A questão nunca foi se Bolsonaro era ou não liberal. A questão do Mercado (e de todo os outros setores) sempre foi o tamanho da influência que eles teriam sobre um presidente como Bolsonaro.
Esse é um dos pontos cruciais: Bolsonaro sempre foi um político incapaz. Conseguiu uma projeção nacional, ganhou uma tração midiática, mas nada disso adiantaria se não fosse pelo apadrinhamento de alguns setores.
Bolsonaro não era o candidato original do mercado. A confiança do Mercado estava antes no Alckmin e depois no Meirelles. E aqui fica evidente o tamanho da influência que o Mercado tem na hora de se decidir uma eleição: é bem menor do que se imagina.
Inclusive, diria, parecer maior do que de fato é, esta é a grande estratégia do Mercado. Até para superar a influência de outros setores cujos interesses, por vezes, batem de frente, como a Industria, o Agro e setores populares.
E esse é um ponto fundamental: não podemos entender que estes setores sejam um só, cada um tem suas próprias especificidades, seus próprios representantes, suas próprias agendas. E por isso mesmo, muitas vezes, acabam passando um na frente (ou por cima) do outro.
O Mercado, como o Agro, como a Industria, abraçaram Bolsonaro ao longo da campanha. O Mercado talvez tenha sido o último setor - teria que recuperar isso. Mas o ponto é: todos os setores abraçaram o bolsonarismo com uma promessa, de que Bolsonaro seria um presidente fraco.
Bolsonaro foi colocado como um bobo da corte. A ideia seria deixá-lo ali fazendo suas palhaçadas, entretendo seu público com suas bravatas, enquanto estes setores avançavam suas agendas.
Boatos dão conta de que as reuniões iniciais de composição do governo foram feitas diretamente entre os representantes destes setores. Bolsonaro estava excluído desse processo.
O único grupo que apostava em um caminho distinto eram (e ainda são) os Olavistas, e em menor escala os evangélicos. Estes são os únicos que apostam no fortalecimento do presidente, na concentração dos poderes sob a sua figura.
Não é por coincidência que o governo bolsonaro comece com uma guerra intestina entre olavistas e militares. Os olavistas entendiam que os militares desejavam controlar o governo bolsonaro - afinal, eles foram seus principais fiadores. Por isso os conflitos com o Mourão.
Por isso o próprio Bolsonaro, desde o primeiro momento, passou a adotar a postura do "quem manda aqui sou eu". Os recados não eram para o povo, eram para os próprios setores que compunham o seu governo.
Pois ele sabe que é substituível. Por isso o marco zero do seu governo é, justamente, a criação de um projeto de poder bolsonarista. Lembram dos olavistas e do próprio Olavo falando sobre a necessidade de se constituir uma militância bolsonarista?
Eles falavam explicitamente sobre abandonar as pautas liberais, conservadoras, etc... e adotar a ideia de que o projeto a ser defendido era o projeto de poder do presidente. Você encontra o mesmo na constituição da Aliança pelo Brasil.
Quando você olha para trás, percebe que até a crise no PSL teve uma relação direta com todo esse processo: tratava-se de um salamaleque de poder. Bolsonaro dizendo que não seria um mero peão do conluio que o colocou no poder.
De fato, até o rompimento público com figuras como Magno Malta e Bebbianno ganham mais sentido quando pensamos nisso.
Resumindo: todos os grupos apostaram que teriam uma marionete. Mas a marionete se revoltou e passou a agir por interesses próprios, colocando o seu projeto de poder acima de todos os outros interesses, até mesmo os da nação.

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22 Feb
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