Antes, quando a regra foi concebida, uma viagem internacional era um salto no desconhecido. Diferentes estilos eram colocados frente a frente. O futebol era uma jornada de exploração a um novo mundo.
Nesse contexto, fez sentido na cabeça de alguém dar um incentivo extra para que times atacassem mais fora de casa, especialmente no primeiro jogo, quando conheciam pouco sobre o adversário.
Mas eu argumentaria que o gol qualificado deixou de ser sobre isso. O efeito da regra no mundo atual não é dar uma "vantagem" ou um "incentivo" para quem joga fora de casa.
Ela serve para definir — de maneira inteligente e emocionante — os empates.
Porque a partir desse primeiro argumento da UEFA surge um outro muito usado: o do mérito esportivo.
Afinal, quem foi melhor em um confronto que terminou 2x1 e depois 0x1? É absolutamente aceitável dizer que ninguém conseguiu se sobressair.
Mas o futebol precisa de alguma maneira de desempatar e é muito difícil cravar com certeza qual é a forma que melhor representa o mérito.
Afinal, vários campeonatos usam saldo de gols como desempate, enquanto outros usam número de vitórias. Qual é o mais correto? O mais justo?
A alternativa em confrontos mata-mata, claro, são as disputas de pênaltis. E quem não gosta de uma boa disputa de pênaltis?
O problema é que elas são emocionantes justamente porque são raras. Se tudo acabar em pênaltis, qual é a graça? E é mesmo sobre mérito?
O menos justo, a meu ver, é usar algo totalmente externo ao jogo: um cara-ou-coroa, uma corrida de obstáculos ou um "torcidômetro".
Se fizer parte do jogo de futebol, se for relevante dentro do jogo (como o gol obviamente é) e se for definido previamente, é justo.
Simplesmente não dá para argumentar que "se tivesse gol fora, o Fluminense teria sido campeão da Libertadores em 2008" ou "o Flamengo não teria sido em 81".
Porque os times entraram em campo sabendo da regra e, obviamente, o comportamento deles foi moldado pela regra.
(Em 2008, a Libertadores teve gol qualificado em todas as fases, menos na final, mas essa é uma daquelas bizarrices que só a CONMEBOL parece ser capaz de fazer. Em 1981, tivemos um terceiro jogo em campo neutro, mas isso é impossível hoje em dia.)
Para mim, a resposta então está em encontrar a forma mais simples e emocionante — que, claro, não seja desconectada do jogo —, que estimule bons confrontos e crie grandes momentos.
A regra do gol fora é justamente isso.
(Há a polêmica da prorrogação. Estatisticamente, o gol fora contrabalanceia perfeitamente a vantagem de jogar 30 minutos a mais em casa, mas nem vou entrar nisso porque sou contra qualquer prorrogação em confrontos de ida e volta — e acabar com elas seria uma solução bem melhor)
Várias partidas só são eletrizantes por causa do gol fora. Imagine que um time venceu por 2x1 em casa e leva 1x0 fora, no começo do segundo tempo.
Sem gol qualificado, os times ficam morrendo de medo da derrota, se fecham e levam para os pênaltis. Com ele, o time PRECISA do gol!
Porque o gol qualificado introduz uma dinâmica única no futebol: um gol pode transformar derrota em vitória.
Normalmente, gols podem, no máximo, transformar derrota em empate ou empate em vitória. Essa regra — e só ela — é capaz de criar momentos verdadeiramente único.
No basquete, por exemplo, há diferentes pontuações, então um time que está perdendo por 2 pontos pode fazer uma cesta de dentro do garrafão para empatar ou de fora para virar. E essa dinâmica deixa o fim do jogo absolutamente eletrizante!
Você reconheceu a foto no primeiro tweet deste fio?
Foi o gol de Iniesta, aos 48' do segundo tempo, em Stamford Bridge, que colocou o Barcelona na final da Champions League 2008-09.
Não é exagero dizer que aquele momento foi fundamental para a formação do maior time do século, o time que mudou os rumos do futebol.
E só foi tão mágico por causa do gol qualificado. Sem ele, levaria o jogo para uma (chata) prorrogação e uma (provável) disputa de pênaltis.
Como não lembrar da icônica foto que mostra os holandeses do Ajax desabando ao chão, vendo seu sonho continental ser esmagado pelo hat-trick de Lucas Moura?
Gol fora. Se não fosse por isso, teríamos mais uma prorrogação.
Por causa de um golzinho fora, o Barcelona não pôde sentar na vantagem de 5x1 sobre o PSG no Camp Nou, que levaria o jogo para a prorrogação — e certamente agradaria os fraceses àquela altura.
O Barça foi obrigado a buscar o sexto gol. Afinal, não havia mais empate.
Pergunte a qualquer torcedor do Fluminense: qual foi o momento mais marcante da Libertadores 2008?
É bem provável que a resposta seja o gol de Washington nos acréscimos contra o São Paulo — que estava se classificando pelo gol fora e viu o sonho ruir com uma bola.
E você, rubro-negro? Eu duvido que sua alma tenha permanecido no corpo quando Elias chutou contra o poderoso Cruzeiro de 2013.
Aquela explosão se deve toda a um gol — e um golzinho bizarro — fora!
O futebol é sobre isso aí. É sobre momentos, histórias. É sobre o que a gente viveu.
O gol qualificado não é uma regra perfeita — e realmente parece esquisita hoje em dia. Mas ela cumpre um papel muito importante, que nada a tem a ver com "vantagem" de jogar aqui ou ali.
Se a alternativa fosse algo obviamente mais justo, concretamente mais coerente e objetivamente melhor para o jogo, eu seria absolutamente a favor. Mas não...
Portanto, ainda fico com o gol fora! Descanse em paz! Nunca te esquecerei!
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A gente fala muito no ÚLTIMO PASSE, mas para entender o Flamengo atual é mais importante investigar aquilo que eu gosto de chamar de PRIMEIRO PASSE — que nem precisa ser um passe e muito menos ser o primeiro, mas é como a bola sai lá de trás para iniciar uma sequência ofensiva.
Tudo começa no goleiro, mas antes de falar sobre o papel fundamental exercido por Diego Alves, é preciso falar sobre o comandante, sua história e como sua experiência em campo moldou sua visão fora dele.
Rogério Ceni foi um goleiro revolucionário — pelo menos com os pés. Todo mundo sabe, mas vale lembrar: ele marcou 131 gols na carreira, sendo 61 de falta!!
Assim, inspirou uma geração de goleiros brasileiros que tentam bater faltas — algo que praticamente só existe por aqui.
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 6: RED BULL BRAGANTINO]
Para fechar (com certo atraso) a série sobre os números do BR20, quero falar sobre um dos times mais interessantes e menos compreendidos do campeonato. Vamos falar sobre Red Bull Bragantino!
Quem viu o Red Bull Bragantino na zona de rebaixamento no início do campeonato e imaginou uma presa fácil, se precipitou.
Desde o início, o time já demonstrava um futebol interessante. Faltava consistência, mas ela foi conquistada ao longo da competição.
Ao pensar nesse elenco, é importante levar em conta a experiência.
No início do BR20, o jogador daquele elenco com mais partidas pela Série A era Arthur, que tinha apenas 22 anos. Felipe Conceição também estava iniciando sua jornada como treinador de primeira divisão.
Desde a reestreia dos titulares, o Flamengo jogou 13 partidas — algumas com o time completo, outras com o misto e algumas com os reservas.
Foram 18 gols sofridos. Média de quase 1,4 por jogo. Número alarmante.
Mas há um vilão bem particular...
Até o primeiro jogo da final do Carioca, o time tinha tomado 6 gols — em 6 jogos diferentes — diretamente de escanteios! Sofreu gols assim em METADE dos jogos!
Como essa é uma das grandes armas do Fluminense, era óbvio que tentaria forçar dessa forma.
O Fla até conseguiu ceder poucos escanteios no jogo. Apenas 3.
Inclusive, quando Filipe Luís optou por jogar a bola para a linha de fundo, houve uma reclamação mais dura que ele retrucou. O Flamengo sabia que não podia dar esse tipo de chance.
O Flamengo ficou muito acuado no segundo tempo contra a LDU e não conseguiu colocar a bola no chão. Quando conseguiu, saiu o pênalti que selou a vitória.
Vale a pena olhar esse lance nos mínimos detalhes, porque tem muita coisa interessante.
Depois de um domínio completo no primeiro tempo, ditando todo o ritmo do jogo e mantendo a bola, vários fatores influenciaram nessa dificuldade de ficar com a posse no segundo.
Um deles foi a mudança de goleiro.
Com a maior pressão da LDU, o Flamengo tinha menos espaço para sair. Quando iniciava as jogadas lá de trás, tinha Hugo — e não mais Diego Alves —, que tem uma notória dificuldade com os pés.
Os tiros de meta passaram a ser longos e a zaga também só aliviava com chutões.
Guardiola é bom demais. Se adapta bem demais. Esse City é completamente diferente do City nas suas primeiras temporadas, que era diferente do Bayern, que já era diferente do Barça.
O futebol muda o tempo todo e ele está sempre lá na vanguarda!
Hoje o mundo viu mais uma vez o Jogo de Posição Guardiolista em ação: aquela filosofia que exige que todos os jogadores fiquem parados em campo, esperando a bola. Quem der um passo, vai pro banco na hora! O futebol de totó é finalista!
Ah, não... pera...
É brincadeira, mas não é muito distante do que vem sendo dito nos últimos tempos por aqui. É realmente fascinante o nível de distorção que tivemos nesse debate "posicional".
O City é todo sobre fluidez e controle, como Pep adora!
Há exatos 10 anos, o Barcelona de Pep Guardiola controlou a posse contra o Real Madrid de José Murinho, garantiu o 1x1 no Camp Nou e se classificou para a final da Champions League.
Aquele jogo em si não foi nada demais, mas foi a culminância de um momento único na história.
O Barça de Guardiola assombrou o mundo, conquistando tudo logo na primeira temporada. Na temporada seguinte, também levou o Campeonato Espanhol, mas foi parado na Champions League pela Inter de Mourinho.
O Real, então, foi buscar o treinador português: o anti-Barça.
O primeiro encontro entre os dois times naquela temporada 2010/11 terminou de maneira absolutamente inesperada: 5x0 para o Barça!
Mas aquele não era o fim da história... Muito pelo contrário!