Hoje ouvi uma história que, a meu ver, representa perfeitamente o abismo existente entre classes sociais no Brasil - que só fica mais profundo.

A rodovia PA-475 começa em Abaetetuba e vai até Goianésia. Foto da PA-475
Na prática, é a rodovia que faz a ligação entre Belém e Tucuruí.

No meio dessa estrada existem diversos municípios, alguns maiores, como Abaetetuba, Moju, Tailândia, Tucuruí e Goianésia, e outros tão pobres que nem sei como o povo sobrevive.
É normal vermos pessoas esperando transporte na beira da PA-475 - seja pago, seja carona – e algumas pessoas sempre dão carona.

Dentre eles, o pai de uma advogada que trabalha comigo. Ele tem uma fazenda em Tailândia e sempre transita pela PA-475.
Na última semana estava de picape com um funcionário quando viu dois homens num local ermo, debaixo do sol.

Parou - um homenzarrão branco parece gringo, de picape brilhante - abriu a janela e perguntou:

- Vão pra lá? - apontando para Tailândia. Pórtico de entrada de Tailândia
Ele diz que os homens se entreolharam, meio travados, mas que não disseram não.

- Então subam na boleia que levo vocês.

E os homens subiram.

Diz o pai da minha amiga que isso foi perto de Jupuuba, uma das localidades muito pobres.
Duas horas depois, 110 km percorridos, chegaram em Tailândia e o pai da minha amiga pediu ao funcionário para abrir a portinhola e perguntar aos homens onde desceriam.

- Senhores, onde vocês vão ficar?
Ao que o mais velho, muito pobre, muito humilde, rosto marcado de miséria, respondeu com outra pergunta, a voz extremamente envergonhada:

- Onde tamo?

- Em Tailândia.

E os dois homens, confusos, não entenderam nada.
Resumo é que os homens estavam parados na beira da estrada por nenhuma razão específica.

Não iam para lugar nenhum, muito menos para Tailândia.

O pai da minha amiga achou que queriam carona, ofereceu e, como não recusaram, concretizou o ato.
E homens, meus amigos?

Viram parar um fazendeiro brancos em uma picape reluzente, com a voz um pouco mais firme dando ordem para entrar na caçamba - então entraram na caçamba do veículo e foram embora.
Não argumentaram, não falaram, só obedeceram, pois é isso que fazem desde sempre.

Andaram na pretensa carona por 110 km, mas podiam ser 200, 300.

É o mesmo povo que é escravizado em fazendas e nós, privilegiados, não entendemos como “aceitam”.
Do nosso mundo é quase impossível olhar e entender o mundo de lá, beiras do abismo que só se distanciam.

O pai da minha amiga é um homem excelente.

Quando percebeu a mancada morreu de vergonha, pediu desculpas, foi almoçar com os dois e pediu que um carro os levasse de volta. Imagem de um abismo. De ambos os lados, nas beiras do abismo
Mas, num Brasil de abismos, em que o buraco só faz aumentar, movido por uma política de ódio e extermínio em que os mais pobres mais baixam a cabeça para poder sobreviver, faltam cada vez mais homens bons.
A tendência é um povo pobre, miserável, quase escravo, e contando assim, como me foi contado, o questionamento é:

Como não se negaram?

Como não falaram nada, não saíram correndo?
É um povo tão sofrido, amigos, acostumado a não questionar, a não falar, exatamente como é o povo sem estudo, sem saúde e educação; sem perspectiva.
E enquanto não conseguirmos enxergar o que é essa pobreza,

essa subserviência,

não conseguiremos entender a plenitude do mal do governo que só empobrece o povo,

em política de extermínio que começa pela própria incapacidade de se opor à voz de homens ruins.

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Eles sempre faziam aquele trajeto e, daquela vez demoraram o dia todo para conseguir a quantidade que precisavam.

Por volta das 18 horas resolveram parar, mas tinham um problema: por conta da maré, teriam que esperar até meia noite para poder voltar.
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Andando pelo interior do estado do Pará, já me hospedei em todo o tipo de hotel.

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Mas, dentre todos, nenhum me propiciou o que vivi em um hotel velho de Santarém.
Santarém teve uma época de muita riqueza, em que foram construídos hotéis gigantes e luxuosos, só que a maré mudou…

Da mesma forma que veio, o dinheiro foi embora e deixou plantado na cidade uns elefantes brancos bizarros.

Esse hotel, por exemplo, me lembrava muito O Iluminado
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9 Jul
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Na verdade, por muito tempo me achei absolutamente desprovido de qualquer tipo de coragem, amedrontado pelos cantos escuros de uma casa grande e pouco iluminada, repleta de barulhos que nunca foram bem explicados.
Acabei sendo corajoso quase sem querer, coragem baseada num pacto social silencioso e nunca escrito,  por conta dos medos do meu irmão, que eram muitos.
Meu irmão era uma criança amedrontada, que desligava luzes e corria para longe do escuro como se um monstro fosse emergir das sombras e acabar com sua vida.

De noite, ir ao banheiro era medonho; beber água era medonho; buscar algo na sala era medonho.

E eu também era assim.
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