A gente pode aceitar essa ideia como verdade, mas existem diferentes maneiras de levar isso para a vida.
"Infelizmente, a vida é porrada" é completamente diferente de "É isso aí. A vida é porrada mesmo"
Vamos ignorar por um segundo o fato de alguém se sentir confortável para julgar, em rede nacional, a vida de outras pessoas de maneira tão direta (e grotesca).
Esse prazer sutil em ver a porrada, o caos e o sofrimento na vida do outro é o que chama a atenção.
Afinal, se o sofrimento faz parte da vida — como o próprio Buda ensina na primeira "Nobre Verdade" — a gente pode lidar com esse sofrimento de várias formas.
Tem fatos da vida que não podemos mudar, mas podemos reagir a eles de diferentes formas.
E aí podemos agir para diminuir o nosso sofrimento e o daqueles ao nosso redor.
Ou podemos ser indiferente. Ou podemos agir para intensificá-lo, o que às vezes dá no mesmo.
Essa fala do vídeo, o tom, o gestual, a escolha de palavras... Tudo denota um orgulho cruel, uma satisfação no sofrimento.
É uma mentalidade espartana de esmagar ou ser esmagado — como se não houvesse nada mais na vida.
"Quem não tem competência não se estabelece" é a continuação natural, já que surge como uma maneira de implicitamente afirmar: "eu tenho competência"
(E é preciso dar crédito à arrogância de quem monta esse raciocínio falando simplesmente de Adriano e Simone Biles)
É como se, para essas pessoas, a vida fosse um jogo, uma corrida. Quanto mais difícil for, mais valor tem.
"E se não for difícil para mim, que seja para os outros."
Foda-se. A vida é porrada — e quem não tem competência não se estabelece.
Não sei quantas "porradas" o rapaz do vídeo já tomou na vida. Torço para que tenham sido poucas e ficaria triste de saber do seu sofrimento. Isso tem um nome: empatia.
A gente sente o que o outro sente e, por isso, trabalha para que a vida seja melhor para todos nós.
O que deixou esse vídeo engasgado por aqui foi o sentimento de que essa forma de pensar é cada vez mais banalizada e difundida — com muito orgulho, aliás.
É a sociedade do "cada um cuida de si — e se der pra puxar o tapete do outro, puxa."
Ou talvez seja ainda pior. Se o outro caiu, pisa em cima. Rotula, xinga, cava o buraco. Afinal, o outro é "fraco" e só os "fortes" merecem nossa atenção.
É claro que, quando a gente fala de esportes, há vencedores e perdedores. Alguém vai ganhar e, por consequência, alguém vai perder. Essa é, inclusive, a beleza do esporte. Ele nos ensina a estar dos dois lados e que o jogo é maior que nós.
Mas a vida vai além disso...
Sim, a vida é porrada. Não dá pra negar.
A gente pode passar por isso junto ou pode se matar pra ver quem sai por cima. Eu não aguento mais cruzar com quem só quer ver o circo pegar fogo.
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Corinthians e Flamengo se enfrentam hoje em situações distintas. Enquanto o rubro-negro é um dos favoritos ao título e vive um início arrasador do novo treinador, o time paulista patina e o trabalho parece não evoluir.
Mas tem uma estatística que, para mim, dá o tom do jogo...
A gente sabe que o futebol hoje é muito baseado na marcação-pressão. Um eterno jogo de gato e rato, sobre pressionar e fugir da pressão.
Cada vez que um time sobe em bloco para pressionar sem bola, o @InStatFootball marca como uma ação de "pressing".
E é comum olhar para os times que mais pressionam no campeonato — e para os que fazem isso de maneira mais eficiente.
Mas é raro olhar ao contrário: quantas vezes o adversário sobe para fazer uma marcação-pressão?
Hernán Crespo disse que o resultado não refletiu exatamente o que foi o jogo. Sejam sinceros… Em parte, ele está certo. Mas apenas em parte...
Afinal, o Flamengo fez cinco gols: três bolas paradas, um chutaço de fora da área e um gol contra.
E quantas vezes a gente não ouviu que “o time estava bem, mas aí tomou um gol de bola parada” como se esse momento fosse “à parte”, quase fora do jogo de futebol?
É verdade que o futebol permite que um time jogue mal, fique acuado e marque um gol do nada. É a tal “bola vadia”. E é verdade que muitas vezes ela toma a forma de uma bola parada, um chutaço de fora da área ou um gol contra.
Todo gol no futebol é cheio de detalhes. O gol do São Paulo contra o Flamengo no domingo foi decidido por um detalhe pequeno, mas crucial: uma olhadela para o lado no momento errado.
Gustavo Henrique acabou perdendo Arboleda de vista e, quando achou, era tarde demais.
Essa, inclusive, é uma dificuldade antiga do zagueiro — ponto que ele trabalhou e melhorou nos últimos meses, mas às vezes ainda perde a referência.
Há quase dez anos, meu trabalho principal é com financiamento coletivo. Vivi de dar cursos, palestrar e criar conteúdos sobre isso.
A gente sempre usou muitos exemplos para ilustrar os pontos e há uns cinco anos passamos a falar sempre de uma campanha...
Era uma campanha pequena, nada histórico naquele ecossistema borbulhante do crowdfunding. Mas era a essência do que aquele movimento representava pra gente: pessoas comuns de vários lugares se juntando para ajudar uma menina que andava de skate vestida de fada no Maranhão.
A meta foi batida, o dinheiro foi arrecadado, Rayssa foi pro campeonato, ganhou a categoria infantil e, nesse meio tempo, aquele vídeo chamado "Rayssa Leal num heelflip irado" viralizou.
O Flamengo tomou um gol absolutamente bizarro ontem. O tipo de erro que poderia custar caro.
Para além do erro final — o passe para trás e a cavadinha do goleiro —, que vai repercutir e gerar discussões, acho importante olhar um erro anterior...
Está tudo no vídeo... Depois de roubar a bola, o Fla usou Diego Alves para ganhar tempo e se organizar. A partir dali, usou um passe por dentro para abrir espaço e atrair a marcação. Tudo perfeito no primeiro momento, até que decidiu repetir o movimento.
O erro final é impossível de justificar. Mesmo com a escolha ruim no segundo momento da saída, dava para ter se livrado da situação sem levar gol. Foi uma jogada simplesmente bizarra, que tem a ver com foco e concentração — e ainda bem que o time não sofreu muito depois.