Meus dois centavos sobre a discussão recente sobre a dívida pública (no caso, a dívida bruta sobre o PIB), que esquentou nos últimos dias (1/n)
De fato as projeções melhoraram substancialmente em muito pouco tempo. Há 3 meses, as projeções + otimistas apontavam uma dívida próxima à estabilidade no final de 2021 em relação ao final de 2020 (88,8%). Agora, já se aproximam de 82%. O que mudou desde então? (2/n)
Considerando o numerador da relação, dois fatores sobressaem: (i) melhora em torno de R$ 100 bilhões no primário e (ii) aumento na estimativa com venda de “ativos” (BNDES; alguns estão colocando reservas também) (3/n)
No caso do primário, a melhora vem pela receita e está ligada a 2 fatores (PIB real e inflação - consumidor, atacado, commodities, etc). No caso dos ativos, somente o BNDES vai devolver cerca de R$ 100 bi (poucos levavam isso em conta, eu incluso, ao menos nesse montante) (4/n)
Ainda no numerador, temos outro fator de impacto com efeito na direção contrária, que é o aumento na expectativa de Selic, que impacta o custo de carregamento. Em todo caso, é muito pequeno em relação a (i) e (ii) listados acima (5/n)
Considerando agora o denominador (PIB nominal): o aumento nas projeções é grande e traz elevada contribuição p/ a queda da fração. O delta nas projeções decorre de 2 fatores: PIB real e inflação do PIB (6/n)
Este último pode ser ainda decomposto em (a) IPCA (b) diferencial deflator IPCA/deflator PIB. Exemplo aqui embaixo (com base em números que eu acho razoáveis) (7/n)
Juntando tudo, temos um pouco de sorte (commodities), um pouco de coisas boas (PIB real >), um pouco de coisas ruins (inflação >), um pouco de coisas +- irrelevantes pra dinâmica (BNDES/reservas) e um pouco de política econômica (teto de gasto), que segura a despesa (8/n)
Pra frente? Começando pela dinâmica de dívida. Sempre achei a trajetória + importante que o nível (para um dado nível). Isso valia antes e vale agora. Acomodação da dívida em 2021 é bem vinda, mas seguimos com dívida alta (9/n)
Será boa notícia se conseguirmos antecipar em alguns anos a reversão do primário (de - para +). Perguntas fundamentais: ganho de arrecadação acima do normal é temporário ou permanente? Crescimento tem fôlego? Preços de commodities se mantém? (10/n)
Se o cenário para essas questões for positivo, trajetória também fica bem melhor (ainda que pior do que o projetado no pré-crise) (11/n)
Agora sobre o curto prazo: primário melhora por conta do teto, mas o teto tem espremido muito a despesa discricionária. Estamos sem censo, sem bolsas, sem fiscalização ambiental, c/ investimento público muito baixo. Isso é sustentável? Impacta crescimento de LP?
(12/n)
Aliás, é preocupante, em meio a esse cenário, estarmos destinando volume tão grande para emendas do relator, que financiam gastos pulverizados, etc, enquanto programas + estruturados tem sido penalizados. Isso é bem ruim (13/n)
Em 2022 haverá maior espaço no teto, tão maior quanto menor ficar o INPC no fim do ano. Ainda assim, serão anos difíceis para as discricionárias (14/n)
Outro ponto é que muito se fala no espaço no teto p/ 2022, que, se utilizado até o limite, permitiria crescimento de despesas em ano eleitoral. Esse, contudo, é um ponto que não se sustenta quando se olha p/ as despesas em geral (e não só p/ as despesas sujeitas ao teto) (15/n)
Notem que este ano temos + de 100 bi de despesas extra teto além daquelas + comuns (Fundeb, etc). E subindo (ex: prorrogação do auxílio).

Ano que vem, em tese, ñ haverá isso (será que vão tentar emplacar alguma coisa extra-teto?) (16/n)

Por fim, segue artigo que publiquei em março passado na Fipe, que já trazia uma curva de dívida bruta + amena. Com essas novas premissas (+15% de PIB nominal, primário + perto -150 bi e devolução BNDES de 100 bi), a dívida cai uns 5 pps em 2021 (17/17)

downloads.fipe.org.br/publicacoes/bi…

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4 Mar
1. Sobre a PEC 186, os principais pontos que agradaram o mercado foram, ao meu ver, que (i) não mexeram estruturalmente nas regras do teto e (ii) limitaram o gasto por fora do teto em 44 bi. Ou seja, dada a chance de um furo + descontrolado, a fatura teria ficado de bom tamanho
2. De resto, p/ a União, não sobrou muito + coisa (o que já vinha sendo precificado há uns dias, talvez até desde sempre): desvinculação do RGPS e outros benefícios, mudança no salário mínimo, mudança no abono, redução de jornada de servidores, etc. Nada disso ficou.
3. Aí chegamos ao outro ponto relevante que ficou no texto, que é o acionamento dos gatilhos a partir da regra dos 95%. O mercado gostou e, de fato, ter uma forma de acionamento do gatilho é importante. Faço duas ressalvas apenas:
Read 9 tweets
4 Mar
Para quem se interessa por Economia Regional, o @BancoCentralBR acabou de divulgar os Boxes do Boletim Regional (que sai amanhã).
O primeiro fala da atividade econômica em 2020 nas regiões brasileiras e em alguns estados. Pelo IBC Regional, as regiões Norte e Centro-Oeste ficaram no campo positivo, enquanto a Sul e Nordeste tiveram a maior queda
O segundo trata especificamente do Amazonas, olhando para indicadores de alta frequência nesse início de ano e comparando com o resto do país.

Fica claro que o aumento nos casos e mortes derrubou a atividade (compras, mobilidade, etc)
Read 5 tweets
3 Jan
O artigo do Pastore de hoje traz a discussão sobre a tendência de queda na taxa de juro no mundo, citando Blanchard, Summers e Furman. Aproveitemos o gancho para falar um pouco disso aqui embaixo.
A discussão já vem de algum tempo. O capítulo + recente foi a conferência realizada há um mês, em 01/dez, que contou com apresentação de um novo texto de Furman e Summers. Comentaram Bernanke, Blanchard e Rogoff. Link abaixo:

piie.com/events/fiscal-…
O texto parte do fenômeno observado (queda da taxa nas últimas décadas). Ainda que apresentem hipóteses para explicar o fenômeno, o foco é colocado nas consequências/implicações dessa tendência para a política monetária e fiscal.
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27 Sep 20
As eleições municipais estão chegando, mas a vida dos futuros prefeitos e vereadores não vai ser fácil. A situação fiscal dos municípios não é muito animadora e é importante que os candidatos conheçam bem as contas de seu município.
A maioria dos municípios brasileiros estava c/ contas em má situação já em 2019. Esse é o CAPAG ("nota de risco"), do STN, disponível p/ 3,8 mil dos 5,6 mil municípios existentes.

Na última edição, 60% tinham notas C e D, 22% tinham nota B e somente 18% tinham nota A.
Para municípios que tiveram nota do CAPAG no ano anterior (2,2 mil), já tinha havido uma piora entre 2018 e 2019, indicado pela queda do número de municípios com nota A e B
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7 Aug 20
Este mês o assunto fiscal esquentará, em virtude do envio do orçamento de 2021 ao Congresso. O principal desafio é o limite dado pelo teto de gasto.
O teto é de 1.485 bi, aumento de apenas 31 bi em relação ao teto de 2020. Já seria bem apertado em tempos normais (ver margem fiscal da IFI), mas o desafio é ainda maior, pois alas do governo vem indicando vontade de aumentar o gasto com assistência (renda básica) e investimento.
A tentativa de drible já ficou escancarada, como no caso do Fundeb (quando queriam utilizar parcela dos recursos, que ñ estão sujeitos ao teto, p/ pagar assistência). Usar calamidade em 2021 ou capitalizar novamente a Emgepron são outros exemplos. Consultas foram feitas ao TCU.
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4 Aug 20
Livro que já nasce como referência p/ debater o futuro das contas públicas no país. Fundamental!

Pra mim, satisfação enorme ter participado, principalmente porque o livro anterior do @FelipeSalto, c/Mansueto, foi dos que + me ajudou a aprender sobre finanças públicas no Brasil
Me refiro a este livro aqui, com textos de diversos especialistas e que também deve fazer parte das leituras obrigatórias de quem quer se aprofundar em temas fiscais no Brasil Image
Aproveito para indicar mais três livros essenciais na área, começando por este, do Fabio Giambiagi e Ana Cláudia Além, que é um clássico entre os estudantes de graduação do país Image
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