Um pequeno país em um canto da Europa tem um peso surpreendente na forma como a gente pensa e sente o futebol. Saíram da Holanda algumas das ideias mais importantes para a nossa compreensão do esporte.
Se hoje falamos tanto em espaço no jogo, é muito graças aos holandeses.
Como já falei aqui, tive a honra e o privilégio de ser o tradutor do livro @Zonal_Marking, do grande Michael Cox, lançado em pré-venda na semana passada pela @EdGrandeArea.
O livro começa falando sobre a influência holandesa no futebol europeu do início dos anos 1990 através de seu principal clube — o Ajax — e de dois ex-jogadores e então treinadores — Cruyff e Van Gaal.
O mais interessante, no entanto, é o mergulho no modo de pensar holandês.
A própria natureza do país gira ao redor do conceito de espaço. Quase 20% do país deveria estar debaixo d'água, mas é mantido seco por complexos sistemas de diques e represas. A existência do território holandês é, em si, um feito magnífico de engenharia.
Há ali, portanto, uma maneira diferente de enxergar o mundo através dos espaços. No jogo de futebol, não é diferente.
Como disse David Winner em seu livro Brilliant Orange: “O Futebol Total (holandês) foi construído a partir de uma nova teoria sobre o espaço flexível”
Tudo é pensado a partir da ocupação e manipulação dos espaços de jogo. As movimentações e trocas de posições que deixaram o mundo boquiaberto e os adversários zonzos em 1974 eram minuciosamente pensadas a partir dali.
Deixar o campo grande ao atacar, pequeno ao defender; usar movimentos de atração; trocar de posições dentro dos mesmos corredores; manter o equilíbrio defensivo mesmo quando ataca; defender de maneira proativa; explorar espaços onde os adversários se sentem desconfortáveis...
Tudo isso nos parece absolutamente natural hoje em dia. É simplesmente como o futebol é. Mas nada disso está nas regras. Se pensamos assim, é porque alguém veio antes e moldou essa forma de pensar. O paradigma holandês nos ofereceu óculos para enxergar o jogo de uma certa maneira
Rinus Michels ficou famoso como o grande mentor do Futebol Total. Johan Cruyff foi quem assumiu o protagonismo dentro do campo e, mais tarde, fora dele, como o treinador que levou essas ideias a outras terras — especialmente ao Barcelona — junto com outros, inclusive Van Gaal.
Mas no início dos anos 90 — quando a influência holandesa talvez estivesse no auge —, o homem que melhor resumia dentro de campo essa interpretação do jogo se chamava Dennis Bergkamp.
Bergkamp é um homem que explicitamente descreve o mundo ao seu redor sob a perspectiva do espaço.
“No campo, minha maior qualidade era ver exatamente onde o espaço já existia e onde nós poderíamos criar o espaço”, ele dizia. Mas não para por aí.
Por que adorava marcar gols por cobertura? “Há muito espaço acima do goleiro.”
Como foi seu relacionamento com os companheiros na Inter de Milão durante sua passagem pelo futebol italiano? “Havia uma enorme lacuna entre nós, um espaço morto.”
Por que decidiu ir defender o Arsenal na Premier League? “Eu sabia que poderia encontrar meu espaço na Inglaterra.”
E, ainda, por que detestava tanto as viagens de avião? “Não tem espaço nenhum, tudo é muito apertado e me sinto claustrofóbico.”
Bergkamp estrerou no Ajax durante a temporada 1986/87, sob o comando de Cruyff, jogando na ponta-direita. Depois, virou centroavante. Apenas quando Louis van Gaal assumiu definitivamente a equipe, em 1991, o jovem Dennis foi jogar como uma espécie de camisa 10.
Ali, brilhou pelo Ajax, se tornou titular da seleção holandesa e foi trilhar sua carreira nas ligas mais fortes do planeta.
O detalhe dessa mudança de posicionamento é que ela tem absolutamente tudo a ver com ESPAÇO.
Afinal, a abordagem holandesa da época mantinha os pontas colados às linhas laterais, alargando a defesa adversária, enquanto o centroavante atacava as costas dos zagueiros, os empurrando para trás. O espaço, portanto, se criava justamente ali, onde agora jogava Bergkamp.
Muitos se lembram de seu lendário gol contra a Argentina, que decidiu a vaga nas semifinais da Copa do Mundo de 1998 no último minuto.
“Foi uma questão de criar aquele pequeno espaço", ele disse na época.
Porém, na minha humilde opinião, o primeiro gol daquela partida representa ainda melhor a NOÇÃO DE ESPAÇO de Dennis Bergkamp, em uma assistência simplesmente impressionante.
Mas, para Michael Cox, o gol que melhor representa o jeito holandês de criar espaços para esse meia ou segundo atacante que ataca a área por trás do centroavante foi marcado pelo próprio Bergkamp contra a Alemanha, nas quartas de final da Euro 1992.
Quando Aron Winter recebe como um ponta na direita, o centroavante Van Basten dispara rumo ao primeiro pau, atraindo a atenção dos zagueiros. Mas ele estica o braço e aponta para trás, indicando um cruzamento para Bergkamp, chegando livre para marcar.
Tanto Van Basten quanto Bergkamp foram escolhidos para a seleção da Euro 1992. O meia/segundo atacante foi o artilheiro da competição, enquanto o centroavante de referência não balançou as redes uma única vez. Curioso, porém nada estranho para os padrões holandeses...
Jogando atrás do centroavante sueco Pettersson, Bergkamp foi artilheiro do Campeonato Holandês três vezes seguidas.
Aliás, o maior artilheiro da Eredivisie em todos os tempos, Willy van der Kuijlen, também era um segundo atacante — e também jogava com um centroavante sueco.
É por isso que, para Michael Cox (@Zonal_Marking), aquele braço de Van Basten apontado para trás representa a síntese da forma como os holandeses criavam e exploravam os espaços na hora de atacar.
E Bergkamp, claro, era o mestre dos espaços.
Esse é apenas um aperitivo do livro. A história de Dennis Bergkamp é contada — junto com muitas, muitas outras — em 440 páginas feitas para quem ama o futebol.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 3: O QUE OS NÚMEROS DIZEM
Os números não são o jogo em si, mas ajudam a entender o que se passa dentro de campo. É preciso ter cuidado, colocar tudo em contexto, mas dá para entender muita coisa a partir deles. Vamos ao mergulho!
Dos 14 jogos disputados pelo Flamengo sob o comando de Renato Gaúcho, 7 foram pelo BR21 e 7 em competições de mata-mata (Libertadores e CdB). Como o time tem se comportado de maneira diferente, a ideia aqui é olhar para esses números de maneira separada.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 2: PORTEIRA QUE PASSA BOI
Meu antigo professor de história tinha uma espécie de frase de efeito. Não importava o assunto que estávamos estudando, em algum momento ele sempre dava um jeito de dizer: "porteira que passa boi, passa boiada".
Nesta série, pretendo explorar por diferentes ângulos a rotina atual de goleadas do Flamengo. Na PARTE 1 (
), detalhei as mudanças de estilo trazidas por Renato Gaúcho até aqui. Hoje quero falar sobre os contextos criados dentro dos jogos.
O 4x0 em cima do Grêmio é um bom ponto de partida. No fim de um primeiro tempo bastante instável, o Flamengo perdeu Bruno Henrique por lesão e Isla recebeu o vermelho. Parecia um cenário terrível, se encaminhando para um segundo tempo sofrido.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 1: CONTROLE E AGRESSIVIDADE
O assunto do momento é aquele: como o Flamengo consegue golear em jogos que nem parece estar dominando durante a maior parte do tempo?
Há muita coisa para falar, então decidi fazer uma série. Começa aqui!
De fato, é quase inacreditável.
Em 14 jogos desde a chegada de Renato Gaúcho, o Flamengo teve 12V 1E e 1D. Mais incrível que isso: fez 45 gols (3,2 por jogo) e sofreu 10 (0,71 por jogo)!
Das 12 vitórias, 8 foram por 3 gols de diferença ou mais.
É normal que um retrospecto como esse gere admiração, um certo choque e até mesmo confusão.
Primeiro, porque são números simplesmente altos demais. Quase impossíveis de se ver por aí — e de se manter no longo prazo.
Gabigol está imparável. Fez 7 gols nos últimos 5 jogos que disputou. Dois de pênalti (ele simplesmente não perde) e outros cinco gols com a bola rolando.
Todos seriam considerados fáceis. Mas será que são simples?
Além do segundo e do terceiro gol contra o Santos, há mais três nos dois jogos contra o Olimpia. Cinco gols depois da marca do pênalti, todos finalizados com apenas um toque! A marca de um artilheiro letal!
Em um mesmo lance, ele faz três, quatro, cinco movimentos. Sabe exatamente o momento em que o passe pode sair, sabe exatamente como os zagueiros tendem a se comportar.
Futebol não é sobre estar no lugar certo. É sobre chegar no lugar certo, na hora certa, do jeito certo.
A gente pode aceitar essa ideia como verdade, mas existem diferentes maneiras de levar isso para a vida.
"Infelizmente, a vida é porrada" é completamente diferente de "É isso aí. A vida é porrada mesmo"
Vamos ignorar por um segundo o fato de alguém se sentir confortável para julgar, em rede nacional, a vida de outras pessoas de maneira tão direta (e grotesca).
Esse prazer sutil em ver a porrada, o caos e o sofrimento na vida do outro é o que chama a atenção.