Tenho pensado muito nisso aqui.

Sei que é um vídeo "velho", notícia passada, assunto frio, mas a verdade é que tenho ruminado esse vídeo nas últimas duas semanas.

Além do teor preconceituoso da fala, o momento que me pega é quando ele afirma que "A VIDA É PORRADA"
Sim, a vida é porrada.

A gente pode aceitar essa ideia como verdade, mas existem diferentes maneiras de levar isso para a vida.

"Infelizmente, a vida é porrada" é completamente diferente de "É isso aí. A vida é porrada mesmo"
Vamos ignorar por um segundo o fato de alguém se sentir confortável para julgar, em rede nacional, a vida de outras pessoas de maneira tão direta (e grotesca).

Esse prazer sutil em ver a porrada, o caos e o sofrimento na vida do outro é o que chama a atenção.
Afinal, se o sofrimento faz parte da vida — como o próprio Buda ensina na primeira "Nobre Verdade" — a gente pode lidar com esse sofrimento de várias formas.

Tem fatos da vida que não podemos mudar, mas podemos reagir a eles de diferentes formas.
E aí podemos agir para diminuir o nosso sofrimento e o daqueles ao nosso redor.

Ou podemos ser indiferente. Ou podemos agir para intensificá-lo, o que às vezes dá no mesmo.
Essa fala do vídeo, o tom, o gestual, a escolha de palavras... Tudo denota um orgulho cruel, uma satisfação no sofrimento.

É uma mentalidade espartana de esmagar ou ser esmagado — como se não houvesse nada mais na vida.
"Quem não tem competência não se estabelece" é a continuação natural, já que surge como uma maneira de implicitamente afirmar: "eu tenho competência"

(E é preciso dar crédito à arrogância de quem monta esse raciocínio falando simplesmente de Adriano e Simone Biles)
É como se, para essas pessoas, a vida fosse um jogo, uma corrida. Quanto mais difícil for, mais valor tem.

"E se não for difícil para mim, que seja para os outros."

Foda-se. A vida é porrada — e quem não tem competência não se estabelece.
Não sei quantas "porradas" o rapaz do vídeo já tomou na vida. Torço para que tenham sido poucas e ficaria triste de saber do seu sofrimento. Isso tem um nome: empatia.

A gente sente o que o outro sente e, por isso, trabalha para que a vida seja melhor para todos nós.
O que deixou esse vídeo engasgado por aqui foi o sentimento de que essa forma de pensar é cada vez mais banalizada e difundida — com muito orgulho, aliás.
É a sociedade do "cada um cuida de si — e se der pra puxar o tapete do outro, puxa."

Ou talvez seja ainda pior. Se o outro caiu, pisa em cima. Rotula, xinga, cava o buraco. Afinal, o outro é "fraco" e só os "fortes" merecem nossa atenção.
É claro que, quando a gente fala de esportes, há vencedores e perdedores. Alguém vai ganhar e, por consequência, alguém vai perder. Essa é, inclusive, a beleza do esporte. Ele nos ensina a estar dos dois lados e que o jogo é maior que nós.

Mas a vida vai além disso...
Sim, a vida é porrada. Não dá pra negar.

A gente pode passar por isso junto ou pode se matar pra ver quem sai por cima. Eu não aguento mais cruzar com quem só quer ver o circo pegar fogo.

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