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17 Jul, 33 tweets, 10 min read
O Flamengo garantiu a vitória por 1x0 na Argentina e trouxe a vantagem na Libertadores para o jogo em casa. Dever cumprido na estreia do técnico Renato Gaúcho.

Ainda é muito cedo para avaliar profundamente o trabalho, mas podemos começar a formular algumas perguntas.
Qualquer análise deve partir do contexto. Renato Gaúcho não encontrou no Flamengo uma situação muito favortável logo de cara.

Jogar na Argentina já é difícil, o DyJ é um adversário bem treinado e Beccacece conhece o Fla — foi o responsável pela eliminação na temporada passada.
Além disso, o time estava desfalcado e vem em um momento ruim — tanto em termos de desempenho quando de resultado.

Com tudo isso, a vitória foi enorme e não deve ser subestimada. Pelo contrário, precisa ser muito celebrada!
Mas nenhuma análise deve parar por aí. O objetivo é vencer, mas o melhor meio para fazer isso de maneira consistente é jogar bem.

E o Flamengo não fez uma grande partida. Longe disso, aliás...

Renato chegou na segunda, viajou e jogou na quarta. Ainda é muito cedo para tirar qualquer conclusão. Seria absolutamente injusto cobrar um grande futebol ou culpá-lo pela má atuação.

Que Flamengo será esse? Ainda não sabemos. Mas temos algumas pistas...
Em seu primeiro jogo, ele adotou o 4-2-3-1 que usava no Grêmio e que, ao que tudo indica, deve ser a base de seu novo trabalho, com Arrascaeta centralizado e Gabigol como centroavante único.
Não chega a ser uma grande novidade no Flamengo. Abel Braga jogava assim (mas com Arrascaeta pela esquerda e às vezes Gabigol na direita), JJ quase sempre variava para essa formação (mas centralizando Everton Ribeiro) e Domenec também adotou essa estrutura.
O próprio Rogério Ceni, que partia do 4-4-2 e não costumava promover grandes alterações táticas, chegou a usar essa formação em algumas ocasiões, como no fim da vitória por 3x2 sobre o Vélez, na estreia da Libertadores

Além da formação, Renato fez alterações importantes na maneira de jogar, mesmo com tão pouco tempo — uma escolha ousada para quem, apesar da má fase, não encontrou terra arrasada.

Quero destacar quatro aspectos.
O primeiro é o que vinha sendo mais debatido: a bola parada defensiva.

Afinal, o torcedor rubro-negro tem nítida na memória aquela goleada por 5x0 sobre o Grêmio, em que a bola parada foi fundamental.

Logo que chegou ao Fla, Jorge Jesus implementou um sistema de marcação por zona na bola parada. Foi muito difícil no início, mas o time se adaptou e ganhou solidez. Há até um capítulo do meu livro dedicado a esse tema...
Domenec e Rogério Ceni mantiveram o sistema — com algumas mudanças pontuais.

No começo da atual temporada, o time passou por um momento terrível, tomando muitos gols de escanteio, mas já havia superado.

A pergunta, portanto, era simples: Renato manteria o sistema por zona do Fla ou traria o sistema individual que usava no Grêmio?

E a resposta veio a galope: logo aos 8 minutos de seu primeiro jogo no comando, vimos o Flamengo marcando de maneira individual no escanteio.
Muita gente já falou sobre isso nos últimos dias e não preciso ser repetitivo. O @rnato_rodrigues fez um detalhamento no Instagram usando vídeos do jogo

instagram.com/tv/CRWzi1ClZVg

Apesar de não ter tomado gol, o Flamengo não pareceu seguro nesse aspecto... Vai precisar se adaptar.
A segunda mudança foi na saída de bola.

Rogério Ceni usava um modelo de saída em 3-1, prendendo Filipe Luís e espetando o lateral do outro lado.

Considerando a escalação que enfrentou o DyJ, o desenho ficaria mais ou menos assim...
Renato, por sua vez, optou por uma saída em 2-2, que também utilizava no Grêmio.



Em alguns momentos, vimos João Gomes recuando entre os zagueiros (mais ou menos como Arão fazia com JJ), mas pareceu mais circunstancial...
De fato, essa parte não funcionou. O Flamengo não conseguiu trocar passes com tranquilidade e manipular a marcação do DyJ. O primeiro passe não teve qualidade, a bola não saiu limpa lá de trás e não chegou bem trabalhada lá na frente.

Não dá pra dizer, no entanto, que essa dificuldade foi culpa apenas do desenho em campo. Além de uma boa marcação-pressão do DyJ, o Fla enfrentou muitos desfalques justamente ali. Rodrigo Caio, Arão e Diego fizeram falta nesse aspecto.
A terceira mudança foi no comportamento pós-perda.

Há muito tempo, o Flamengo é um time que tenta reagir correndo para frente quando perde a bola, buscando abafar contra-ataques ou até mesmo recuperar rapidamente.
Esse era um dos grandes trunfos do time treinado por JJ. Com Domenec, perdeu eficiência e teve problemas. Rogério Ceni teve muita dificuldade para ajustar esse comportamento quando chegou.

Mas os três partiam, pelo menos no papel, do mesmo princípio.

Na reta final do BR20, o Fla melhorou e começou a atrapalhar mais os contra-ataques adversários. Oscilou de novo no início dessa temporada, mas conseguiu evoluir (especialmente pela melhora defensiva de Diego) e vinha sofrendo menos nesses momentos.

Contra o DyJ, Renato preferiu defender um pouco mais recuado, portanto o time passou a correr para trás logo depois de perder a bola.

Não tem certo ou errado. São escolhas. Nesse caso, pode ter influenciado a alta posse de bola do time argentino, por exemplo.
O quarto ponto de mudança foi na dinâmica ofensiva.

Como preferiu se defender um pouco mais perto do próprio gol, o Flamengo passou a atacar rapidamente, buscando contra-ataques, em vez de fazer um jogo mais controlado, que estamos mais acostumados a ver.
Faz sentido. Afinal, se você joga com todo mundo no campo rival, mantendo a posse e amassando, mas quer se defender atrás, o time todo precisa correr 50 ou 60m para trás, gastando muita energia.

No entanto, sem conseguir fazer a bola sair com qualidade de trás, o time abusou das bolas longas e a dupla Arrascaeta-Gabigol quase não tocaram na bola.

A melhor jogada entre os dois veio justamente em um lançamento para uma escapada rápida.

Esse movimento do camisa 9, fazendo o facão da esquerda para dentro era muito visto no início de 2019, ainda com Abel Braga, justamente pelo uso do 4-2-3-1. Depois, jogando mais vezes em dupla de ataque, deixamos de ver tantos gols assim.

É importante fazer uma distinção: no futebol (assim como na vida), há as escolhas em si e há a implementação dessas escolhas.

Acho que o time fez um jogo simplesmente ruim, muitos jogadores tiveram uma noite abaixo e nada fluiu. Isso, aliás, torna a vitória ainda mais importante
Afinal, também é importante conseguir ganhar em dias ruins e eventualmente fazer aquele gol cagado que garante três pontos. O Fla, inclusive, já gastou a cota de sofrer o oposto.
Mas acredito que o que causou algum desconforto em parte da torcida foi o tipo de escolha em si. O time não apenas jogou mal, ele não tentou jogar "como Flamengo". Foi uma proposta bem diferente daquilo que nos acostumamos a ver nos últimos anos — em momentos bons ou ruins.
E o torcedor do Flamengo, claro, não se orgulha apenas por ter entrado na briga por títulos. A forma de jogar (ou tentar jogar) também faz parte disso. Uma proposta ofensiva, envolvente e dominante.

Contra o DyJ, vimos um caminho diferente.
É muito cedo, porém, para afirmar que essa é a ideia de Renato Gaúcho para o time. Abel Braga chegou explicitamente dizendo que queria "tirar um pouco da posse de bola". Até o momento, Renato não indicou nada nesse sentido.

blogdomaurocezar.blogosfera.uol.com.br/2019/03/05/abe…
É provável que ele tenha entendido que um jogo mais "simplório" poderia ser mais seguro dentro desse contexto e, para começar o trabalho, não quis ousar muito. Diversos treinadores fazem isso em diferentes situações.

O curioso foi justamente ele fazer tantas mudanças, mas...
... não vejo motivo para pânico. O Flamengo jogou diferente do que está acostumado e foi mal, mas esse ainda não é o novo Flamengo. Veremos quais são, de fato, as ideias de Renato. Veremos quais escolhas da primeira semana sobreviverão... Estou curioso.

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