TERAPIA COM PSICODÉLICOS: O QUE RESPONDO QUANDO ME PEDEM INDICAÇÕES
Eu recebo muitas solicitações –tanto de quem busca ajuda para tratar transtornos mentais quanto de colegas médicos– sobre como fazer tratamento com psilocibina, ayahuasca ou MDMA. Aqui vai um cordel sobre isso.
Antes de começar:
• Os psicodélicos são poderosos. Seu uso não é inócuo. Nem todos podem usá-los.
• Este cordel não tem a intenção de incentivar qualquer pessoa a fazer 'automedicação' com psicodélicos.
• Informe-se. Não dá para esclarecer completamente um tema via Twitter.
Tem sido divulgado na imprensa que, junto com as eleições nos EUA de 2020, os cidadãos do estado do Oregon aprovaram por meio de um plebiscito uma medida que permite a administração assistida de 'cogumelos mágicos' para o tratamento de transtornos mentais. viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br/2020/11/04/ore…
Como sou psiquiatra e este é um assunto que eu estudo no meu grupo de pesquisas, frequentemente recebo solicitações, que chegam das formas mais variadas, pedindo a indicação de um terapeuta psicodélico, perguntando como se faz o tratamento e até pedindo que eu faça atendimentos.
Apesar do assunto estar em destaque na mídia, e mesmo que os jornalistas frequentemente façam ressalvas sobre isso, é comum que as pessoas não compreendam que ainda não há, no Brasil ou em qualquer lugar, terapias regulamentadas com psicodélicos ou MDMA. uol.com.br/ecoa/ultimas-n…
Mesmo a recém-aprovada Medida 109 no Estado do Oregon não estabelece com clareza ainda como será organizado o que é proposto, o uso terapêutico assistido de "produtos de psilocibina". A regulamentação ficará por conta de medidas posteriores por parte de autoridades estaduais.
Dois outros pontos da medida:
• Os 'produtos de psilocibina' podem ter várias fórmulas: cogumelos, extrações e mesmo psilocibina sintética.
• O pagamento do tratamento é por conta do paciente, nada de reembolso do sistema público ou do seguro-saúde. ballotpedia.org/Oregon_Measure…
Aqui no Brasil, portar, plantar ou vender cogumelos psicodélicos do gênero _Psilocybes_ (que são os que contêm psilocibina) não é ilegal. Os cogumelos não estão na lista de plantas e fungos proibidos da ANVISA. Mas isso não significa que alguém possa prescrevê-los como remédios.
Esse é um caso semelhante ao da ayahuasca, bebida psicodélica de origem amazônica. As plantas que a compõem não são proibidas. O uso ritual, religioso e científico da ayahuasca está amparado pela legislação brasileira, mas o uso terapêutico não está previsto e nem regulamentado.
No caso do MDMA, que é o princípio ativo do que é popularmente conhecido como MD, bala ou ecstasy, a coisa é mais complicada. A substância é sintética e proibida. Embora haja estudos experimentais encorajadores, inclusive um no Brasil, não há autorização para uso em tratamentos.
"Poxa, Tófoli, mas e os estudos de psilocibina e ayahuasca para depressão e de MDMA para estresse pós-traumático? Eles não autorizam o uso terapêutico?"
Bem, a resposta mais curta e direta é, simplesmente, NÃO.
A resposta esperançosa seria AINDA não.
Mas, enfim, não é não.
Ainda há um certo caminho, que deve levar anos, para que seja permitido prescrever MDMA e psilocibina ou cogumelos mágicos e ayahuasca.
Para isso, é preciso demonstrar cientificamente a eficácia dessas substâncias, um passo absolutamente necessário para a autorização da ANVISA.
No meio do caminho pode-se descobrir que estas substâncias não são suficientemente eficazes ou que ao se pesar custos e benefícios, as alternativas existentes, como medicação antidepressiva e psicoterapia, sejam mais seguras.
Ou seja: temos que pesquisar mais. E mais. E mais.
"Mas Tófoli, o que você acha? Essas substâncias curam?"
Até onde estudei este assunto, e não foi pouco, a minha opinião pessoal é de que SIM, no futuro elas poderão ser formas de tratamento, embora 'curar' seja uma palavra simbolicamente muito forte. Eu prefiro dizer 'tratar'.
Porém –e aqui voltamos finalmente à minha resposta às perguntas que me fazem– é preciso ter clareza de que ninguém, no Brasil, está autorizado a administrar, fora de contexto científico-experimental, cogumelos mágicos, psilocibina, MDMA ou ayahuasca para fins terapêuticos.
Assim, se alguém afirmar que pode prescrever psicodélicos, provavelmente está equivocado ou mentindo, e sujeito a sanções. Esses casos me lembram a letra de 'Bogotá', do @CrioloMC: "Fique atento, irmão, quando uma pessoa lhe oferece um caminho mais curto".
Há zonas cinzentas, porém. Por exemplo, um terapeuta ou clínico pode legalmente acompanhar uma pessoa que está paralelamente frequentando uma religião ayahuasqueira ou fazendo uso de cogumelos mágicos, desde que esta pessoa seja adulta, consciente e informada dos riscos.
Entre os principais riscos estão, no caso da psilocibina e da ayahuasca, a piora de sintomas psicóticos ou bipolares pré-existentes, ou até o aparecimento de um primeiro surto. No caso do MDMA há também risco de dependência. O local e forma de uso também são importantes.
Então é isso, pessoal. Compreendo e lamento a angústia de quem busca novas formas de tratamento, mas como a covid-19 tem demonstrado, o tempo da Ciência funciona no seu próprio ritmo.
Se quisermos tratamentos com evidências, precisaremos esperar mais um pouco...
Ah, e uma dica final!
Se você é terapeuta ou interessada/o no tema e deseja se juntar a pessoas que estudam os psicodélicos, recomendo fortemente que procure conhecer mais sobre a Associação Psicodélica do Brasil e seus diversos projetos.
Mais um adendo importante, lembrado pela querida @SilviaCazenave: os cogumelos com psilocibina não são proibidos no Brasil, mas a substância pura, a psilocibina, é tão proibida quando o MDMA, a mescalina ou o LSD. Valeu pela lembrança, Silvia! 😘
A imagem de capa deste cordel usou o @DeepDreamGen aplicando o quadro da amiga psiquiatra e artista Vanessa de Almeida Silva (@vansi72) chamado 'Primavera' sobre uma imagem de cultivo de _Psilocybe cubensis_.
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O estado do Oregon, onde a maconha já era legalizada, dá um passo adiante e descriminaliza todas as drogas. Agora, como em Portugal, usuários não poderão ser mais presos por posse de drogas neste estado americano.
Cada pedrada desse artigo da @TheAtlantic é válida se você trocar a palavra 'Trump' por 'Bolsonaro'.Apenas parece que a anestesia social crônica que vivemos permite que aqui ele passe ainda mais incólume do que aquele que ele copia por lá. Segue o cordel: theatlantic.com/ideas/archive/…
O contexto do artigo da Atlantic é o adoecimento por COVID-19 de Trump.
Embora a contaminação de Bolsonaro tenha passado (aparentemente) incólume, tudo o que é dito aqui poderia ter sido escrito quando o presidente do Brasil declarou seu (suposto) resultado positivo ha 1 mês.
"Você não pode esperar que a Casa Branca [/o Palácio do Planalto] produza qualquer plano ordenado para a execução dos deveres públicos de Trump [/Bolsonaro], mesmo na medida muito limitada em que ele executou seus deveres públicos pra começo de história.
Gente, o resultando do preprint da equipe do Nicolelis sobre a relação entre sorologia para dengue e casos/mortes por COVID-19 é muito promissor e merece ser estudado de forma mas profunda, mas devagar com o andor. [+]
São dados ecológicos, que no linguajar de epidemio significa que as associações foram feitos ao nível de territórios e não indivíduos. Resultados assim estão sujeitos à chamada falácia ecológica. Ou seja, a causa pode ser outra que varie territorialmente junto com a dengue. [+]
Já tem gente por aí dizendo que essa descoberta vai revolucionar nossa reposta à Covid. Pode ser? Sim. Dá pra dizer com certeza? Não.
Ainda falta um longo caminho. Para começar o artigo ser publicado em um periódico revisado por pares... [+]
No longínquo ano de 2013 – parece ter sido no século passado, não? – eu dei essa resposta para o insubstituível Antonio Abujamra, no episódio 634 do 'Provocações' original. Hoje, eu ainda responderia a mesma coisa. E você?
Aqui está a entrevista na íntegra. Vou fazer um mini-cordel a seguir aqui contando como foi que ela aconteceu, pois eu era na época um cara totalmente desconhecido fora do meu ambiente de trabalho.
Era o tempo em que o Facebook ainda não tinha envenenado completamente o seu algoritmo, e ainda dava para interagir e descobrir pessoas interessantíssimas por lá. Foi assim que eu conheci a Katia Gavranich Camargo e ficamos face-amigos.
Desaprendemos a lidar com as sutilezas? Tem muita gente cujas atitudes eu desaprovo, mas que trouxeram com sua obra grandes contribuições à coletividade.
Se cancelamos tudo o que alguém por um deslize cometido por uma pessoa, não vai sobrar nada nem ninguém.
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Claro que há limites para o que eu estou falando. O problema é o sarrafo da perfeição se torna progressivamente mais alto, e é proporcionalmente mais fácil e rápido saber dos podres de alguém. E ninguém é perfeito.
Será que estamos fazendo bom uso dessas ferramentas?
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Curiosamente, na era digital, parece que estamos cada vez mais rodando o software original, programado desde o pleistoceno: queremos exterminar tudo aquilo que é diferente da nossa tribo, e as tribos se tornam cada vez mais específicas por meio dos laços virtuais.