Sobre Audálio Dantas e Carolina Maria de Jesus

1) Depois de quase 70 anos de carreira comprovadamente pautada pelos Direitos Humanos, pela defesa das minorias, pela cultura e pela educação, Audálio agora aparece em papel de vilão. ⬇️
2) Durante todo o tempo em que esteve vivo, permaneceu à disposição da sociedade para qualquer esclarecimento, palestra, aula, bate-papo para o qual fosse solicitado. A grandessíssima maioria, inclusive, de graça. +
3) Era procurado por estudantes dos Ensinos Médio e Superior, além de imprensa nacional e internacional.

Há três anos, ele partiu.

A última entrevista que ele deu sobre este tema foi literalmente do quarto de hospital onde viria a morrer. +
4) Agora que não está mais para se defender, surgem publicações muito importantes: a Cia das Letras, guiada por um conselho editorial, lançou dois volumes integrais de Casa de Alvenaria. +
5) Originalmente, a publicação sucedeu Quarto de Despejo; os dois foram editados por Audálio após ele e Carolina se conhecerem na Favela do Canindé, em São Paulo. +
6) Há um movimento de crítica literária, muito bem-vindo, que questiona se ele deveria ter publicado tudo o que ela escreveu. Excelente, vamos debater, a produção de Carolina é muito importante, é uma das maiores escritoras do Brasil. +
7) Só que, para a minha surpresa, de toda a família e de todos os amigos do meu pai que estiveram na trincheira ao lado dele, as duas publicações trazem não só insinuações como acusações graves - e que não se verificam. +
8) Em nenhum momento a Cia das Letras nos procurou para esclarecimentos. Certamente porque não havia interesse. Pois bem: este movimento me obrigou a me embrenhar nas papeladas do meu pai e já encontrei documentos suficientes que provam o contrário das acusações. +
9) Eles serão revelados em momento oportuno. Por ora, lamento muito que os mais desavisados que farão a leitura das novas edições encontrem ali um Audálio demonizado.
A Carolina, o Audálio, a produção de ambos juntos - e também separados - são infinitamente maiores que isso. +
10) Audálio sabia disso: todas as entrevistas que ele deu a respeito de Carolina, ainda que tenham rompido em meados dos anos 60, foram com reverência, orgulho e carinho. Façam a pesquisa que quiserem no Google e no Youtube. +
11) Audálio inclusive deixava claro que foi Carolina quem percebeu que ele estava na favela à procura de histórias e gritou bem alto para que ele ouvisse a respeito do livro. Não são os críticos de hoje que dizem que Carolina que encontrou Audálio, ele mesmo dizia isso. +
12) Diante das acusações e da tentativa de manchar a biografia do meu pai, não nos restará alternativa senão revelar o que por muito tempo ficou guardado. Por ora, o que posso pedir é que tenham visão crítica sobre o que forem ler daqui pra frente. +
13) Meu pai só tinha o nome dele, a honra dele. E eu nunca pensei que fosse precisar fazer isso, mas agora estou aqui não para falar contra alguém, mas em favor dele. O cara mais honesto, correto e de bom caráter que já conheci.

Audálio Dantas era, sobretudo, um homem bom.
Para mais informações, há esta reportagem da Folha, que pelo menos fez a lição de casa e buscou ponderar, ouvir o outro lado - coisa básica no Jornalismo e no Direito:

Estou recebendo mensagens de solidariedade por todos os cantos, tenham certeza de que meu coração está mais quentinho. Muito obrigada!

Daqui pra frente, triaremos todos os documentos que meu pai deixou guardados e tudo será tratado sob a orientação de um advogado.

Obrigada!

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24 Mar
Nessa altura do campeonato, você consegue imaginar um hospital no Brasil onde o coronavírus NUNCA entrou?
Ele existe.

E por que estou falando disso hoje?

🧶Segue o fio:
Estamos às vésperas de completar um ano de uma iniciativa inédita que se tem notícia no mundo. No dia 25 de março de 2020 (14 dias depois de a OMS decretar pandemia), o hospital que é pioneiro a se dedicar integralmente aos cuidados paliativos no Brasil entrou em lockdown.
O objetivo? Impedir que o coronavírus entrasse e atingisse os pacientes, diagnosticados com doenças crônicas e com um estado de saúde especialmente frágil.

Naquela altura, eram 57 mortos pela Covid-19 no Brasil.
Read 18 tweets
20 Mar
Equipes de saúde da linha de frente não deveriam carregar o ônus de decidir quem vive e quem morre.

Por quê?

🧶Segue o fio - por @dadaltoluciana e @jkdantas ⬇️
Exigir que esses profissionais, que já estão há um ano trabalhando com medo, à exaustão, e sem abraçar seus familiares, escolham para quem dar um leito, um respirador ou um medicamento, é contra todos os critérios científicos sobre o tema.
Trata-se de uma Escolha de Sofia, termo que ganhou fama após um filme clássico protagonizado por Meryl Streep, no qual "Sofia", uma mãe polonesa, filha de pai anti-semita, é presa num campo de concentração durante a Segunda Guerra e é forçada por um soldado nazista a escolher +
Read 30 tweets
19 Mar
(1/11)

Você sabe o que é MISTANÁSIA?

A prática já acontecia no Brasil antes da pandemia e, agora, está se intensificando.

🧶Segue o fio - por @dadaltoluciana e @jkdantas. ⬇️
(2/11)

Trata-se de uma morte cruel, desumana, indigna, por omissão de socorro, falta de atendimento ou falta de medicamento/leito/exame. Ou seja: morre-se numa fila de hospital, à espera de um medicamento, leito de UTI ou de um cilindro de oxigênio, por exemplo.
(3/11)

Na capital paulista, por exemplo, a Prefeitura confirmou, nesta semana, que já houve a primeira morte de uma vítima da doença sem atendimento adequado na rede pública.
Read 14 tweets
11 Jan
Com todo o respeito pelo Ruy Castro e com todo o desprezo por Trump e Bolsonaro, me sinto no dever de escrever sobre isso.
Não sou psicóloga, sou jornalista. Já fiz reportagens sobre suicídio em grandes redações e atualmente cubro especificamente temas relacionados à morte. +
Antes de a gente seguir neste fio, vale lembrar que se você está passando por alguma situação delicada ou conhece quem está, o @CVVoficial é um atendimento sigiloso, gratuito e 24h. Pelo telefone 188 ou pelos canais de comunicação na internet. +
Também há o mapasaudemental.com.br, desenvolvido pelo Instituto Vita Alere - uma referência em prevenção e posvenção ao suicídio. Neste site há contatos de psicólogos e psiquiatras gratuitos em todo o Brasil, online ou presencial.

Dito isto, sigamos:
Read 16 tweets
5 Jul 20
Nos últimos dias tive uma das experiências mais incríveis da minha vida.

Segue o 🧶
O Hospital Premier, o 1º do Brasil a se dedicar integralmente aos cuidados paliativos, esteve 100 dias em isolamento.
Metade da equipe escolheu ficar e a outra metade - por razões diversas - esteve do lado de fora, recebendo o salário integralmente.
A princípio, a quarentena+
duraria 45 dias. Mas, como sabemos, os números do coronavírus não param de subir. Para proteger os pacientes, em estado de saúde frágil, o único jeito era manter a medida - tão drástica quanto necessária. Se a Covid passasse por algum dos portões, poderia acontecer uma tragédia+
Read 8 tweets
18 Jun 20
Como lidar com alguém em luto - A THREAD

Nos próximos dias, infelizmente, chegaremos aos 50 mil mortos por Covid-19 no Brasil. A estimativa é de que cada uma dessas perdas deixe 10 pessoas em luto. Numa conta rápida: meio milhão de brasileiros em sofrimento.+
Isso sem falar sobre a subnotificação e sobre os óbitos por outros motivos, que continuam acontecendo.

Tem sido difícil encontrar quem não conhecia alguém que morreu por causa do coronavírus - ou que conheça quem esteja em sofrimento pela partida de um parente ou amigo. +
Por isso, compilei alguns aprendizados que venho tendo nos últimos anos, como jornalista dedicada ao envelhecimento, aos cuidados paliativos, à morte e ao luto, e na apresentação do @podcastfinitude.
Read 25 tweets

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