Quando Renato chegou, o problema já estava controlado. Nos 14 jogos finais de Rogério Ceni, foram 50 escanteios dos adversários e apenas 2 gols (4%), um número bastante razoável.
Mas o novo treinador mudou o modelo de marcação...
Logo que chegou, Renato Gaúcho implementou uma marcação individual nas bolas paradas e... não deu muito certo.
Nas quatro primeiras partidas, foram 29 cruzamentos em bolas paradas (faltas e escanteios), sendo que 10 (34,5%) geraram finalizações!
E no quarto jogo, depois de alguns sustos, o Flamengo tomou o primeiro gol de escanteio da era Renato Gaúcho.
Mas aquele ainda era ainda um período de transição. O perigo era real e vinha de problemas na marcação individual, mas será que eram intrínsecos a ela ou simplesmente o time precisava de tempo para se adaptar?
Se nos 4 primeiros jogos, 29 bolas paradas geraram 10 finalizações, nas 10 partidas seguintes foram 63 cruzamentos de bola parada e apenas 7 finalizações!
Uma delas entrou. No sexto jogo de Renato Gaúcho no comando, o Flamengo ainda tomou mais um gol depois de um escanteio — em um chutaço improvável no rebote.
A partir daí, nada!
As estatísticas defensivas dos 14 jogos até aqui são:
90 cruzamentos em jogadas de bola parada (51 escanteios + 39 faltas) e 2 gols (ambos de escanteio).
Ou seja, 2,2% de aproveitamento dos adversários nesse tipo de jogada. Números excelentes!
Mas o mais impressionante, o verdadeiro segredo, está no lado ofensivo.
Foram 104 cruzamentos (70 escanteios + 34 faltas) e OITO GOLS! 7,7% de aproveitamento! Para ser mais exato, 8,6% de aproveitamento nos escanteios e 5,9% nas faltas.
Desses 8 gols, 1 empatou o jogo (BH contra o SPFC) e 2 abriram o placar (Rodrigo Caio contra o DyJ e Bruno Viana contra o Grêmio). A bola parada é decisiva!
O Flamengo fez dois gols assim. Ambos de Gabigol, contra ABC e Santos.
Escanteios cobrados, a zaga cortou, o Flamengo ficou com a bola, seguiu atacando e colocou no fundo das redes.
Além disso, algumas bolas paradas geram contra-ataque. Contra o Inter, o Flamengo tomou o terceiro gol quando estava cobrando um escanteio. Foi o único gol sofrido assim, em 7 contra-ataques cedidos nas 104 jogadas de bola parada (6,7%)
Por outro lado, os 90 cruzamentos em bolas paradas dos adversários geraram 17 contra-ataques para o Flamengo (18,9%)!!! Algumas ótimas chances foram criadas dessa maneira — e o segundo gol contra o Santos saiu assim.
Como o Flamengo é o time mais eficiente do BR21 nos contra-ataques, os escanteios e faltas para os rivais têm gerado mais perigo para o rubro-negro do que para eles!
Esse Flamengo é, de fato, um time difícil de interpretar. Ainda precisaremos de algum tempo para entender todas as nuances, assim como Renato Gaúcho precisará de algum tempo para implementar tudo aquilo que tem na cabeça.
Mas enquanto todo mundo está focando na "trocação", na voracidade, na fase mágica de Gabigol, na aparente instabilidade da defesa e na beleza dos gols marcados, o Flamengo de Renato Gaúcho mata seus jogos de outra forma, quase sem ninguém ver.
Não é segredo para ninguém que a bola parada é cada vez mais importante e decide cada vez mais jogos.
Essa foi, inclusive, uma preocupação dos rubro-negros na chegada de Renato, pelas memórias daquele 5x0 e das dificuldades demonstradas pela marcação individual do Grêmio.
Porém, quase como em um mágico de palco, o Flamengo aponta para um lado, chama a atenção do público para um monte de coisas e decide um monte de jogos com um segredo guardado bem debaixo dos nossos narizes.
Para golear, muita coisa tem que dar certo. Vem dando (sistematicamente), como os números mostram. Não há apenas um segredo para o sucesso, mas esse vem sendo fundamental.
Aquele time, tão bom com a bola rolando, vem sendo decisivo com ela parada!
A série se encerra aqui. Se você gostou, dá uma passada em catarse.me/teofb — pode te interessar!
Quero, como sempre, agradecer a todos os apoiadores! Vocês são demais!
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Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 3: O QUE OS NÚMEROS DIZEM
Os números não são o jogo em si, mas ajudam a entender o que se passa dentro de campo. É preciso ter cuidado, colocar tudo em contexto, mas dá para entender muita coisa a partir deles. Vamos ao mergulho!
Dos 14 jogos disputados pelo Flamengo sob o comando de Renato Gaúcho, 7 foram pelo BR21 e 7 em competições de mata-mata (Libertadores e CdB). Como o time tem se comportado de maneira diferente, a ideia aqui é olhar para esses números de maneira separada.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 2: PORTEIRA QUE PASSA BOI
Meu antigo professor de história tinha uma espécie de frase de efeito. Não importava o assunto que estávamos estudando, em algum momento ele sempre dava um jeito de dizer: "porteira que passa boi, passa boiada".
Nesta série, pretendo explorar por diferentes ângulos a rotina atual de goleadas do Flamengo. Na PARTE 1 (
), detalhei as mudanças de estilo trazidas por Renato Gaúcho até aqui. Hoje quero falar sobre os contextos criados dentro dos jogos.
O 4x0 em cima do Grêmio é um bom ponto de partida. No fim de um primeiro tempo bastante instável, o Flamengo perdeu Bruno Henrique por lesão e Isla recebeu o vermelho. Parecia um cenário terrível, se encaminhando para um segundo tempo sofrido.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 1: CONTROLE E AGRESSIVIDADE
O assunto do momento é aquele: como o Flamengo consegue golear em jogos que nem parece estar dominando durante a maior parte do tempo?
Há muita coisa para falar, então decidi fazer uma série. Começa aqui!
De fato, é quase inacreditável.
Em 14 jogos desde a chegada de Renato Gaúcho, o Flamengo teve 12V 1E e 1D. Mais incrível que isso: fez 45 gols (3,2 por jogo) e sofreu 10 (0,71 por jogo)!
Das 12 vitórias, 8 foram por 3 gols de diferença ou mais.
É normal que um retrospecto como esse gere admiração, um certo choque e até mesmo confusão.
Primeiro, porque são números simplesmente altos demais. Quase impossíveis de se ver por aí — e de se manter no longo prazo.
Gabigol está imparável. Fez 7 gols nos últimos 5 jogos que disputou. Dois de pênalti (ele simplesmente não perde) e outros cinco gols com a bola rolando.
Todos seriam considerados fáceis. Mas será que são simples?
Além do segundo e do terceiro gol contra o Santos, há mais três nos dois jogos contra o Olimpia. Cinco gols depois da marca do pênalti, todos finalizados com apenas um toque! A marca de um artilheiro letal!
Em um mesmo lance, ele faz três, quatro, cinco movimentos. Sabe exatamente o momento em que o passe pode sair, sabe exatamente como os zagueiros tendem a se comportar.
Futebol não é sobre estar no lugar certo. É sobre chegar no lugar certo, na hora certa, do jeito certo.
A gente pode aceitar essa ideia como verdade, mas existem diferentes maneiras de levar isso para a vida.
"Infelizmente, a vida é porrada" é completamente diferente de "É isso aí. A vida é porrada mesmo"
Vamos ignorar por um segundo o fato de alguém se sentir confortável para julgar, em rede nacional, a vida de outras pessoas de maneira tão direta (e grotesca).
Esse prazer sutil em ver a porrada, o caos e o sofrimento na vida do outro é o que chama a atenção.
Corinthians e Flamengo se enfrentam hoje em situações distintas. Enquanto o rubro-negro é um dos favoritos ao título e vive um início arrasador do novo treinador, o time paulista patina e o trabalho parece não evoluir.
Mas tem uma estatística que, para mim, dá o tom do jogo...
A gente sabe que o futebol hoje é muito baseado na marcação-pressão. Um eterno jogo de gato e rato, sobre pressionar e fugir da pressão.
Cada vez que um time sobe em bloco para pressionar sem bola, o @InStatFootball marca como uma ação de "pressing".
E é comum olhar para os times que mais pressionam no campeonato — e para os que fazem isso de maneira mais eficiente.
Mas é raro olhar ao contrário: quantas vezes o adversário sobe para fazer uma marcação-pressão?