Quando George Orwell escreveu o clássico "1984" e imaginou o Big Brother, uma figura capaz de observar tudo e todos, ele certamente não estava pensando em nenhuma relação com o futebol brasileiro do século XXI. Mas ninguém passa ileso. Nada mais é privado ou confidencial.
A força motriz do mundo do futebol é a paixão do torcedor e a imprensa é o principal mediador dessas relações entre clube e torcida.
Portanto, apesar de não ser protagonista do espetáculo, ela tem um papel chave.
Esse papel vem se transformando radicalmente por conta das redes sociais — e todo mundo ainda está tentando se adaptar a esse novo ambiente —, mas há uma peça que move essa engrenagem: a informação interna.
Já escrevi aqui sobre como os boatos de transferências se tornaram tão relevantes nesse mercado...
Vale também falar especificamente sobre o papel da mídia em divulgar informações que, em tese, não deveriam vir a público.
O principal "produto" do mundo do futebol é, claro, o jogo de futebol. Paralelamente a isso, existe um jogo de informações.
O mercado é muito assimétrico, fechado e complexo. Quem sabe mais, tem vantagem. Aliás, boa parte do que acontece no futebol é feito a portas fechadas.
Porém, diferente de outros mercados, o futebol tem uma multidão gigantesca prestando atenção constante a tudo que se passa.
Ou seja, dentro desse mercado informação é um "produto" que SEMPRE tem demanda. Seja dos agentes que atuam diretamente no jogo, seja do público.
Afinal, qual torcedor não quer saber o que acontece dentro do seu clube?
Aqui é preciso separar informação privilegiada daquilo que precisa vir a público por uma questão de transparência. Um caso de corrupção dentro de um clube é fundamentalmente diferente de uma negociação em curso ou da escalação do próximo jogo.
Mas é importante entender que informação também molda comportamento. Se você sabe uma coisa nova, pode tomar uma decisão diferente — ou pode reagir de forma diferente a uma decisão que foi tomada.
Se a torcida souber que o clube está negociando com um jogador qualquer, pode gerar um burburinho positivo, pressionando pela contratação, o que valoriza o passe do jogador.
Se você fosse o agente do cara, o que faria? Guardaria para você ou soltaria o boato na mídia?
O problema é que, pelo menos no mundo ideal, informação só vale se houver credibilidade. Se você só passa informações erradas, é possível que ninguém acredite na próxima coisa que você disser. É a tal história do "menino que gritava lobo"
Claro que estamos falando de futebol e de paixão, então isso nem sempre é verdade. Perfis como o @BarrigadasFlatt estão aí para provar que a prática nem sempre funciona assim. Tem gente passando um monte de informação errada, mas que segue movimentando o mercado.
Enfim... O ponto central aqui é o seguinte: quem vaza alguma informação sempre tem algo a ganhar.
Vamos a um exemplo simples... Por que alguém vaza uma escalação para um jogo? Aquilo pode até não trazer ganho direto para quem vaza, mas garante boa vontade do jornalista e a credencial de "fonte confiável".
Quando essa pessoa tiver alguma informação que, se vazada, pode trazer algum ganho direto ou indireto, ela tem a opção de usar essa carta.
A imprensa, portanto, tão fundamental por tantos aspectos, serve como veículo para manejar o "mercado"
A boa imprensa, claro, vai atrás, procura, apura, busca diferentes versões, confere informações e sabe separar o joio do trigo.
Mesmo sempre publicando a verdade, ela acaba se relacionando com esses interesses. Ou uma fonte soltaria uma informação que a prejudicasse diretamente?
Acredito que a maioria dos jornalistas que cobrem o futebol não mentem. Não inventam informações ou acreditam em fontes fajutas. Mas publicam informações e versões contadas por quem se interessa que aquilo seja publicado.
Quase nada passa despercebido aos olhos do Big Brother. Quase nada no futebol é 100% privado. Tudo pode estar na capa do jornal amanhã.
Mas tudo vem de algum lugar. Toda informação (e toda versão) foi contada por alguém que está jogando o jogo de dentro.
Os fatos recentes no Flamengo mostram perfeitamente como o vazamento de informações internas movimenta o tabuleiro. Seja um relatório de análise ou um áudio, tudo tem seu lugar e cumpre algum papel.
Portanto, mesmo que a gente acredite em tudo que sai no jornal, me parece saudável a gente sempre perguntar: a quem interessa essa informação? Por que ela está sendo contada desse jeito? Por que agora?
Através dessas perguntas a gente pode tentar entender o jogo além do jogo.
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No livro "Decisive", Chip e Dan Heath analisam processos de tomada de decisão em busca de um modelo mental que nos torne mais seguros, inteligentes e assertivos na hora de escolher caminhos a percorrer.
Vale a pena olhar a chegada de Renato Gaúcho ao Flamengo por esse prisma.
Os irmãos Heath argumentam que, em geral, não somos muito bons em avaliar decisões que impactam um futuro incerto.
Costumamos colocar um holofote sobre aquilo que parece ser o centro da questão. O problema é que holofotes iluminam um ponto, mas deixam todo o resto no escuro.
“Para tomar melhores decisões, devemos mover nosso ‘holofote mental’ para jogar luz em coisas que não olharíamos normalmente.”
É difícil (talvez impossível) modificar as tendências do nosso cérebro, mas podemos criar um processo consciente que nos ajude a escapar delas.
Nessa polêmica a respeito da torcida na final da Copa América, a parte que mais me intriga é justamente a que está sendo menos debatida. Mais uma vez, me parece que estamos fugindo da pergunta mais importante...
Quase toda a repercussão é sobre a "obrigação ou não" de torcer pelo Brasil, com alguns argumentos esdrúxulos, outros incoerentes, mas alguns até legais.
Da minha parte, acho que cada um torce para quem quiser e pelos motivos que quiser. Mas minha opinião importa pouco.
O que importa mesmo é o PORQUÊ.
Afinal, o "óbvio" seria ver brasileiros torcendo pela seleção de seu país. No entanto, se muitos declaram o contrário, a ponto de chamar a atenção e gerar uma resposta do maior craque dessa geração dentro de campo, há algo acontecendo.
Antes, quando a regra foi concebida, uma viagem internacional era um salto no desconhecido. Diferentes estilos eram colocados frente a frente. O futebol era uma jornada de exploração a um novo mundo.
A gente fala muito no ÚLTIMO PASSE, mas para entender o Flamengo atual é mais importante investigar aquilo que eu gosto de chamar de PRIMEIRO PASSE — que nem precisa ser um passe e muito menos ser o primeiro, mas é como a bola sai lá de trás para iniciar uma sequência ofensiva.
Tudo começa no goleiro, mas antes de falar sobre o papel fundamental exercido por Diego Alves, é preciso falar sobre o comandante, sua história e como sua experiência em campo moldou sua visão fora dele.
Rogério Ceni foi um goleiro revolucionário — pelo menos com os pés. Todo mundo sabe, mas vale lembrar: ele marcou 131 gols na carreira, sendo 61 de falta!!
Assim, inspirou uma geração de goleiros brasileiros que tentam bater faltas — algo que praticamente só existe por aqui.
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 6: RED BULL BRAGANTINO]
Para fechar (com certo atraso) a série sobre os números do BR20, quero falar sobre um dos times mais interessantes e menos compreendidos do campeonato. Vamos falar sobre Red Bull Bragantino!
Quem viu o Red Bull Bragantino na zona de rebaixamento no início do campeonato e imaginou uma presa fácil, se precipitou.
Desde o início, o time já demonstrava um futebol interessante. Faltava consistência, mas ela foi conquistada ao longo da competição.
Ao pensar nesse elenco, é importante levar em conta a experiência.
No início do BR20, o jogador daquele elenco com mais partidas pela Série A era Arthur, que tinha apenas 22 anos. Felipe Conceição também estava iniciando sua jornada como treinador de primeira divisão.
Desde a reestreia dos titulares, o Flamengo jogou 13 partidas — algumas com o time completo, outras com o misto e algumas com os reservas.
Foram 18 gols sofridos. Média de quase 1,4 por jogo. Número alarmante.
Mas há um vilão bem particular...
Até o primeiro jogo da final do Carioca, o time tinha tomado 6 gols — em 6 jogos diferentes — diretamente de escanteios! Sofreu gols assim em METADE dos jogos!
Como essa é uma das grandes armas do Fluminense, era óbvio que tentaria forçar dessa forma.
O Fla até conseguiu ceder poucos escanteios no jogo. Apenas 3.
Inclusive, quando Filipe Luís optou por jogar a bola para a linha de fundo, houve uma reclamação mais dura que ele retrucou. O Flamengo sabia que não podia dar esse tipo de chance.