Nessa polêmica a respeito da torcida na final da Copa América, a parte que mais me intriga é justamente a que está sendo menos debatida. Mais uma vez, me parece que estamos fugindo da pergunta mais importante...
Quase toda a repercussão é sobre a "obrigação ou não" de torcer pelo Brasil, com alguns argumentos esdrúxulos, outros incoerentes, mas alguns até legais.

Da minha parte, acho que cada um torce para quem quiser e pelos motivos que quiser. Mas minha opinião importa pouco.
O que importa mesmo é o PORQUÊ.

Afinal, o "óbvio" seria ver brasileiros torcendo pela seleção de seu país. No entanto, se muitos declaram o contrário, a ponto de chamar a atenção e gerar uma resposta do maior craque dessa geração dentro de campo, há algo acontecendo.
Por que muitis brasileiros não querem torcer por seus compatriotas?

Me parece que esse sim seria um debate produtivo. Poderíamos aprender muito sobre a relação das pessoas com o jogo, sobre o papel da seleção, a imagem da CBF, a interação com o futebol de clubes...
Em algum lugar, a coisa desandou. Pelo menos para uma parte da população brasileira. Esse nem parece ser um fenômeno novo, mas parece ser maior e mais relevante agora.

Entendê-lo na essência é um passo fundamental para planejar o que queremos que o futebol brasileiro seja.
Poderíamos aprender também sobre o próprio papel do futebol de seleções.

O mundo mudou muito. E vem mudando muito rápido. Antes, o encontro entre duas seleções era um choque de estilos, de ideias, de escolas futebolísticas que se desenvolviam mais ou menos isoladas das outras.
Hoje, todos os jogadores se conhecem. Jogam juntos ou se enfrentam toda semana. Os times se estudam, as referências táticas são parecidas, há vários jogadores naturalizados (não nessa final, mas na Eurocopa, por exemplo).

Quais são os papéis que esses encontros devem cumprir?
Brasileiros declarando torcida pela Argentina, seja por qual motivo for, me parece um sintoma de algo muito mais profundo.

Há uma mudança em curso. Ela é lenta porque mexe em coisas grandes.
Transformações assim normalmente são subestimadas justamente porque acontecem devagar. O problema é que revertê-las também é um processo super lento.

O barco é pesado para mudar de direção.

Eu não tenho as respostas, mas gostaria de ver outras perguntas abrindo caminhos.

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24 Jun
A UEFA decidiu acabar com o gol qualificado, o famoso "gol fora", já a partir da temporada que vem.

Ainda que eu reconheça que a regra é um pouco estranha, acho que gol qualificado é (ou era) uma baita ideia e pretendo te convencer disso!
O principal argumento da própria UEFA é que a "vantagem de jogar em casa" vem diminuindo há bastante tempo no futebol. Isso é inegável.

Em um mundo cada vez mais globalizado, viagens são mais simples e times podem estudar adversários em detalhes.

Antes, quando a regra foi concebida, uma viagem internacional era um salto no desconhecido. Diferentes estilos eram colocados frente a frente. O futebol era uma jornada de exploração a um novo mundo.
Read 24 tweets
19 Jun
A gente fala muito no ÚLTIMO PASSE, mas para entender o Flamengo atual é mais importante investigar aquilo que eu gosto de chamar de PRIMEIRO PASSE — que nem precisa ser um passe e muito menos ser o primeiro, mas é como a bola sai lá de trás para iniciar uma sequência ofensiva.
Tudo começa no goleiro, mas antes de falar sobre o papel fundamental exercido por Diego Alves, é preciso falar sobre o comandante, sua história e como sua experiência em campo moldou sua visão fora dele.
Rogério Ceni foi um goleiro revolucionário — pelo menos com os pés. Todo mundo sabe, mas vale lembrar: ele marcou 131 gols na carreira, sendo 61 de falta!!

Assim, inspirou uma geração de goleiros brasileiros que tentam bater faltas — algo que praticamente só existe por aqui.
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17 Jun
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 6: RED BULL BRAGANTINO]

Para fechar (com certo atraso) a série sobre os números do BR20, quero falar sobre um dos times mais interessantes e menos compreendidos do campeonato. Vamos falar sobre Red Bull Bragantino!
Quem viu o Red Bull Bragantino na zona de rebaixamento no início do campeonato e imaginou uma presa fácil, se precipitou.

Desde o início, o time já demonstrava um futebol interessante. Faltava consistência, mas ela foi conquistada ao longo da competição.
Ao pensar nesse elenco, é importante levar em conta a experiência.

No início do BR20, o jogador daquele elenco com mais partidas pela Série A era Arthur, que tinha apenas 22 anos. Felipe Conceição também estava iniciando sua jornada como treinador de primeira divisão.
Read 30 tweets
16 May
Desde a reestreia dos titulares, o Flamengo jogou 13 partidas — algumas com o time completo, outras com o misto e algumas com os reservas.

Foram 18 gols sofridos. Média de quase 1,4 por jogo. Número alarmante.

Mas há um vilão bem particular...
Até o primeiro jogo da final do Carioca, o time tinha tomado 6 gols — em 6 jogos diferentes — diretamente de escanteios! Sofreu gols assim em METADE dos jogos!

Como essa é uma das grandes armas do Fluminense, era óbvio que tentaria forçar dessa forma.

O Fla até conseguiu ceder poucos escanteios no jogo. Apenas 3.

Inclusive, quando Filipe Luís optou por jogar a bola para a linha de fundo, houve uma reclamação mais dura que ele retrucou. O Flamengo sabia que não podia dar esse tipo de chance.

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5 May
O Flamengo ficou muito acuado no segundo tempo contra a LDU e não conseguiu colocar a bola no chão. Quando conseguiu, saiu o pênalti que selou a vitória.

Vale a pena olhar esse lance nos mínimos detalhes, porque tem muita coisa interessante.
Depois de um domínio completo no primeiro tempo, ditando todo o ritmo do jogo e mantendo a bola, vários fatores influenciaram nessa dificuldade de ficar com a posse no segundo.

Um deles foi a mudança de goleiro.
Com a maior pressão da LDU, o Flamengo tinha menos espaço para sair. Quando iniciava as jogadas lá de trás, tinha Hugo — e não mais Diego Alves —, que tem uma notória dificuldade com os pés.

Os tiros de meta passaram a ser longos e a zaga também só aliviava com chutões.
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4 May
Guardiola é bom demais. Se adapta bem demais. Esse City é completamente diferente do City nas suas primeiras temporadas, que era diferente do Bayern, que já era diferente do Barça.

O futebol muda o tempo todo e ele está sempre lá na vanguarda!
Hoje o mundo viu mais uma vez o Jogo de Posição Guardiolista em ação: aquela filosofia que exige que todos os jogadores fiquem parados em campo, esperando a bola. Quem der um passo, vai pro banco na hora! O futebol de totó é finalista!

Ah, não... pera...
É brincadeira, mas não é muito distante do que vem sendo dito nos últimos tempos por aqui. É realmente fascinante o nível de distorção que tivemos nesse debate "posicional".

O City é todo sobre fluidez e controle, como Pep adora!
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