram à expansão no ultramar. Guerras e invasões no Caribe e Pacífico. Com nacionalismo sempre relativizando a imoralidade ante os muitos críticos nacionais.
Há muita discussão sobre esse preparo dos EUA para a guerra e como mudou ao longo do tempo. Importância da tecnologia das armas e dificuldades das instituições de se adaptarem. Vai até início da 2ª Guerra. Mas não dá para explorar isso aqui no fio. Recomendo muito Paul Koistinen:
Caso alguém tenha achado algum desses temas interessante e queira outras referências ou arriscar dar uma olhada na tese, ela está disponível em domínio público em: repositorio.unicamp.br/jspui/handle/R…. Defendi em 2019.
Adianto que eu tenho críticas ao meu trabalho e não gostei muito do resultado final. Entrei no tema sem saber da dificuldade de achar dados. Fiquei frustrado com falta de interesse de pesquisa em violência/guerra no Brasil. Acabei indo para outra área de pesquisa.
O resultado final acabou deixando muito a desejar em questão de método. Acho que dialoga bem com a história econômica mais antiga, trabalho de historiadores de registros históricos etc., mas muito pouco com a história econômica contemporânea com modelos empíricos.
Digo pouco e não nada porque li muito da literatura empírica sobre capacidades do estado e guerra. Financiamento militar, preparo, tributação, dívida, tecnologia, gasto, etc. Discussão histórica é bem informada com revisão que fiz dessa literatura. Melhor que nada, mas limitado.
Missing some Tweet in this thread? You can try to force a refresh.

Keep Current with Thomas Conti

Profile picture

Stay in touch and get notified when new unrolls are available from this author!

Read all threads

This Thread may be Removed Anytime!

Twitter may remove this content at anytime, convert it as a PDF, save and print for later use!

Try unrolling a thread yourself!

how to unroll video

1) Follow Thread Reader App on Twitter so you can easily mention us!

2) Go to a Twitter thread (series of Tweets by the same owner) and mention us with a keyword "unroll" @threadreaderapp unroll

You can practice here first or read more on our help page!

Follow Us on Twitter!

Did Thread Reader help you today?

Support us! We are indie developers!


This site is made by just two indie developers on a laptop doing marketing, support and development! Read more about the story.

Become a Premium Member ($3.00/month or $30.00/year) and get exclusive features!

Become Premium

Too expensive? Make a small donation by buying us coffee ($5) or help with server cost ($10)

Donate via Paypal Become our Patreon

Thank you for your support!