A UEFA decidiu acabar com o gol qualificado, o famoso "gol fora", já a partir da temporada que vem.

Ainda que eu reconheça que a regra é um pouco estranha, acho que gol qualificado é (ou era) uma baita ideia e pretendo te convencer disso!
O principal argumento da própria UEFA é que a "vantagem de jogar em casa" vem diminuindo há bastante tempo no futebol. Isso é inegável.

Em um mundo cada vez mais globalizado, viagens são mais simples e times podem estudar adversários em detalhes.

Antes, quando a regra foi concebida, uma viagem internacional era um salto no desconhecido. Diferentes estilos eram colocados frente a frente. O futebol era uma jornada de exploração a um novo mundo.
Nesse contexto, fez sentido na cabeça de alguém dar um incentivo extra para que times atacassem mais fora de casa, especialmente no primeiro jogo, quando conheciam pouco sobre o adversário.
Mas eu argumentaria que o gol qualificado deixou de ser sobre isso. O efeito da regra no mundo atual não é dar uma "vantagem" ou um "incentivo" para quem joga fora de casa.

Ela serve para definir — de maneira inteligente e emocionante — os empates.
Porque a partir desse primeiro argumento da UEFA surge um outro muito usado: o do mérito esportivo.

Afinal, quem foi melhor em um confronto que terminou 2x1 e depois 0x1? É absolutamente aceitável dizer que ninguém conseguiu se sobressair.
Mas o futebol precisa de alguma maneira de desempatar e é muito difícil cravar com certeza qual é a forma que melhor representa o mérito.

Afinal, vários campeonatos usam saldo de gols como desempate, enquanto outros usam número de vitórias. Qual é o mais correto? O mais justo?
A alternativa em confrontos mata-mata, claro, são as disputas de pênaltis. E quem não gosta de uma boa disputa de pênaltis?

O problema é que elas são emocionantes justamente porque são raras. Se tudo acabar em pênaltis, qual é a graça? E é mesmo sobre mérito?
O menos justo, a meu ver, é usar algo totalmente externo ao jogo: um cara-ou-coroa, uma corrida de obstáculos ou um "torcidômetro".

Se fizer parte do jogo de futebol, se for relevante dentro do jogo (como o gol obviamente é) e se for definido previamente, é justo.
Simplesmente não dá para argumentar que "se tivesse gol fora, o Fluminense teria sido campeão da Libertadores em 2008" ou "o Flamengo não teria sido em 81".

Porque os times entraram em campo sabendo da regra e, obviamente, o comportamento deles foi moldado pela regra.
(Em 2008, a Libertadores teve gol qualificado em todas as fases, menos na final, mas essa é uma daquelas bizarrices que só a CONMEBOL parece ser capaz de fazer. Em 1981, tivemos um terceiro jogo em campo neutro, mas isso é impossível hoje em dia.)
Para mim, a resposta então está em encontrar a forma mais simples e emocionante — que, claro, não seja desconectada do jogo —, que estimule bons confrontos e crie grandes momentos.

A regra do gol fora é justamente isso.
(Há a polêmica da prorrogação. Estatisticamente, o gol fora contrabalanceia perfeitamente a vantagem de jogar 30 minutos a mais em casa, mas nem vou entrar nisso porque sou contra qualquer prorrogação em confrontos de ida e volta — e acabar com elas seria uma solução bem melhor)
Várias partidas só são eletrizantes por causa do gol fora. Imagine que um time venceu por 2x1 em casa e leva 1x0 fora, no começo do segundo tempo.

Sem gol qualificado, os times ficam morrendo de medo da derrota, se fecham e levam para os pênaltis. Com ele, o time PRECISA do gol!
Porque o gol qualificado introduz uma dinâmica única no futebol: um gol pode transformar derrota em vitória.

Normalmente, gols podem, no máximo, transformar derrota em empate ou empate em vitória. Essa regra — e só ela — é capaz de criar momentos verdadeiramente único.
No basquete, por exemplo, há diferentes pontuações, então um time que está perdendo por 2 pontos pode fazer uma cesta de dentro do garrafão para empatar ou de fora para virar. E essa dinâmica deixa o fim do jogo absolutamente eletrizante!
Você reconheceu a foto no primeiro tweet deste fio?

Foi o gol de Iniesta, aos 48' do segundo tempo, em Stamford Bridge, que colocou o Barcelona na final da Champions League 2008-09.
Não é exagero dizer que aquele momento foi fundamental para a formação do maior time do século, o time que mudou os rumos do futebol.

E só foi tão mágico por causa do gol qualificado. Sem ele, levaria o jogo para uma (chata) prorrogação e uma (provável) disputa de pênaltis.
Como não lembrar da icônica foto que mostra os holandeses do Ajax desabando ao chão, vendo seu sonho continental ser esmagado pelo hat-trick de Lucas Moura?

Gol fora. Se não fosse por isso, teríamos mais uma prorrogação.
Por causa de um golzinho fora, o Barcelona não pôde sentar na vantagem de 5x1 sobre o PSG no Camp Nou, que levaria o jogo para a prorrogação — e certamente agradaria os fraceses àquela altura.

O Barça foi obrigado a buscar o sexto gol. Afinal, não havia mais empate.
Pergunte a qualquer torcedor do Fluminense: qual foi o momento mais marcante da Libertadores 2008?

É bem provável que a resposta seja o gol de Washington nos acréscimos contra o São Paulo — que estava se classificando pelo gol fora e viu o sonho ruir com uma bola.
E você, rubro-negro? Eu duvido que sua alma tenha permanecido no corpo quando Elias chutou contra o poderoso Cruzeiro de 2013.

Aquela explosão se deve toda a um gol — e um golzinho bizarro — fora!
O futebol é sobre isso aí. É sobre momentos, histórias. É sobre o que a gente viveu.

O gol qualificado não é uma regra perfeita — e realmente parece esquisita hoje em dia. Mas ela cumpre um papel muito importante, que nada a tem a ver com "vantagem" de jogar aqui ou ali.
Se a alternativa fosse algo obviamente mais justo, concretamente mais coerente e objetivamente melhor para o jogo, eu seria absolutamente a favor. Mas não...

Portanto, ainda fico com o gol fora! Descanse em paz! Nunca te esquecerei!

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