Nessa altura do campeonato, você consegue imaginar um hospital no Brasil onde o coronavírus NUNCA entrou?
Ele existe.
E por que estou falando disso hoje?
🧶Segue o fio:
Estamos às vésperas de completar um ano de uma iniciativa inédita que se tem notícia no mundo. No dia 25 de março de 2020 (14 dias depois de a OMS decretar pandemia), o hospital que é pioneiro a se dedicar integralmente aos cuidados paliativos no Brasil entrou em lockdown.
O objetivo? Impedir que o coronavírus entrasse e atingisse os pacientes, diagnosticados com doenças crônicas e com um estado de saúde especialmente frágil.
Naquela altura, eram 57 mortos pela Covid-19 no Brasil.
Eles passaram a operar com 44% dos funcionários, os que toparam encarar a missão. Os outros, que não puderam ficar, continuaram recebendo o salário integral.
Dali pra frente, foram 100 dias em que pacientes, funcionários e a direção do Hospital Premier ficaram confinados.
Fazia-se tudo ali: comer, dormir, trabalhar. Mas também havia academia à disposição, cinema, belos jardins, pôr-do-sol atrás da Ponte Estaiada, ping-pong, alongamento. Rolou até festa junina, churrasco e pizzada.
Os uniformes passaram a ser realmente uniformes: médicos, fisioterapeutas, copeiras, faxineiras, porteiros, terapeutas ocupacionais, diretores e enfermeiros usavam um duo de calça de elástico e camiseta simples de cores variadas. Vermelho, azul, amarelo, verde.
Nenhum médico de jaleco, nenhum executivo de sapato.
Essa decisão é emblemática, pois desenha a sociedade horizontal que se formou ali: médicos dando banho em pacientes, profissionais de T.I com carrinho de comida pelos corredores, fisioterapeutas lavando louça, o diretor +
+ do hospital cuidando do café da manhã de todos desde antes de o dia amanhecer.
E eu pude ver isso de perto por duas vezes. Fui a única jornalista autorizada a entrar e reportar o que acontecia.
Claro, com todos os cuidados, entrevistas prévias, garantias de isolamento e muita confiança. O caso ganhou o mundo: na tela da Globo, nas principais rádios do país, na capa do site do The New York Times, no Le Monde.
Da primeira vez em que entrei, fiquei apenas por algumas horas. Estavam todos muito tensos, sem saber o que ia acontecer, montando camas às pressas e armando dormitórios pra equipe em salas que antes eram administrativas ou de armazenamento.
Você consegue se lembrar de todas as incertezas da pandemia logo após a OMS decretá-la? Era exatamente naquela hora.
A experiência foi dando certo: com o tempo, ao notar que todas as medidas funcionavam, aquela mini-comunidade foi ficando mais mais confortável.
Os familiares passaram a ver seus entes queridos internados através de um vidro na fachada do hospital. Um lugar que foi batizado de "Janela dos Encontros".
Três meses depois, começaram a programar a reabertura.
E eu pude novamente entrar - só que, naquela vez, morei no hospital por nove dias. Foi uma experiência única. Observar aquele comprometimento de cada pessoa envolvida nessa empreitada, ser acolhida por quem estava tão cansado mas, +
+ ao mesmo tempo, tão vitorioso; a Covid não havia entrado. Ninguém contaminado. Quem morreu naquele meio tempo, morreu de causas naturais, no próprio tempo, com cuidado e dignidade.
Fiquei lá até o dia da abertura. Fechei mais um episódio do @podcastfinitude - que viria a ser agraciado com uma Menção Honrosa do Prêmio Vladimir Herzog. Aí já eram 59.656 vidas perdidas pelo coronavírus no Brasil:
...e também fui responsável pelo roteiro do documentário "Esquina do mundo". Direção de João Rocha Rodrigues e produção de @xruam:
Dali pra frente, a quarentena precisou ser flexibilizada. Com temor, um regime misto foi adotado. E tbm funcionou. Hoje, às vésperas de essa iniciativa completar um ano, absolutamente nenhum paciente foi contaminado. Do lado de fora dessa bolha,o Brasil chora seus 300 mil mortos.
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Exigir que esses profissionais, que já estão há um ano trabalhando com medo, à exaustão, e sem abraçar seus familiares, escolham para quem dar um leito, um respirador ou um medicamento, é contra todos os critérios científicos sobre o tema.
Trata-se de uma Escolha de Sofia, termo que ganhou fama após um filme clássico protagonizado por Meryl Streep, no qual "Sofia", uma mãe polonesa, filha de pai anti-semita, é presa num campo de concentração durante a Segunda Guerra e é forçada por um soldado nazista a escolher +
Trata-se de uma morte cruel, desumana, indigna, por omissão de socorro, falta de atendimento ou falta de medicamento/leito/exame. Ou seja: morre-se numa fila de hospital, à espera de um medicamento, leito de UTI ou de um cilindro de oxigênio, por exemplo.
(3/11)
Na capital paulista, por exemplo, a Prefeitura confirmou, nesta semana, que já houve a primeira morte de uma vítima da doença sem atendimento adequado na rede pública.
Com todo o respeito pelo Ruy Castro e com todo o desprezo por Trump e Bolsonaro, me sinto no dever de escrever sobre isso.
Não sou psicóloga, sou jornalista. Já fiz reportagens sobre suicídio em grandes redações e atualmente cubro especificamente temas relacionados à morte. +
Antes de a gente seguir neste fio, vale lembrar que se você está passando por alguma situação delicada ou conhece quem está, o @CVVoficial é um atendimento sigiloso, gratuito e 24h. Pelo telefone 188 ou pelos canais de comunicação na internet. +
Também há o mapasaudemental.com.br, desenvolvido pelo Instituto Vita Alere - uma referência em prevenção e posvenção ao suicídio. Neste site há contatos de psicólogos e psiquiatras gratuitos em todo o Brasil, online ou presencial.
Nos últimos dias tive uma das experiências mais incríveis da minha vida.
Segue o 🧶
O Hospital Premier, o 1º do Brasil a se dedicar integralmente aos cuidados paliativos, esteve 100 dias em isolamento.
Metade da equipe escolheu ficar e a outra metade - por razões diversas - esteve do lado de fora, recebendo o salário integralmente.
A princípio, a quarentena+
duraria 45 dias. Mas, como sabemos, os números do coronavírus não param de subir. Para proteger os pacientes, em estado de saúde frágil, o único jeito era manter a medida - tão drástica quanto necessária. Se a Covid passasse por algum dos portões, poderia acontecer uma tragédia+
Nos próximos dias, infelizmente, chegaremos aos 50 mil mortos por Covid-19 no Brasil. A estimativa é de que cada uma dessas perdas deixe 10 pessoas em luto. Numa conta rápida: meio milhão de brasileiros em sofrimento.+
Isso sem falar sobre a subnotificação e sobre os óbitos por outros motivos, que continuam acontecendo.
Tem sido difícil encontrar quem não conhecia alguém que morreu por causa do coronavírus - ou que conheça quem esteja em sofrimento pela partida de um parente ou amigo. +
Por isso, compilei alguns aprendizados que venho tendo nos últimos anos, como jornalista dedicada ao envelhecimento, aos cuidados paliativos, à morte e ao luto, e na apresentação do @podcastfinitude.