Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 2: PORTEIRA QUE PASSA BOI
Meu antigo professor de história tinha uma espécie de frase de efeito. Não importava o assunto que estávamos estudando, em algum momento ele sempre dava um jeito de dizer: "porteira que passa boi, passa boiada".
Nesta série, pretendo explorar por diferentes ângulos a rotina atual de goleadas do Flamengo. Na PARTE 1 (
), detalhei as mudanças de estilo trazidas por Renato Gaúcho até aqui. Hoje quero falar sobre os contextos criados dentro dos jogos.
O 4x0 em cima do Grêmio é um bom ponto de partida. No fim de um primeiro tempo bastante instável, o Flamengo perdeu Bruno Henrique por lesão e Isla recebeu o vermelho. Parecia um cenário terrível, se encaminhando para um segundo tempo sofrido.
O que se viu, no entanto, foi o oposto. O Grêmio teve muita dificuldade para criar qualquer coisa, o Flamengo abriu o placar em um escanteio aos 7 minutos do segundo tempo e, nos minutos finais, matou o jogo nos contra-ataques.
Muita gente se perguntou: "como o Flamengo melhorou com um homem a menos?"
A resposta, a meu ver, passa por um caminho diferente: não é melhor jogar com dez, mas a expulsão mudou a cara do jogo, o contexto e as expectativas de todo mundo.
O pior cenário para esse Grêmio é ter que ditar o ritmo com a bola e criar. O time vive um momento muito difícil e Felipão vem tentando moldar um grupo batalhador. Quando se vê com a bola nos pés precisando atacar um adversário fechado, a equipe não parece nada confortável.
Com onze contra onze, Felipão possivelmente estaria satisfeito com um 0x0 contra o poderoso Flamengo, mesmo jogando em casa, e não teria porque se arriscar. Talvez até engolisse uma derrota por 1x0 podendo dizer que "foi superior no primeiro tempo".
Ao mesmo tempo, o Flamengo não tinha como apenas se fechar lá trás, já que se reconhece como superior e é um time moldado para jogar com a bola no pé.
Mas, com dez contra onze, o empate passou a ser considerado uma oportunidade de ouro desperdiçada e a derrota seria uma catástrofe para o Grêmio.
Por sua vez, o Flamengo ganhou a opção de se fechar lá atrás, em um bloco bem compacto, sem receio algum.
A expulsão, portanto, permitiu um contexto que talvez não fosse possível com os times completos. Um contexto que, por incrível que pareça, era favorável ao Fla.
Mesmo antes de Bruno Viana abrir o placar, o Grêmio não conseguiu fazer nada! Não incomodou!
O primeiro gol trouxe um ar de desespero e o Grêmio passou a confundir urgência com pressa. Aos 14 min, Lucas Silva saiu para a entrada de Campaz e, aos 26 min, Felipão foi para o tudo ou nada: Alisson deu lugar a Luiz Fernando e, mais importante, Thiago Santos a Diego Souza.
Ali, ficou claro o que poderia acontecer: se o Flamengo conseguisse se segurar por dez ou quinze minutos, o Grêmio abriria o meio-campo e os contra-ataques passariam a fluir.
E não estou falando isso só agora, depois do resultado... t.me/teofb7/2879
Quase aos 30 min do segundo tempo, Everton Ribeiro perdeu a chance de ampliar. Foi o quinto contra-ataque do Flamengo em toda a partida. Até o apito final, foram mais cinco.
O Flamengo era mais perigoso que o Grêmio!
Ou seja, tomar 1x0 em casa com um a mais colocou Felipão em uma situação muito delicada. Ele sentiu a necessidade de arriscar e acabou sendo goleado.
Essa história, apesar de bem específica, não é única.
Com algumas variações, esse é o roteiro que tem se repetido.
Como esse Fla é muito adaptável, o primeiro gol coloca os adversários entre a cruz e a espada.
Se decidirem ficar recuados, o rubro-negro vai tocar a bola até o dia seguinte e garantir a vitória.
Se partirem para cima, dão espaço para o contra-ataque.
Foi o que aconteceu com o Olimpia, que partiu para cima com tudo e permitiu que o Flamengo criasse incríveis OITO chances claras apenas no segundo tempo (pela contagem do @InStatFootball)
Ao ponto de eu achar que não poderemos mais dividir as análises dos jogos do Flamengo em "primeiro tempo" e "segundo tempo", mas sim em "quando estava 0x0" e "depois do 1x0".
Não adianta tentar encontrar as sementes de um 4x0 dentro daquilo que aconteceu quando o jogo estava 0x0.
O contexto muda radicalmente. Com isso, as perguntas mudam. E se as perguntas mudam, as respostas precisam mudar. É quase outro jogo.
De certa forma, o Flamengo vem se tornando um time mais reativo (e isso não tem nada a ver com retranca). Espera o adversário colocar as cartas na mesa e guarda diferentes respostas na manga — especialmente nas copas e fora de casa.
A grande questão parece ser, portanto, encontrar maneiras de se impor mais claramente enquanto o placar está zerado — mesmo que se adaptando ao adversário.
O Flamengo de Renato Gaúcho ainda busca esse equilíbrio, mas o caminho não é tão óbvio.
É claro que todo mundo quer uma defesa mais segura e um time mais compacto, mas e se eu te dissesse que o caminho mais curto para conseguir isso é ter um ataque menos voraz? Será que vale a pena?
O Fla é melhor que seus adversários e normalmente tem aberto o placar.
Mas isso tudo significa que os jogos desse time são definidos pelo primeiro gol? Quem marcar primeiro ganha?
Não necessariamente. O Ceará sofreu o empate, o São Paulo tomou a virada (que virou goleada)...
Porém, se esse Flamengo toma o primeiro, parte para cima e não se acerta — especialmente contra times físicos, que já impõem dificuldades a esse elenco há bastante tempo —, pode sim sair dos trilhos e sofrer, inclusive com goleadas como a aplicada pelo Internacional.
Por outro lado, se faz o Flamengo faz o primeiro gol, o segundo fica muito, muito mais fácil. Se sai o segundo, sai o terceiro... Quando entra um gol, entram mil.
É como meu professor de história sempre dizia: "porteira que passa boi, passa boiada."
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Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 3: O QUE OS NÚMEROS DIZEM
Os números não são o jogo em si, mas ajudam a entender o que se passa dentro de campo. É preciso ter cuidado, colocar tudo em contexto, mas dá para entender muita coisa a partir deles. Vamos ao mergulho!
Dos 14 jogos disputados pelo Flamengo sob o comando de Renato Gaúcho, 7 foram pelo BR21 e 7 em competições de mata-mata (Libertadores e CdB). Como o time tem se comportado de maneira diferente, a ideia aqui é olhar para esses números de maneira separada.
Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 1: CONTROLE E AGRESSIVIDADE
O assunto do momento é aquele: como o Flamengo consegue golear em jogos que nem parece estar dominando durante a maior parte do tempo?
Há muita coisa para falar, então decidi fazer uma série. Começa aqui!
De fato, é quase inacreditável.
Em 14 jogos desde a chegada de Renato Gaúcho, o Flamengo teve 12V 1E e 1D. Mais incrível que isso: fez 45 gols (3,2 por jogo) e sofreu 10 (0,71 por jogo)!
Das 12 vitórias, 8 foram por 3 gols de diferença ou mais.
É normal que um retrospecto como esse gere admiração, um certo choque e até mesmo confusão.
Primeiro, porque são números simplesmente altos demais. Quase impossíveis de se ver por aí — e de se manter no longo prazo.
Gabigol está imparável. Fez 7 gols nos últimos 5 jogos que disputou. Dois de pênalti (ele simplesmente não perde) e outros cinco gols com a bola rolando.
Todos seriam considerados fáceis. Mas será que são simples?
Além do segundo e do terceiro gol contra o Santos, há mais três nos dois jogos contra o Olimpia. Cinco gols depois da marca do pênalti, todos finalizados com apenas um toque! A marca de um artilheiro letal!
Em um mesmo lance, ele faz três, quatro, cinco movimentos. Sabe exatamente o momento em que o passe pode sair, sabe exatamente como os zagueiros tendem a se comportar.
Futebol não é sobre estar no lugar certo. É sobre chegar no lugar certo, na hora certa, do jeito certo.
A gente pode aceitar essa ideia como verdade, mas existem diferentes maneiras de levar isso para a vida.
"Infelizmente, a vida é porrada" é completamente diferente de "É isso aí. A vida é porrada mesmo"
Vamos ignorar por um segundo o fato de alguém se sentir confortável para julgar, em rede nacional, a vida de outras pessoas de maneira tão direta (e grotesca).
Esse prazer sutil em ver a porrada, o caos e o sofrimento na vida do outro é o que chama a atenção.
Corinthians e Flamengo se enfrentam hoje em situações distintas. Enquanto o rubro-negro é um dos favoritos ao título e vive um início arrasador do novo treinador, o time paulista patina e o trabalho parece não evoluir.
Mas tem uma estatística que, para mim, dá o tom do jogo...
A gente sabe que o futebol hoje é muito baseado na marcação-pressão. Um eterno jogo de gato e rato, sobre pressionar e fugir da pressão.
Cada vez que um time sobe em bloco para pressionar sem bola, o @InStatFootball marca como uma ação de "pressing".
E é comum olhar para os times que mais pressionam no campeonato — e para os que fazem isso de maneira mais eficiente.
Mas é raro olhar ao contrário: quantas vezes o adversário sobe para fazer uma marcação-pressão?