[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 6: RED BULL BRAGANTINO]
Para fechar (com certo atraso) a série sobre os números do BR20, quero falar sobre um dos times mais interessantes e menos compreendidos do campeonato. Vamos falar sobre Red Bull Bragantino!
Quem viu o Red Bull Bragantino na zona de rebaixamento no início do campeonato e imaginou uma presa fácil, se precipitou.
Desde o início, o time já demonstrava um futebol interessante. Faltava consistência, mas ela foi conquistada ao longo da competição.
Ao pensar nesse elenco, é importante levar em conta a experiência.
No início do BR20, o jogador daquele elenco com mais partidas pela Série A era Arthur, que tinha apenas 22 anos. Felipe Conceição também estava iniciando sua jornada como treinador de primeira divisão.
O time somou apenas cinco pontos nas primeiras seis rodadas e Barbieri chegou para trazer a tal consistência. Um treinador jovem, perto de completar 39 anos, mas um tanto mais experiente, inclusive na Série A.
O time evoluiu e fez a quinta melhor campanha do segundo turno, conquistando 34 pontos.
Mas não foi apenas no aproveitamento ou no saldo de gols que a melhora pode ser vista. Os indicadores de desempenho mostram bem a transformação entre um turno e o outro.
A primeira mudança visível foi pura e simplesmente na posse de bola.
O Red Bull Bragantino deixou de ser um dos times que menos tinha a bola e passou a valorizar mais o tempo com ela.
Mas não foi só a média que se alterou. Fica claro pelo gráfico que o time passou a adotar estratégias diferentes a cada partida
Um padrão emergiu: o RBB passou a ter mais posse fora de casa do que em casa. Pode parecer curioso, mas não é tão anormal no futebol brasileiro.
No Brasileirão, muitas equipes se sentem
mais confortáveis sem a bola, enquanto
se defendem em bloco baixo, ainda mais quando marcam primeiro gol. Flamengo (
Durante todo o primeiro turno, o RBB só teve mais de 55% de posse uma vez, na derrota fora de casa contra o Bahia. No segundo, foram 8 oportunidades, sendo 6 fora de casa.
Ao se adaptar melhor às circunstâncias do campeonato, passou a conquistar resultados muito melhores.
O RBB era um dos times mais verticais do BR20. No começo, porém, o jogo frenético fazia com que a bola estivesse sempre em disputa e a posse do time fosse muito quebrada.
Com o tempo, passou a evitar duelos ofensivos e ter a bola não só por mais tempo, mas de forma mais contínua
Mesmo ficando mais com a bola e se tornando mais paciente com, o time seguiu sendo objetivo.
Passou a entrar ainda mais vezes na zona de ataque, a frequentar mais a área dos adversários e conseguiu até melhorar a já ótima marca de finalizações por entradas no último terço.
Os ajustes deram mais estabilidade para liberar a criatividade do time sem perder verticalidade.
O número de finalizações por minuto de posse de bola seguiu sendo o maior do campeonato, mas os úmeros de passes-chave e de chances criadas dispararam.
O RBB passou a finalizar mais vezes, mas também a finalizar em condições melhores. Com isso, o valor do xG (gols esperados) aumentou muito.
Assim, o ataque que havia marcado 22 gols no primeiro turno fez 28 no segundo.
A evolução, porém, não se limita ao ataque. A busca pelo equilíbrio envolve também a parte defensiva do jogo.
O RBB sofreu 26 gols no primeiro turno e apenas 14 no segundo, se tornando a defesa menos vazada da segunda metade do BR20.
O principal aspecto a ser destacado, no entanto, é a coerência das ideias ofensivas e defensivas.
Afinal, o futebol é um jogo encadeado e, portanto, a maneira de atacar influencia a maneira de defender.
Sem a bola, o Red Bull Bragantino passou a ser um time muito mais agressivo, que buscava o combate o tempo todo e, assim, quebrava muito mais a posse dos adversários, tornando o jogo deles mais picotado e aleatório.
O RBB já era o time que mais subia em bloco para realizar uma marcação-pressão, mas melhorou muito a eficiência, o que forçou mais erros dos outros times e aumentou o número de bolas roubadas no campo de ataque, afastando os adversários do próprio gol e aumentando a posse de bola
Mesmo quando não roubava a bola, essa marcação-pressão forçava o chutão dos adversários, o que aumentou muito o número de duelos aéreos, mas também aumentou a eficiência nessas disputas.
Afinal, a defesa tem mais facilidade porque pega o chutão de frente.
No primeiro turno, 6,4% dos passes tentados pelos adversários eram longos, com 61,4% de acerto. No segundo, saltou para 8,7%, com 58,4% de acerto.
O número de disputas aéreas entre a entrada da área de defesa e o meio-campo aumentou de 10 para 15 por jogo, entre os dois turnos.
Além disso, para completar o encaixe no modelo de jogo, o RBB passou a ser um time mais equilibrado, que contra-atacava um pouco menos, mas seguiu sendo o mais eficiente em gerar finalizações dessa forma.
Além disso, alcançou o equilíbrio através de uma pressão pós-perda intensa e da organização de um time que ataca preparado para defender, se tornando a equipe pouco vulnerável a contra-ataques, apesar de ser muito contra-atacada.
A queda nesse número é quase inacreditável!
Flamengo e Atlético-MG, os dois grandes exemplos de equipes que tentavam controlar o jogo pela bola no BR20, sofreram com esse desequilíbrio. O time carioca conseguiu corrigir, pelo menos em parte, na reta final, mas o mineiro foi refém da sua fragilidade nesse quesito.
Por fim, o bom e velho funil para resumir tudo.
A ideia é aquela de sempre: quebrar a fase ofensiva e a defensiva em etapas e entender cada aspecto isoladamente.
O funil ofensivo mostra que, ao aumentar a posse, o volume e a qualidade das chances, o Red Bull Bragantino melhorou muito sua produção ofensiva, mesmo com uma progressão mais paciente e uma conversão levemente pior.
No funil defensivo, quanto menor os números, melhor.
A posse de bola, geralmente considerada uma métrica ofensiva, foi o fator determinante na melhora da defesa. Além disso, a conversão dos adversários caiu e consagrou a melhor defesa do segundo turno.
A melhora do Red Bull Bragantino foi clara, mesmo que os sinais de um bom futebol já estivessem presentes desde o início. O clube alcançou essa evolução sem abrir mão da sua identidade. Pelo contrário, parece ter se tornado exatamente o time que desejava ser desde o início.
O Brasileirão é longo e difícil. Manter a regularidade em alto nível durante todo o campeonato é uma tarefa complicada, mas fica claro que o RBB é um time diferente, que propõe um tipo de jogo próprio e, na segunda metade do campeonato, aliou grandes atuações a ótimos resultados.
Para entender o RB Bragantino nessa temporada, não basta olhar para o desempenho médio da temporada passada.
O clube terminou em alta, manteve o treinador e boa parte do elenco, partindo de um patamar muito interessante para iniciar o BR21.
Vale voltar ao início da reflexão, falando sobre experiência: esse elenco é muito jovem. Hoje, o RBB tem aqueles mesmos jogadores, mas um ano mais velhos e com uma temporada já vivida na primeira divisão.
Se conseguir manter o ritmo de evolução sem oscilar demais, certamente o clube brigará muito em breve por objetivos que pouca gente no futebol brasileiro vislumbra no momento.
É possível que daqui a alguns meses todos descrevam um bom BR21 do RBB como "surpreendente". Será?
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A gente fala muito no ÚLTIMO PASSE, mas para entender o Flamengo atual é mais importante investigar aquilo que eu gosto de chamar de PRIMEIRO PASSE — que nem precisa ser um passe e muito menos ser o primeiro, mas é como a bola sai lá de trás para iniciar uma sequência ofensiva.
Tudo começa no goleiro, mas antes de falar sobre o papel fundamental exercido por Diego Alves, é preciso falar sobre o comandante, sua história e como sua experiência em campo moldou sua visão fora dele.
Rogério Ceni foi um goleiro revolucionário — pelo menos com os pés. Todo mundo sabe, mas vale lembrar: ele marcou 131 gols na carreira, sendo 61 de falta!!
Assim, inspirou uma geração de goleiros brasileiros que tentam bater faltas — algo que praticamente só existe por aqui.
Desde a reestreia dos titulares, o Flamengo jogou 13 partidas — algumas com o time completo, outras com o misto e algumas com os reservas.
Foram 18 gols sofridos. Média de quase 1,4 por jogo. Número alarmante.
Mas há um vilão bem particular...
Até o primeiro jogo da final do Carioca, o time tinha tomado 6 gols — em 6 jogos diferentes — diretamente de escanteios! Sofreu gols assim em METADE dos jogos!
Como essa é uma das grandes armas do Fluminense, era óbvio que tentaria forçar dessa forma.
O Fla até conseguiu ceder poucos escanteios no jogo. Apenas 3.
Inclusive, quando Filipe Luís optou por jogar a bola para a linha de fundo, houve uma reclamação mais dura que ele retrucou. O Flamengo sabia que não podia dar esse tipo de chance.
O Flamengo ficou muito acuado no segundo tempo contra a LDU e não conseguiu colocar a bola no chão. Quando conseguiu, saiu o pênalti que selou a vitória.
Vale a pena olhar esse lance nos mínimos detalhes, porque tem muita coisa interessante.
Depois de um domínio completo no primeiro tempo, ditando todo o ritmo do jogo e mantendo a bola, vários fatores influenciaram nessa dificuldade de ficar com a posse no segundo.
Um deles foi a mudança de goleiro.
Com a maior pressão da LDU, o Flamengo tinha menos espaço para sair. Quando iniciava as jogadas lá de trás, tinha Hugo — e não mais Diego Alves —, que tem uma notória dificuldade com os pés.
Os tiros de meta passaram a ser longos e a zaga também só aliviava com chutões.
Guardiola é bom demais. Se adapta bem demais. Esse City é completamente diferente do City nas suas primeiras temporadas, que era diferente do Bayern, que já era diferente do Barça.
O futebol muda o tempo todo e ele está sempre lá na vanguarda!
Hoje o mundo viu mais uma vez o Jogo de Posição Guardiolista em ação: aquela filosofia que exige que todos os jogadores fiquem parados em campo, esperando a bola. Quem der um passo, vai pro banco na hora! O futebol de totó é finalista!
Ah, não... pera...
É brincadeira, mas não é muito distante do que vem sendo dito nos últimos tempos por aqui. É realmente fascinante o nível de distorção que tivemos nesse debate "posicional".
O City é todo sobre fluidez e controle, como Pep adora!
Há exatos 10 anos, o Barcelona de Pep Guardiola controlou a posse contra o Real Madrid de José Murinho, garantiu o 1x1 no Camp Nou e se classificou para a final da Champions League.
Aquele jogo em si não foi nada demais, mas foi a culminância de um momento único na história.
O Barça de Guardiola assombrou o mundo, conquistando tudo logo na primeira temporada. Na temporada seguinte, também levou o Campeonato Espanhol, mas foi parado na Champions League pela Inter de Mourinho.
O Real, então, foi buscar o treinador português: o anti-Barça.
O primeiro encontro entre os dois times naquela temporada 2010/11 terminou de maneira absolutamente inesperada: 5x0 para o Barça!
Mas aquele não era o fim da história... Muito pelo contrário!