No livro "Decisive", Chip e Dan Heath analisam processos de tomada de decisão em busca de um modelo mental que nos torne mais seguros, inteligentes e assertivos na hora de escolher caminhos a percorrer.
Vale a pena olhar a chegada de Renato Gaúcho ao Flamengo por esse prisma.
Os irmãos Heath argumentam que, em geral, não somos muito bons em avaliar decisões que impactam um futuro incerto.
Costumamos colocar um holofote sobre aquilo que parece ser o centro da questão. O problema é que holofotes iluminam um ponto, mas deixam todo o resto no escuro.
“Para tomar melhores decisões, devemos mover nosso ‘holofote mental’ para jogar luz em coisas que não olharíamos normalmente.”
É difícil (talvez impossível) modificar as tendências do nosso cérebro, mas podemos criar um processo consciente que nos ajude a escapar delas.
Para isso, os autores identificaram o que chamam de “QUATRO VILÕES DA TOMADA DE DECISÃO” e maneiras de combatê-los.
Vamos a cada um...
O primeiro vilão é o ENQUADRAMENTO ESTREITO.
Nossa tendência é modelar nossas decisões como binárias: “sim ou não”.
“Devo fazer isso ou aquilo?”
Mas essas escolhas não levam em conta a complexidade e sutileza do nosso mundo.
Antes de tomar uma decisão, é preciso EXPANDIR AS OPÇÕES. Pensar fora da caixa, imaginar outras possibilidades e especular sobre ramificações possíveis no futuro.
A escolha do Flamengo sempre pareceu ser entre “trazer Renato Gaúcho ou não?” — mesmo antes de demitir Rogério Ceni.
Havia outras opções? Um bom exercício é perguntar “o que o clube faria se aquela possibilidade não estivesse disponível?”
Provavelmente surgiriam outros caminhos — pelo menos para serem contrastados com aquele mais imediato e acessível.
O segundo vilão é o VIÉS DE CONFIRMAÇÃO.
A nossa tendência é buscar informações e interpretá-las de maneira que validem nossas crenças prévias.
É um assunto extenso e que gera muita pesquisa, mas todos nós experimentamos esse viés no dia a dia.
Mas o que isso significa? Afinal, se simplesmente “conhecer o torneio” fosse garantia de algo, seria razoável imaginar que seu desempenho vem melhorando ano a ano. Desde seu título em 2017, no entanto, ele caiu cada vez mais cedo, chegando a ficar fora da fase de grupos em 2021.
Enquanto isso, os dois últimos campeões são portugueses que haviam chegado ao Brasil poucos meses antes. O próprio Jorge Jesus deu entrevistas se dizendo surpreso com o tamanho da importância dada ao torneio. Ou seja, não conhecia nada antes de ganhar.
Reinaldo Rueda venceu pelo Atlético Nacional em 2016 (um ano antes de Renato vencer peo Grêmio), na sua primeira tentativa após mais de uma década trabalhando em seleções.
Até mesmo quando parece haver uma correlação clara, como no caso de Unai Emery disputando a Europa League, ela é bem difícil de explicar, dado que cada campanha é única.
O caminho para tentar combater esse viés é CHECAR AS HIPÓTESES.
Existe alguma pesquisa que mostre essa correlação? Há outros fatores que devem ser levados em consideração? Quais são os argumentos contrários ao que eu acredito? Eles são realistas, independente da minha opinião?
O terceiro vilão são as EMOÇÕES DE CURTO PRAZO
A nossa tendência é olhar para aquilo que está imediatamente ao nosso redor. Pessoas, instituições, lugares, processos etc que serão impactados pela nossa decisão.
Se a nossa escolha não parece boa agora, ela não nos parece boa.
Foi relatado que o objetivo da diretoria do Flamengo era “resolver rápido”.
É óbvio que a chance de perder a Libertadores traz um senso de urgência, mas será que deveria ser o pilar central da decisão?
Aqui entra muita coisa. Uma delas é a “aversão à perda”: as pessoas costumam ter mais medo de perder do que desejo de ganhar (e esse não é apenas um jargão do futebol!)
A gente precisa, então, olhar as coisas em perspectiva. TOMAR DISTÂNCIA.
A gente experimenta o mundo a partir dos nossos próprios olhos (e emoções), então é difícil se olhar as coisas por outro ângulo. Com um pouco de abstração, porém, dá para tentar responder: qual decisão eu consideraria correta se fosse em outro clube que não o meu?
Uma sugestão dos irmãos Heath é usar a “regra 10-10-10”. Na hora de tomar qualquer decisão, podemos tentar imaginar como vamos nos sentir dali a 10 minutos, 10 meses e 10 anos, por exemplo. Às vezes, o que faz bem agora pode custar caro depois.
No futebol, claro, 10 anos é muita coisa. Mas podemos pensar em uma “regra 1-1-1”, pedindo licença aos autores. Como a gente se sente um dia depois da escolha? Como vamos nos sentir em um mês? E daqui a um ano?
O ciclo do futebol é cruel. Em geral, um ano depois os clubes estão enfrentando os mesmos desafios e tomando os mesmos tipos de decisão — e isso tem a ver com a forma como decidem.
Esse sentimento futuro, claro, vai depender dos resultados concretos. E aí chegamos ao quarto vilão: CONFIANÇA EXAGERADA.
Se a gente toma uma decisão, é porque acredita que ela é a melhor. Com isso, a nossa tendência natural é subestimar demais a chance de estarmos errados.
Há um detalhe na negociação com Renato que me chamou a atenção: a renovação automática caso Landim seja reeleito.
O presidente acabou atrelando a eleição aos resultados em campo. No fim do ano, o sócio do Fla pode se ver votando não apenas para presidente, mas para treinador.
Renato não pode ser demitido até o fim do BR21 (pelo limite imposto) e terá seu contrato renovado com aumento de salário caso se confirme o que todo mundo espera nas urnas.
Landim já é o favorito absoluto no pleito de qualquer forma. Por que ligar as duas coisas?
Não me parece um movimento que leva em consideração esse último vilão da tomada de decisão. Afinal, a maneira de superá-lo é SE PREPARAR PARA ESTAR ERRADO.
Toda (ou quase toda) decisão pode se mostrar certa ou errada no futuro — e muitos fatores fogem do nosso controle.
Afinal de contas, por que insisto tanto nessa questão, mais do que na escolha em si?
Porque NINGUÉM SABE ao certo se será Renato um sucesso estupendo ou um fracasso retumbante. Quem diz ter certeza absoluta está mentindo e/ou apostando. O futebol é imprevisível por natureza.
O que podemos fazer — no futebol e na vida — é guiar o processo para aumentar o índice de acerto.
Quem tem um bom processo para tomar decisões é capaz de avaliá-las melhor para entender PORQUE deu certo ou errado. Assim, pode aprender para tomar uma decisão melhor na próxima.
Há muitas coisas que não temos como saber de fora. Pode ser que o Fla já estivesse analisando opções há muitas semanas e tenha chegado no nome de Renato Gaúcho através de um processo meticulosamente elaborado. Pelas informações que temos, no entanto, isso parece improvável.
De uma forma ou de outra, a decisão está tomada. Agora resta torcer — e analisar detalhadamente, avaliar continuamente, corrigir eventuais desvios de rota, melhorar sempre e se preparar para a próxima decisão. Em algum momento, ela virá!
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Quando George Orwell escreveu o clássico "1984" e imaginou o Big Brother, uma figura capaz de observar tudo e todos, ele certamente não estava pensando em nenhuma relação com o futebol brasileiro do século XXI. Mas ninguém passa ileso. Nada mais é privado ou confidencial.
A força motriz do mundo do futebol é a paixão do torcedor e a imprensa é o principal mediador dessas relações entre clube e torcida.
Portanto, apesar de não ser protagonista do espetáculo, ela tem um papel chave.
Esse papel vem se transformando radicalmente por conta das redes sociais — e todo mundo ainda está tentando se adaptar a esse novo ambiente —, mas há uma peça que move essa engrenagem: a informação interna.
Nessa polêmica a respeito da torcida na final da Copa América, a parte que mais me intriga é justamente a que está sendo menos debatida. Mais uma vez, me parece que estamos fugindo da pergunta mais importante...
Quase toda a repercussão é sobre a "obrigação ou não" de torcer pelo Brasil, com alguns argumentos esdrúxulos, outros incoerentes, mas alguns até legais.
Da minha parte, acho que cada um torce para quem quiser e pelos motivos que quiser. Mas minha opinião importa pouco.
O que importa mesmo é o PORQUÊ.
Afinal, o "óbvio" seria ver brasileiros torcendo pela seleção de seu país. No entanto, se muitos declaram o contrário, a ponto de chamar a atenção e gerar uma resposta do maior craque dessa geração dentro de campo, há algo acontecendo.
Antes, quando a regra foi concebida, uma viagem internacional era um salto no desconhecido. Diferentes estilos eram colocados frente a frente. O futebol era uma jornada de exploração a um novo mundo.
A gente fala muito no ÚLTIMO PASSE, mas para entender o Flamengo atual é mais importante investigar aquilo que eu gosto de chamar de PRIMEIRO PASSE — que nem precisa ser um passe e muito menos ser o primeiro, mas é como a bola sai lá de trás para iniciar uma sequência ofensiva.
Tudo começa no goleiro, mas antes de falar sobre o papel fundamental exercido por Diego Alves, é preciso falar sobre o comandante, sua história e como sua experiência em campo moldou sua visão fora dele.
Rogério Ceni foi um goleiro revolucionário — pelo menos com os pés. Todo mundo sabe, mas vale lembrar: ele marcou 131 gols na carreira, sendo 61 de falta!!
Assim, inspirou uma geração de goleiros brasileiros que tentam bater faltas — algo que praticamente só existe por aqui.
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 6: RED BULL BRAGANTINO]
Para fechar (com certo atraso) a série sobre os números do BR20, quero falar sobre um dos times mais interessantes e menos compreendidos do campeonato. Vamos falar sobre Red Bull Bragantino!
Quem viu o Red Bull Bragantino na zona de rebaixamento no início do campeonato e imaginou uma presa fácil, se precipitou.
Desde o início, o time já demonstrava um futebol interessante. Faltava consistência, mas ela foi conquistada ao longo da competição.
Ao pensar nesse elenco, é importante levar em conta a experiência.
No início do BR20, o jogador daquele elenco com mais partidas pela Série A era Arthur, que tinha apenas 22 anos. Felipe Conceição também estava iniciando sua jornada como treinador de primeira divisão.
Desde a reestreia dos titulares, o Flamengo jogou 13 partidas — algumas com o time completo, outras com o misto e algumas com os reservas.
Foram 18 gols sofridos. Média de quase 1,4 por jogo. Número alarmante.
Mas há um vilão bem particular...
Até o primeiro jogo da final do Carioca, o time tinha tomado 6 gols — em 6 jogos diferentes — diretamente de escanteios! Sofreu gols assim em METADE dos jogos!
Como essa é uma das grandes armas do Fluminense, era óbvio que tentaria forçar dessa forma.
O Fla até conseguiu ceder poucos escanteios no jogo. Apenas 3.
Inclusive, quando Filipe Luís optou por jogar a bola para a linha de fundo, houve uma reclamação mais dura que ele retrucou. O Flamengo sabia que não podia dar esse tipo de chance.