Saí do trabalho e fui ao mercado. Voltei andando, cheio de sacolas.
Em casa, com preguiça, deixei as compras ainda ensacadas na mesa da sala e sentei no sofá para respirar.
Já era noite feita.
Minutos depois, ouvi como se alguém passasse as mãos pelas sacolas.
Sozinho em casa, tenso, não consegui me virar para ver, mas pensei:
"Deve ser o gato"
Logo depois, enquanto meus olhos ainda não tinham se acostumado com o breu, ouvi barulho de panelas caindo na cozinha.
Se não soubesse estar só em casa diria ter visitas - e não quis me levantar para ir averiguar.
Nervoso, pensei:
"deve ser o gato"
Logo depois ouvi um barulho vir das sombras da cozinha, como se um psiu delicado, quase sumido, como se a me chamar para a noite.
Mais uma vez não consegui me virar para ver, mas, amedrontado, pensei:
"certamente deve ser o gato"
Foi quando, da parede bem ao meu lado, ainda cercado pelo psiu que não parava e se tornava mais forte, vi surgir uma mão muito branca com unhas sujas de terra.
Tremendo, em pânico, encarei aquilo que se revelava e pedi.
"por favor, que seja o gato"
Neste momento, desolado, para meu absoluto horror, lembrei que eu não tinha gato.
Jamais tive.
Foi quando a sombra branca, dona da mão branca de unhas sujas, pulou em minha direção e assim morri.
Enfarto - disseram, quando meu corpo foi encontrado - provavelmente do esforço de vir andando do mercado.
Ao meu lado, um gato branco guardava meu falecimento.
Ps.: essa história foi inspirada num caso que a @marcellacanto me contou hoje.
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Hoje ouvi uma história que, a meu ver, representa perfeitamente o abismo existente entre classes sociais no Brasil - que só fica mais profundo.
A rodovia PA-475 começa em Abaetetuba e vai até Goianésia.
Na prática, é a rodovia que faz a ligação entre Belém e Tucuruí.
No meio dessa estrada existem diversos municípios, alguns maiores, como Abaetetuba, Moju, Tailândia, Tucuruí e Goianésia, e outros tão pobres que nem sei como o povo sobrevive.
É normal vermos pessoas esperando transporte na beira da PA-475 - seja pago, seja carona – e algumas pessoas sempre dão carona.
Dentre eles, o pai de uma advogada que trabalha comigo. Ele tem uma fazenda em Tailândia e sempre transita pela PA-475.
Conheci Diana em 97, em uma festa na casa de amigos em Manaus.
Tínhamos alguns poucos conhecidos em comum e acabamos rindo juntos, dançando a noite toda, nos beijando e, imediatamente, ficamos profundamente envolvidos.
A Diana era cearense, Tenente do Exército, e tinha acabado de chegar a Manaus, transferida por necessidade de serviço.
Como ela começava nova vida na cidade, acabamos ficando cada vez mais próximos e vivemos, de fato, momentos maravilhosos juntos.
Mas nem todos.
Teve um dia que Diana, já mais ambientada no local, já com alguns amigos pelo quartel, me convidou para um churrasco.
Seria na casa de um Major "gente fina", cara bacana mesmo, numa casa bonitinha dentro de área militar.
Como era de se esperar, sem ter nada contra, fomos.