Quantas vezes você viu notícias baseadas no "valor de mercado" dos jogadores de futebol? Rankings, listas, comparações. Times, seleções, campeonatos inteiros! A fonte é quase sempre a mesma: Transfermarkt. Chega aí que vou explicar no fio por que nada disso passa de fantasia. 👇🏻
Como o Transfermarkt calcula "valores de mercado" de jogadores do mundo todo? O @FTM_nl, veículo de jornalismo investigativo holandês, mandou os repórteres @pepijnkeppel e @tomclaessenss perguntarem aos responsáveis pelo site de estatísticas. A resposta resumidamente é: achismo.
As estimativas são feitas por gente como Martin Freundl, um assistente social de 28 anos que gasta parte do tempo livre chutando valores para jogadores. Outras pessoas ligadas ao Transfermarkt conferem, discordam, alteram, mas na real não existe nenhum embasamento científico.
Para não dizer que não há justificativa mais elaborada, Christian Schwarz, diretor do Transfermarkt para valores de mercado, diz que eles se baseiam na teoria da "sabedoria das multidões". Segundo a qual um grupo de pessoas toma decisões melhores do que um especialista sozinho.
É importante ressaltar que nem mesmo os responsáveis pelo Transfermarkt recomendam que os valores sejam levados a sério. Martin Freundl chamou de insanidade. Christian Schwarz diz que o método não é científico e que dirigentes não devem tomar decisões baseados nesses números.
A parte trágica é que muita gente interpreta como avaliação confiável. Clubes europeus usam Transfermarkt em relatórios. Eu mesmo já estive com diretor financeiro de clube grande no Brasil que, para defender que tinha bons atletas para vender e pagar dívidas, usou valores deles.
O espaço que o Transfermarkt tem na mídia com a papagaiada dos valores de mercado é um sinal preocupante de como nos comportamos. Na imprensa, jornalistas fizeram centenas de reportagens baseados em um material sobre o qual eles não tinham discernimento sobre a metodologia. E aí?
Aí que vira uma máquina de desinformação. Leitores não têm tempo de analisar minuciosamente a fonte primária dos dados. Este papel é do jornalista. Dirigentes, sim, deveriam discernir pesquisas sérias de caça-cliques. Mas muitas vezes para eles convém que valores sejam inflados.
Essa reportagem do Follow The Money é um presente de Natal pra mim, como brinquei mais cedo no #RedaçãoSporTV, porque há anos "brigo" internamente para não usar valores de mercado do Transfermarkt. Nunca foi referência minha, me recusei a participar de pautas que o envolveriam.
Eu sabia que a avaliação era tão básica? Não, mas sabia que essa estimativa é dificílima de fazer. Porque envolve, além dos atributos dos jogadores, oferta e demanda. Quantos clubes estão no mercado, quanto dinheiro eles têm, quantos atletas estão disponíveis. Isso não se chuta.
Usem o Transfermarkt para buscar dados sobre jogadores e para lembrar de valores de transferências concretizadas. Eles compilam números publicados pela imprensa. Ainda existe uma imprecisão inerente a qualquer apuração jornalística, mas há base. Só ignorem os valores de mercado.
Termino com o link para a reportagem do Follow The Money – que, aliás, é mais um exemplo de jornalismo independente amparado por assinaturas de pessoas interessadas num mundo esclarecido. Eles prestaram um enorme serviço neste caso do Transfermarkt.

ftm.nl/artikelen/tran…

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11 Dec
Mostramos no #RedaçãoSporTV um quadro com expectativas e realidades de clubes de futebol em termos de orçamento. Para você que não assistiu ao programa ou não conseguiu prestar atenção nos detalhes, aqui está. Vou aproveitar para recapitular algumas coisas em um fio rápido. 👇🏻
Fases/posições foram orçadas pelos departamentos financeiros dos clubes, ok? Não por mim. Como tivemos acesso? Em alguns orçamentos, elas estão explícitas. Nos que não estavam, procurei cada diretor/gerente para confirmar quais eram as projeções para cumprir as metas estipuladas.
Só pra lembrar: orçamento é aquela projeção que se faz antes de a temporada começar – de preferência, né? – sobre receitas e despesas. Quanto vai arrecadar, quanto vai gastar. Essas projeções esportivas são necessárias porque as receitas hoje são todas variáveis. Meritocráticas.
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17 Nov
Algumas promessas em tempos de eleição desafiam a inteligência da gente. Leven Siano, candidato à presidência do Vasco, afirma que conseguiu linhas de crédito que, juntas, somariam R$ 5 bilhões. Vou repetir o que acabei de dizer no #RedaçãoSporTV: isto é conversa de lunático. 👇🏻
Quando você pensa em crédito, precisa considerar duas coisas importantes: juros e garantias. Vamos refletir um pouco. Se o Vasco pegasse R$ 5 bilhões emprestados, pagaria anualmente em juros uma quantia maior do que a própria receita do clube. Faz sentido? Não faz. Mas segue.
Não há tampouco garantias para que o Vasco pegue R$ 5 bilhões emprestados. Mesmo que algum maluco no planeta topasse emprestar tal quantia por tudo o que o clube tem, a soma de jogadores, contratos e estádio – tudo! – não chega a R$ 5 bilhões. Então, amigos, isto não existe.
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23 Oct
A notícia de que o Cruzeiro entrou em acordo com a PGFN para renegociar dívidas com o governo tem muitas implicações. Inclusive para outros clubes e torcedores. Muita coisa ainda vou apurar para textos e podcasts, mas deixa eu soltar umas pílulas aqui pra você já se ligar. 👇🏻
Primeiro: transação tributária. Anote essas duas palavras. Bolsonaro permitiu que clubes de futebol, grandes devedores de impostos, usem esta ferramenta para obter descontos e alongar prazos. Quem quiser aderir tem até 31 de dezembro para fazê-lo. Outros clubes certamente farão.
Segundo: o Profut já era. À medida que a transação tributária foi aberta para renegociar dívidas, não fará sentido para dirigentes obedecer às regras "chatas" do refinanciamento anterior. O futebol brasileiro, como o país, vive de Refis. O sistema perpetua a irresponsabilidade.
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6 Oct
Pra você que perdeu o #RedaçãoSporTV, mostro números sobre transferências de atletas em 2020. No Brasil, temos o pior de dois mundos. Ao mesmo tempo em que a desvalorização do real nos afasta ainda mais da aquisição de jogadores de 1ª linha, temos arrecadado menos. Se liga. 👇🏻
Primeiro, o contexto. Vamos falar de compras e vendas de jogadores entre clubes brasileiros e estrangeiros, então precisamos lembrar que o câmbio disparou. O real é uma das moedas que mais se desvaloriza no mundo em 2020. Lembra da época em que o euro valia quatro reais? Já era.
Não sou a pessoa mais indicada para explicar por que nosso câmbio foi para o buraco em 2020, mas existe aí uma combinação de crise e estratégia do governo em relação à balança comercial. Real desvalorizado favorece exportação de produtos brasileiros. Também impacta no futebol.
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15 Sep
Marcelo Barreto me perguntou no #RedaçãoSporTV se o Grêmio conseguiria pagar Cavani, tentei responder com base no que sabemos das finanças tricolores e em valores especulados na imprensa. Logo, logo publicarei um texto, mas deixa eu repetir minhas palavras a respeito por aqui. 👇
Não faz muito tempo, a imprensa portuguesa publicou valores pedidos por Cavani ao Benfica. Seriam € 10 milhões líquidos. Se multiplicarmos por seis para colocar em reais, teríamos R$ 60 milhões. Depois dobramos este valor por causa de encargos, impostos etc. R$ 120 milhões, ok?
No 1º semestre de 2020, o Grêmio gastou com folha do futebol (salários, direitos de imagem, direitos de arena, gratificações etc) um total de R$ 85 milhões. Isso na soma de todos os jogadores, da comissão técnica, tudo. Por aí você percebe que o custo do Cavani é gigantesco.
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31 Jul
A coluna do @carlosemansur no @JornalOGlobo nesta sexta é, para variar, texto para enquadrar ou virar manual de redação. A imprensa frequentemente usa esses termos para se referir à derrota de um "grande": vergonha, vexame, humilhação. E o Mansur tem toda razão quando diz que...
Vergonha é um clube como o Botafogo ter quatro meses de salários atrasados a funcionários, que pedem socorro publicamente porque não têm o básico no meio da pandemia, enquanto jogadores estrangeiros são contratados para que dirigentes façam graça nas redes sociais e na imprensa.
Vergonha é um clube como o Atlético-MG tirar um técnico de uma seleção nacional, como fez com Dudamel e a Venezuela, para depois demiti-lo com um mês de trabalho. Desrespeito ao profissional, péssima conduta da diretoria, vergonha para todo o mercado do futebol brasileiro.
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