RETROSPECTIVA DE UM GOLPE QUE POR POUCO NÃO FOI: a thread

Ninguém pode esquecer que, no ano de 2020, em meio à pandemia, o presidente da República tentou dar um golpe. Ele chegou a decidir intervir no STF, só desistindo após ser convencido do contrário. A democracia quase ruiu. Bolsonaro, de polo azul e calça jeans, está em cima de um
15/03/2020: Contrariando as recomendações médicas e o seu próprio ministro da Saúde, Jair Messias Bolsonaro prestigia um protesto a favor do Governo – e com teor antidemocrático –, sem máscara e promovendo aglomeração. Tinha até faixa de AI-5. E o país entrava em quarentena.
24/03/2020: Em pronunciamento na televisão, o presidente questionou as medidas de isolamento social adotadas por governadores – que tentou boicotar –, chamou a COVID-19 de “gripezinha” e – como mostra o vídeo – atacou a imprensa em rede nacional, diante de todos os brasileiros.
31/03/2020: No dia que marcou o aniversário do Golpe Militar, o Ministério da Defesa comemorou a data como um “marco para a democracia”. Em pronunciamento oficial, Bolsonaro tentou amenizar o tom em suas declarações. Mas será que tinha moderado?
g1.globo.com/politica/notic…
19/04/2020: Nesta data, o presidente compareceu a um ato que pedia intervenção militar constitucional – “coincidentemente”, marcado para acontecer em frente a um quartel do Exército, em Brasília. Uma rotina de atos antidemocráticos teve início e Bolsonaro apoiou a todos.
24/04/2020: O então ministro da Justiça do Governo Bolsonaro, Sérgio Moro, anuncia sua demissão, motivada pela exoneração do diretor-geral da Polícia Federal (PF). O ex-juiz, responsável pela Lava Jato, atribuiu a decisão à interferência política do presidente na Polícia Federal.
03/05/2020: Depois da decisão de Alexandre de Moraes barrando a sua nomeação à PF, Bolsonaro participa de mais uma manifestação pró-governo e antidemocrática. Na ocasião, o presidente diz que “chegamos no limite” e que “faremos cumprir a Constituição”, citando as Forças Armadas.
Apoiadores do presidente, nesta ocasião, agrediram jornalistas. politica.estadao.com.br/noticias/geral…
22/05/2020: Após circular a narrativa falsa de que o Min. Celso de Mello teria autorizado a apreensão de seu celular, o presidente Bolsonaro DECIDE PELA INTERVENÇÃO. Diversos ministros do Planalto participaram das conversas. Acabou convencido a segurar. piaui.folha.uol.com.br/materia/vou-in…
Na mesma data, à noite, o Min. Celso de Mello liberou o vídeo da reunião ministerial de 22/04/2020. Salles dizia para passar a boiada; Weintraub ,defendia cadeia para os ministros do STF; e Bolsonaro, como no vídeo, intervenção na PF: ele fala de “segurança”, mas olha para Moro.
24/05/2020: Em mais um domingo de atos pró-Governo, o presidente usou um helicóptero da presidência para se deslocar do Palácio da Alvorada para o Palácio do Planalto. Depois, desceu e cumprimentou apoiadores, sem máscara e promovendo aglomerações.
g1.globo.com/politica/notic…
28/05/2020: Após a investigação contra o gabinete do ódio avançar e mandados de busca e apreensão serem realizados, Bolsonaro – bastante exaltado – gritou em frente ao Palácio da Alvorada: “Acabou, porra! Me desculpem o desabafo. Acabou!“
No mesmo dia, seu filho falou que havia chegado o momento de cisão: “[Essa] postura mais moderada (...) para não tentar chegar ao momento de ruptura (...) Mas falando bem abertamente, opinião do Eduardo Bolsonaro, não é mais uma opinião de 'se', mas de 'quando' isso vai ocorrer".
O presidente ainda decidiu mostrar que realmente estava muito entusiasmado com a ideia de uma intervenção. Compartilhou uma live com Ives Gandra Martins, citando o STF, em que o jurista defendia sua tese, absurda, de que as Forças Armadas poderiam intervir “constitucionalmente”.
30/05/2020 - Na noite do dia 30, adentrando a madrugada, o grupo 300 do Brasil – liderado por Sara Winter – fez uma manifestação autoritária em frente ao STF. Os manifestantes se inspiraram, no uso de tochas e em toda estética do ato, em grupos supremacistas brancos e fascistas.
31/05/2020: De novo, Bolsonaro usou um helicóptero – dessa vez, acompanhado do ministro da Defesa – para prestigiar um ato antidemocrático, cujas faixas pediam intervenção militar e fechamento do Supremo. Depois, desceu e falou com apoiadores – a cavalo. www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/…
Mesmo enfrentando uma pandemia que tirou quase 180 mil vidas da gente, a nossa democracia brasileira, por pouco, não sofreu um golpe. No mesmo ano, por sinal, em que Bolsonaro seguiu usando um lema integralista e que seu secretário da Cultura foi exonerado por plagiar Goebbels. Na imagem, Alvim aparece à esquerda; Goebbels, à direita.
Ainda assim, os jornais não colocam o presidente na extrema-direita, os especialistas da TV acham loucura dizer que a democracia corre risco e cientistas políticos, assinando colunas nos jornais, atestam que está tudo bem. Não está: a democracia não pode, jamais, estar em risco.
A História precisa registrar: em 2020, no meio da maior pandemia em pelo menos um século, o presidente Jair Bolsonaro tentou intervir militarmente noutro Poder da República. Lembre disso em 2022. Muitos autocratas radicalizam em seus segundos mandatos. Ele não pode ter a chance. Bolsonaro, de terno, faz pose cruzando os braços ao lado de

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7 Dec
Vocês têm que entender que uma eleição pode ser injusta mesmo sem fraude. Afinal, democracia não se faz apenas através do voto. Um regime autocrático pode prender os líderes da oposição, por exemplo, ou minar a liberdade de expressão e o debate. Há meios de injustiça sem fraude.
A questão da Venezuela *normalmente* é de um ambiente autoritário que convive com eleições injustas, mas não fraudadas. As urnas eletrônicas de lá contam com um “recibo” para o eleitor conferir seu voto. Ele o deposita fisicamente na sua seção e tem-se dupla checagem: sem fraude.
Foi assim que, a despeito de um regime hostil à liberdade de expressão e de imprensa, uma Assembleia Nacional de maioria oposicionista saiu vencedora do pleito de 2016. Mas o autoritarismo não aceitou isso: o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) removeu os poderes do Congresso.
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24 Nov
O Jones Manoel – a quem não consigo marcar porque me bloqueou, mesmo que depois do que ele alega – está perguntando qual a diferença de poder entre Merkel, que completou 15 anos no poder, e o de Hugo Chávez. A primeira, democraticamente; Chávez, com traços autoritários. Vamos lá:
Merkel pode ser tirada do poder a qualquer hora, dado o regime parlamentarista alemão. A Lei Fundamental de 1949 estabelece que o Parlamento pode aprovar a moção de desconfiança. A única condicionante, que não existe em outros países, é que deve haver uma alternativa de governo.
Num regime parlamentarista, a relação entre Executivo e Legislativo é bem diferente. O chefe de Governo não está sozinho, mas em coalizão. Merkel respeita as regras do jogo e seu partido já governou com sociais-democratas, noutro mandato com os liberais, sempre em novos Governos.
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1 Oct
O @_makavelijones escreveu um artigo, em tese contra o “revisionismo histórico”, sobre o Pacto Molotov-Ribbentrop para o blog da Boitempo. No entanto, o texto contém, justamente, revisionismo histórico. Convido vocês a refletirem comigo no fio 🧶👇🏼
blogdaboitempo.com.br/2019/10/25/con…
O primeiro ponto que merece destaque é a visão de que a eclosão da guerra se dá em razão do sistema capitalista, à época colonial e imperialista. A URSS, por sua vez, representaria a luta anticolonial e antirracista. Pois bem: esse papel soviético é no mínimo discutível...
Essa visão romantizada da União Soviética não condiz com a verdade. Stalin reprisou um modelo colonial no Leste Europeu, inclusive proibindo países de fabricar produtos acabados em alguns casos; usou o nacionalismo russo para perseguir outros povos; e ignorava a questão racista.
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28 Sep
Como o @salimmattarBR está se dedicando a mostrar o suposto legado maldito de uma “social-democracia” que abrange de Collor e Temer a Dilma e Lula, que tal falar sobre o que a ditadura militar – idolatrada pelo seu ex-chefe – nos deixou? Vamos lá: Image
1. Em primeiro lugar, a Comissão Nacional da Verdade, em seu relatório final, reconheceu 434 mortes e desaparecimentos políticos. Não é só isso. Um documento da CIA de 1974, por exemplo, mostra que se reconhecia 103 mortes só em 1973. Geisel orientou que a política continuasse. Image
2. A orientação foi dada após o fim dos Anos de Chumbo. É um demonstrativo de que o número real de execuções é maior, assim como a questão das mortes não contabilizadas de indígenas, ignoradas frequentemente. A democracia, com a garantia de direitos fundamentais, preserva a vida. Image
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27 Sep
A Constituição de 1988 foi escrita coletivamente num grande momento democrático. É das mais avançadas do mundo em direitos e garantias fundamentais. A democracia promoveu alfabetização, acesso ao ensino, redução da pobreza e de desigualdades. E sua liberdade de expressão, Mattar.
Quem deseja culpar a Constituição pelos gastos excessivos esquece que ela contempla o equilíbrio fiscal (exigindo limites para a dívida pública e até para despesas de pessoal) e eleva a “regra de ouro” a patamar constitucional e, portanto, insuperável.
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20 Sep
Assim como qualquer assunto num país assombrado pela polarização, querem reduzir o debate sobre volta às aulas em “sim” ou “não”. Ou, melhor, no maniqueísmo entre malvados e bonzinhos. Nada é tão simples assim. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia
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Eu parto de dois pressupostos:

1. Educação é primordial e aulas devem voltar em algum momento;
2. Esperar uma vacina, sem previsão e que pode inclusive nem vir a acontecer, é inviável.

A partir disso, podemos recolher evidências, ouvir especialistas e entender o que é melhor.
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