Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 1: CONTROLE E AGRESSIVIDADE
O assunto do momento é aquele: como o Flamengo consegue golear em jogos que nem parece estar dominando durante a maior parte do tempo?
Há muita coisa para falar, então decidi fazer uma série. Começa aqui!
De fato, é quase inacreditável.
Em 14 jogos desde a chegada de Renato Gaúcho, o Flamengo teve 12V 1E e 1D. Mais incrível que isso: fez 45 gols (3,2 por jogo) e sofreu 10 (0,71 por jogo)!
Das 12 vitórias, 8 foram por 3 gols de diferença ou mais.
É normal que um retrospecto como esse gere admiração, um certo choque e até mesmo confusão.
Primeiro, porque são números simplesmente altos demais. Quase impossíveis de se ver por aí — e de se manter no longo prazo.
Só para termos noção, essa foi a média de gols marcados por esses clubes gigantescos em seus campeonatos nacionais durante temporadas históricas.
Ou seja, marcar 3,2 gols por jogo é realmente coisa de outro mundo.
Em segundo lugar, há a impressão geral de que, logo antes de abrir o placar, o Flamengo não dominava tanto assim.
Não havia "cheiro de goleada" antes que ela se concretizasse inesperadamente — quase do nada e quase sempre no segundo tempo.
O próprio @carlosemansur fez um levantamento falou sobre isso.
4x1 DyJ - 3 gols em 27 minutos
5x1 SPFC - 5 gols em 21 min
5x1 Olimpia - 3 gols em 27 min
4x0 Grêmio - 3 gols em 12 min
4x0 Santos - 3 gols em 13 min
Realmente, é estranho, mas existe um padrão. Aliás, mais de um, mas vamos por partes...
A primeira coisa que precisamos entender é que, sim, o Flamengo mudou. Antes, era um time que se baseava na ideia de CONTROLE. Hoje, se baseia na ideia de AGRESSIVIDADE.
Esse time sempre foi mortal no contra-ataque. Desde o início do BR21, é a equipe que mais transforma contra-ataques em finalizações, segundo o @InStatFootball. Com a volta dos jogadores que estiveram na Copa América, a efetividade aumentou, mas há uma transformação mais profunda.
Antes, o time calculava de maneira mais minuciosa a maneira de atacar, atraía o adversário para gerar espaços e calculava cada passo.
Era comum, especialmente no início do trabalho, ouvir Rogério Ceni pedindo calma aos jogadores logo que roubavam a bola.
Renato Gaúcho é diferente nesse aspecto. Agora, sempre que o time rouba a bola, a primeira opção é agredir o adversário, olhar para a frente, buscar o ataque. Se não conseguir a brecha, aí sim acalma, espera e organiza.
Esse lance bobo ajuda a ilustrar o ponto. Última bola do 1T em uma eliminatória que o Fla já tem vantagem de 6x0.
Thiago Maia está de costas, cercado por rivais. Em vez de devolvê-la para trás e reorganizar, ele tenta o passe mais agudo e arriscado.
Claro que, isoladamente, a jogada poderia acontecer em qualquer time, com qualquer técnico. Mas me parece que essas escolhas se tornaram o padrão do Flamengo. Busca sempre acelerar como primeira opção e, quando acelera, só para dentro do gol.
Mas esse não é um comportamento absolutamente inesperado, surpreendente. Pelo contrário. Quando Renato Gaúcho clamava que o Grêmio jogava o melhor futebol do Brasil, era assim que se comportava. Essa análise de 2019 não me deixa mentir.
E quando o jogo parece aleatório (nem sempre é), traz a nítida sensação de que o time favorito — o melhor, que sempre estabelece controle — está pior do que deveria.
Foi o que aconteceu naquela semifinal de Libertadores e também nas últimas goleadas, sobre Grêmio e Santos.
Quantas vezes você ouviu na última semana que o Grêmio engoliu o Fla no primeiro tempo e que o Santos foi superior até sofrer o primeiro gol?
Na minha humilde opinião, o Grêmio foi levemente superior ao Fla no primeiro tempo, assim como o Fla foi levemente superior ao Santos.
Talvez a sensação de que o Flamengo estivesse pior no jogo se deva mais à nossa expectativa em cima da diferença dos times (especialmente neste momento) e nosso costume de ver aquele controle claro.
Esse não parece ser mais o Flamengo atual.
E isso cai também sobre o lado defensivo da coisa.
Antes, o Flamengo controlava tanto os jogos que acabava tomando gols (e não eram poucos) meio do nada. Eram poucas escapadas do adversário, mas todas pareciam terminar no fundo das redes.
Agora, o time sai para a trocação e obviamente oferece aos adversários a chance de tentar agredir, especialmente porque parece espaçado em muitos momentos.
É importante que o time mais sólido e não ofereça muitas chances, mas precisamos entender a natureza desses espaços...
O futebol é um jogo encadeado. Isso significa que a forma de atacar influencia diretamente na forma de defender.
Um time que sempre força o contra-ataque mais veloz possível corre o sério risco de criar o que eu gosto de chamar de EFEITO MOLA.
É quase impossível se mover em bloco e manter compactação o tempo todo se a proposta é acelerar sempre. O mais provável é que, ao perder a bola no meio-campo, por exemplo, o time não esteja super bem posicionado para retomá-la rapidamente — e a pressão pós-perda acabe sofrendo.
Ou que, ao atacar em velocidade com quatro ou cinco jogadores chegando na área adversária, o time deixe um espaço para o contra-ataque adversário, sobrecarregando os volantes caso um cruzamento seja cortado ou o goleiro faça uma defesa...
Tem sido comum ouvir Renato gritando à beira do campo, pedindo para que o time "não se desconecte", mas ainda há, sim, momentos em que o Flamengo ataca com quatro e defende com seis.
Um time que é menos sobre CONTROLE e mais sobre TROCAÇÃO flerta, sim, com o fio da navalha.
Mas seria simplista demais dizer que o Flamengo de Renato Gaúcho é simplesmente um time de trocação, um valentão de rua que vai para cima de qualquer forma e vence pelo talento individual de seus jogadores (ou goleia por pura sorte).
É importante entender que diferentes jogos trazem diferentes contextos e, se antes o Flamengo atuava quase sempre do mesmo jeito, tentando impor sua forma de jogar aos adversários, agora tem sido diferente.
Tente puxar pela memória (ou entre no grupo do Telegram e ouça os áudios ao vivo - t.me/teofb7) para lembrar como foi o comportamento do time quando ainda estava 0x0 contra Bahia, São Paulo, Corinthians ou mesmo Internacional e Ceará.
Vimos ali uma postura diferente, desde o apito inicial, do que foi contra DyJ, Olimpia e Grêmio — nos jogos fora de casa.
Inclusive, lembre-se que três dias depois de golear o Grêmio em POA, o Fla foi à Vila e ficou tentando morder a saída de bola do Santos (com pouco sucesso).
Afinal, além de tudo isso que já foi falado, Renato Gaúcho encontrou uma situação absolutamente atípica em sua chegada ao Flamengo: dos 14 primeiros jogos, 7 foram em competições de mata-mata — sendo que em três dos quatro confrontos o Fla fez a primeira partida fora de casa.
Nessas ocasiões, vimos sim um Flamengo deixando a bola com o adversário, baixando o bloco e procurando primordialmente os contra-ataques como forma de agredir. Aliás, às vezes em uma tentativa de menos trocação e mais CONTROLE SEM BOLA.
Teremos nessa série um texto apenas sobre números, mas já adianto um: no BR21, o Flamengo teve 59% de posse de bola sob o comando de Renato Gaúcho, enquanto nas Copas (Libertadores e CdB), teve 54%.
É terrível enfrentar esse Flamengo justamente por ser um time difícil de categorizar. É mortal no contra-ataque, mas não se coloca apenas sentado lá atrás; Gosta da bola, mas não se sente desconfortável sem ela; Parece mais exposto atrás, mas trucida quem parte para cima...
O trabalho de Renato Gaúcho ainda está começando e precisamos saber que é difícil manter esses números no longo prazo. Teremos que esperar para entender quais outras soluções ele pode trazer para o campo, mas o certo é que não houve apenas uma "mudança de ambiente no vestiário".
Seu modelo de jogo — pelo menos até aqui — é mais simples, mais "intuitivo" (uma palavra que precisa ser usada com muito cuidado porque é muito mal usada por aí), mas está dando muito, muito, muito certo.
É o fim da era de controle do Flamengo? Não sei dizer.
Há quem goste, há quem não goste. Mas não há um rubro-negro triste quando o time goleia. E, pelo menos nas últimas semanas, essa tem sido a rotina.
Mas esse aqui é só o início. Ainda há muita coisa para dizer. Na próxima parte, vamos mergulhar mais a fundo no contexto. Não apenas sobre a forma como esse time joga, mas como a história de cada partida permite placares tão elásticos.
É amanhã!
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Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 3: O QUE OS NÚMEROS DIZEM
Os números não são o jogo em si, mas ajudam a entender o que se passa dentro de campo. É preciso ter cuidado, colocar tudo em contexto, mas dá para entender muita coisa a partir deles. Vamos ao mergulho!
Dos 14 jogos disputados pelo Flamengo sob o comando de Renato Gaúcho, 7 foram pelo BR21 e 7 em competições de mata-mata (Libertadores e CdB). Como o time tem se comportado de maneira diferente, a ideia aqui é olhar para esses números de maneira separada.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 2: PORTEIRA QUE PASSA BOI
Meu antigo professor de história tinha uma espécie de frase de efeito. Não importava o assunto que estávamos estudando, em algum momento ele sempre dava um jeito de dizer: "porteira que passa boi, passa boiada".
Nesta série, pretendo explorar por diferentes ângulos a rotina atual de goleadas do Flamengo. Na PARTE 1 (
), detalhei as mudanças de estilo trazidas por Renato Gaúcho até aqui. Hoje quero falar sobre os contextos criados dentro dos jogos.
O 4x0 em cima do Grêmio é um bom ponto de partida. No fim de um primeiro tempo bastante instável, o Flamengo perdeu Bruno Henrique por lesão e Isla recebeu o vermelho. Parecia um cenário terrível, se encaminhando para um segundo tempo sofrido.
Gabigol está imparável. Fez 7 gols nos últimos 5 jogos que disputou. Dois de pênalti (ele simplesmente não perde) e outros cinco gols com a bola rolando.
Todos seriam considerados fáceis. Mas será que são simples?
Além do segundo e do terceiro gol contra o Santos, há mais três nos dois jogos contra o Olimpia. Cinco gols depois da marca do pênalti, todos finalizados com apenas um toque! A marca de um artilheiro letal!
Em um mesmo lance, ele faz três, quatro, cinco movimentos. Sabe exatamente o momento em que o passe pode sair, sabe exatamente como os zagueiros tendem a se comportar.
Futebol não é sobre estar no lugar certo. É sobre chegar no lugar certo, na hora certa, do jeito certo.
A gente pode aceitar essa ideia como verdade, mas existem diferentes maneiras de levar isso para a vida.
"Infelizmente, a vida é porrada" é completamente diferente de "É isso aí. A vida é porrada mesmo"
Vamos ignorar por um segundo o fato de alguém se sentir confortável para julgar, em rede nacional, a vida de outras pessoas de maneira tão direta (e grotesca).
Esse prazer sutil em ver a porrada, o caos e o sofrimento na vida do outro é o que chama a atenção.
Corinthians e Flamengo se enfrentam hoje em situações distintas. Enquanto o rubro-negro é um dos favoritos ao título e vive um início arrasador do novo treinador, o time paulista patina e o trabalho parece não evoluir.
Mas tem uma estatística que, para mim, dá o tom do jogo...
A gente sabe que o futebol hoje é muito baseado na marcação-pressão. Um eterno jogo de gato e rato, sobre pressionar e fugir da pressão.
Cada vez que um time sobe em bloco para pressionar sem bola, o @InStatFootball marca como uma ação de "pressing".
E é comum olhar para os times que mais pressionam no campeonato — e para os que fazem isso de maneira mais eficiente.
Mas é raro olhar ao contrário: quantas vezes o adversário sobe para fazer uma marcação-pressão?