O plágio de "Mulheres", de Toninho Geraes e cantado por Martinho da Vila, encontrado na música "Million Years Ago", de Adele, me fez lembrar de outro caso internacional que envolveu uma música de Luiz Gonzaga e seu parceiro, Humberto Teixeira. Conto essa história neste #cordel.
Em 1951, a já consagrada cantora de jazz estadunidense Peggy Lee lançou um single com a música "Wandering Swallow" (algo como 'andorinha errante' em português). A autoria era atribuída a Harold Stevens e Irving Taylor.
Dê um tempinho aqui e escute a música, que está no YouTube e no Deezer e veja se você consegue perceber qual foi a canção do Rei do Baião que foi 'quibada' pelos compositores americanos.
Identificou? Vai aí mais uma dica, para não entregar de bandeja. A música original se mistura com um evento que marcou a biografia de Luiz Gonzaga. Quando morava em Exu, no Cariri Pernambucano, Gonzagão, ainda moleque, mas já sanfoneiro, era enamorado de uma moça chamada Nazinha.
Nazinha era filha de um sitiante mais abastado que não gostou de saber do enrosco da donzela com o filho de Januário, e foi tirar satisfação. A repreenda dos pais foi um dos motivos de Luiz ter fugido de casa para ganhar o mundo ao 17 anos de idade.
Nazinha, quando os dois estavam apaixonados, cravou o nome do casal no tronco de um pé de juá como prova do amor dos dois. Com a letra do genial Humberto Teixeira, a histórica ficou imortalizada no baião "Juazeiro", que fala de amor e saudade e que saiu em single em 1949.
Escute aqui a música original e me diga se "Wandering Swallow" não é um plágio descarado. Segundo relatos que encontrei, a música ainda teria sido plagiada uma outra vez em uma canção francesa chamada "Le Voyageur", mas essa eu não consegui localizar.
Bem, acontece que o cearense Humberto Teixeira, além de parceiro do Gonzagão, era também advogado. Ao descobrir o plágio, ameaçou processar a Capitol Records, que recuou e tirou a música de catálogo. Peggy Lee supostamente não sabia que era uma cópia quando gravou a música
Essa história tem, porém, um final feliz. Em 2002, o percussionista brasileiro @MRefosco juntou-se ao guitarrista Guilherme Monteiro e ao flautista e saxofonista Jorge Continentino, todos eles residentes nos EUA, para criar a banda Forró in the Dark.
Em seu maravilhoso álbum de estreia, "The Bonfires of São João", o Forró in The Dark incluiu uma linda versão de Wandering Swallow/Juazeiro na voz de Bebel Gilberto, em inglês e português, com a correta atribuição de autoria ao Rei e ao Doutor do Baião.
Nem todas as histórias de plágios de obras brasileiras são tão bem sucedidas. Por exemplo, Jorge Benjor não recebeu a grana de "Da Ya Think I'm Sexy" de Rod Stewart, cópia 'inconsciente' (sic) de "Taj Mahal" - apesar de ter sido feito um acordo.
aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/alman…
Na literatura também houve casos de 'roubartilhamentos' de obras brasileiras, como conta aqui neste cordel o @JoaoCezar1965, com conclusões não tão promissoras para os autores brasileiros.
Vale então a pena nós refletirmos um pouquinho sobre o colonialismo e suas ações sutis ou nem tanto. Não está na hora de criticarmos a ideia de o que vem de fora é sempre melhor do que é nacional? Sobre isso, aliás, não percam o último @GDuvivier News.
Estamos tão acostumados a sermos colocados em um patamar inferior que acabamos nós mesmos por plagiarmos umas brisas gringas muito tortas, como a desse cidadão, imitando um criminoso que invadiu o Capitólio, vestido de xamã norte-americano e protestando em inglês... no Brasil.🤮
Isso, claro, para o presidente golpista que ele apoia mostrar ser um grande de um FROUXO dois dias depois. Mas essa é uma história que fica pra gente ver mais para frente no que vai dar, assim como a briga de direitos autorais entre Adele e Toninho Geraes.
ATUALIZAÇÃO

O @iran_alchm conseguiu localizar a versão plagiada francesa de “Juazeiro”. A música se chama “La Voyageuse” (‘A Viajante’) e não “Le Voyageur” (‘O Viajante’. Muito obrigado, Iran!

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3 Sep
Atenção! Diante da provável falência do bolsonarismo, os rearranjos da extrema direita paulista ameaçam criminalizar ONGs e pessoas que realizam a redução de danos para pessoas que usam drogas. Siga o #cordel para entender e compartilhe para que mais pessoas saibam disso.👇🏽🧶
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2 Jul
Perdidos na minissérie de dramas políticos rocambolescos do governo Bolsonaro, adentramos em uma crise hídrica e elétrica sem nos darmos conta de que entre as causas está o desprezo que este governo tem pela floresta e pelas águas. Veja na #aulacordel porque isto é importante.
👇🏽
Para ilustrar o que vou falar, uso material da página de FB Água Sua Linda (facebook.com/aguasualinda), que está no Insta como Árvore💚Água (instagram.com/arvoreagua/).

Sigam-nos, os perfis são muito bons. Minha imagem favorita deles é esse GIF aqui.

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As causas da nossa crise hídrica têm a ver com o desmatamento (já vamos ver mais sobre isso), o aquecimento global, eventos climáticos como La Niña e El Niño e, claro, uma gestão inadequada e excludente dos recursos hídricos.

Fonte: facebook.com/aguasualinda/p…
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26 Jun
Eis que rolou um #GregNews que abordou o potencial terapêutico dos psicodélicos. Bora conversar em um #cordel sobre o episódio 12 da temporada 2021 do programa de jornalismo e humor de @GDuvivier na @HBO_Brasil? Siga aí.
Antes de tudo, vá lá e assista ao episódio. Só faz sentido você ler o que eu vou dizer aqui se já tiver assistido ao vídeo, que tem pouco mais de 25 minutos e se chama "PARE DE SOFRER" (sim, é isso mesmo, o bordão da Universal, e isso não é por acaso).
Pra começar, considero que a equipe fez uma costura muito boa na parte científica, algo que não é muito fácil em um programa curto, não dedicado à divulgação científica e que precisa ser engraçado.
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23 Jun
Não é cientificamente correto dizer 'o tratamento precoce não funciona'. Do ponto de vista científico, seria mais adequado afirmar 'não há evidências que apoiem o uso do tratamento precoce'. Sendo mais purista, o ideal seria ainda acrescentar 'em humanos' e 'até agora'. #cordel
Não, esse não é um sofisma negacionista. É o reconhecimento de que a Ciência não é absoluta, e que todo seu conhecimento é sujeito a refutação. Por mais que dê desespero ver o que os adeptos do mito da Terra Plana fazem com essa ideia, ainda assim, é preciso ter isso em mente.
Assim, é possível que evidenciem a eficácia para o suposto tratamento precoce para covid-19, no futuro, com drogas novas ou conhecidas? Claro que sim. Por ora, porém, essa evidência não existe, e é por ela que temos que nos pautar. Prescrever remédios não eficazes não é ético.
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25 May
A primeira vez que Mayra Pinheiro ganhou notoriedade nacional foi ao organizar, em ato do Sindicato dos Médicos do Estado do Ceará, uma vergonhosa vaia aos médicos cubanos que chegavam em Fortaleza em 2013. A foto de @jarbas_oliveira do ocorrido na @Folha ficou bem conhecida.
Mayra aparece logo ao lado do Médico Juan Duvergel, junto com o grupo de médicos que mandava os cubanos 'voltarem para a senzala'. Fiquei muito revoltado, com essa cena, e publiquei um artigo sobre o tema, à época, no Estadão.

estadao.com.br/noticias/geral…
Apesar do artigo já ter quase oito anos, o jornal da 'escolha muito difícil' ainda não o tirou do paywall, então leiam com o Outline. Já estava sendo chocado, àquela época, o ovo da serpente do fascismo médico, vertente hoje bem forte dentro da profissão.

outline.com/WDsZLH
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21 Apr
Por que fazer um projeto de pesquisa sobre escalas que medem experiências psicodélicas?

Se você já usou pelo menos um psicodélico na vida, por favor responda 👉🏽 bit.ly/pesquisapsicod…

Se conhece quem usou, compartilhe. Se quiser saber mais sobre o projeto, lá vai #aulacordel.
Primeiro, vamos falar da equipe. O projeto está ligado às pesquisas de doutorado da @BheatrixB do MograbiLab da PUC-Rio e da Isabel Wiessner do ICARO da Unicamp, com a colaboração do querido @DimitriDaldegan. Os orientadores dos doutorados somos o Daniel Mograbi e eu.
Por que estamos fazendo essa pesquisa?

Como muitos de vocês já sabem, estamos vivendo uma nova onda de pesquisas com substâncias psicodélicas como o LSD, a psilocibina (dos 'cogumelos mágicos') e a ayahuasca, nativa da Amazônia. É a chamada 'Renascença Psicodélica'.
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