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Sobre essa questão da paralisia cerebral, que a deputada @JanainaDoBrasil credita de dever à asfixia perinatal decorrente da “obstinação pelo parto normal”, começo uma série de posts para demonstrar que essa é uma falácia já desconstruída a partir de estudos internacionais.
Na verdade não dispomos de estatísticas confiáveis no Brasil, porém a frequência de paralisia cerebral (PC) está em torno de 2 por 1.000 nascimentos nos países desenvolvidos e 7 por 1.000 nascimentos nos países em desenvolvimento (entre os quais se encontra o Brasil).
Faço notar que incidência mais baixa de PC é observada em países com taxas de cesárea muito mais baixas que o Brasil, como por exemplo todo o Reino Unido. Enquanto no Brasil chegamos à segunda taxa mais alta do mundo, 55,6% de cesarianas.
Por outro lado, não se verificou diminuição da incidência de PC nos países desenvolvidos nas 3 últimas décadas a despeito da disseminação do uso de CTG intraparto e do aumento de cinco ou mais vezes das taxas de cesárea.
Outro aspecto importante é analisar a etiologia e os fatores de risco para paralisia cerebral, uma vez que asfixia perinatal está associada a apenas 10% dos casos de paralisia cerebral. Na maior parte dos casos estão envolvidas outras causas antenatais ou perinatais. Vejam slide.
Sendo assim, teríamos como causas mais frequentes complicações antenatais (ex. Pré-eclâmpsia), outras causas perinatais (das quais a mais importante é a prematuridade) e causas pós-natais. Vejam a associação importante com prematuridade.
Retomando: existem intervenções antenatais que podem reduzir o risco de PC (uso de corticoide e sulfato de magnésio quando o parto prematuro é iminente, p.ex.), na maioria das vezes as causas são antenatais e eventos hipóxicos intraparto corresponderiam a menos que 10% dos casos.
A maioria dos casos de lesão cerebral neonatal NÃO ocorrem durante o trabalho de parto (TP) e parto, nem se devem à ressuscitação ou tratamento neonatal inadequado. Na maior parte dos casos de encefalopatia neonatal são identificados outros fatores que precedem o início do TP.
Por outro lado, vamos agora aos eventos intraparto associados com hipoxia podendo causar PC: hemorragia (p.ex. DPPNI), prolapso de cordão, eclâmpsia, FCF não tranquilizadora, distocias, uso indiscriminado de ocitocina e tocotraumatismos.
Há, portanto, algumas causas iatrogênicas, como prolapso de cordão decorrente da ruptura artificial das membranas, uso abusivo de ocitocina, manejo inadequado das distocias, falha de monitorar FCF adequadamente e não tratar a FCF não tranquilizadora, bem como tocotraumatismos.
Porém nada disso caracteriza “obstinação pelo parto normal” e sim falha de seguir as boas práticas, recomendadas por diretrizes internacionais. Outrossim, vale ressaltar que a maior parte dos casos de paralisia cerebral resultam de causas multifatoriais e não-preveníveis.
MENSAGEM CENTRAL: a maior parte dos casos de paralisia cerebral resultam de causas multifatoriais e não-preveníveis que ocorrem durante o desenvolvimento fetal ou no RN depois do parto, e não de um evento hipóxico intraparto isolado.
Voltando aos eventos hipóxicos intraparto, esses podem acontecer tanto no parto normal como em cesarianas, embora como já tenhamos destacado, exista associação com distocias e cuidados intraparto inadequados. Porém cesariana eletiva NÃO previne contra PC.
Cuidados intraparto inadequados que podem estar associados a paralisia cerebral: isso não é “obstinação pelo parto normal”, se for caracterizado que houve qualquer falha é indício de má prática.
E por fim algumas medidas preventivas para paralisia cerebral, tanto antenatais como intraparto: é preciso garantir ausculta fetal estruturada e seu registro e evitar intervenções desnecessárias e manobras intempestivas, tudo o que defendemos há tanto tempo!
Eu deixei de falar aqui dos critérios adotados para caracterizar um evento intraparto como suficiente para causar PC, mas fica para outra oportunidade. Porque não basta ter o diagnóstico de paralisia cerebral depois do parto para atribuí-la ao parto. Há uma série de requisitos.
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