Inimutaba era famosa por abrigar diversas indústrias têxteis.
Desde cedo minha mãe trabalhava numa delas, justamente para não conviver com toda a raiva que recebia das irmãs mais velhas.
Mas, quando eu nasci, não deu mais para ser assim.
Sozinha, minha mãe precisava de ajuda.
Eu tinha dois dias de nascido quando minha mãe voltou a morar na casa materna, onde moravam minhas três tias mais velhas e minha avó.
Era uma casa grande e velha, afastada de tudo, caindo aos pedaços, que não via reforma fazia tempo.
Não lembro - porque era recém-nascido - mas minha mãe lembra bem e sempre repete esse fato:
que minhas tias gritavam tanto de raiva, furiosas pelo retorno ao lar, agora, com um bebê, que minha mãe teve que dormir a primeira noite no pátio, quase ao relento.
Acontece que a vida tratou de deixar minhas tias amargas a quase ser difícil descrever.
Elas nunca casaram, não tinham filhos, não tinham uma vida, afastadas morando nas brenhas da cidade. Fora isso, foram abandonadas pelo pai muito cedo, tendo sido criadas por minha avó.
Então, elas eram ressentidas de tanta coisa, tinham tanta mágoa da vida, por isso não aceitaram que minha mãe voltasse para casa, ainda mais com uma criança saudável no colo.
Na cabeça delas, mesmo sozinha, minha mãe tinha mais do que elas e isso era inaceitável.
E quem mais sofria, no meio de tanta briga e grito, era minha avó.
Vovó sempre foi uma pessoa amável, apesar da pobreza e do abandono, do ódio das relações ao seu redor.
Não consigo imaginar o quanto ela sofria vendo as filhas vivendo aquele tormento.
A nossa volta, para ela, foi um alento.
Minha mãe era a filha mais nova e, agora, voltava com um neto. Se não fosse o amor da minha avó, que pela primeira vez teve que se impor contra as raivas das minhas tias, não sei o que teria sido de mim e de minha mãe.
Mas, apesar disso, não preciso dizer que a vida naquela casa logo se tornou um inferno.
Minhas tias diziam que eu era o diabo, que eu tinha vindo do inferno e que minha mãe era uma vagabunda, mãe solteira. Diziam que ela queria a casa só para ela, e eu era parte desse "plano"
A casa de minha avó já estava completamente ocupada pelas minhas três tias, mas minha avó arrumou um espaço para minha mãe e eu num cômodo sem uso, perto da cozinha.
Ali, em pouco tempo, com muito amor, minha mãe fez um lar onde eu era feliz, apesar de tudo.
Ali eu cresci, sempre protegido pelas pernas e rabo de saia da minha avó, que mantinha vigilância constante contra minhas tias, que, se me vissem sozinho, sempre eram capaz de maldades indizíveis.
Eram beliscões, tapas, esganaduras, coisas terríveis que me amedrontavam muito.
E minha mãe, coitada, trabalhava muito e não podia me proteger daquelas monstruosas.
Desde sempre eu lembro da minha mãe trabalhando muito, acordando de madrugada para ir à fábrica, chegando tarde da noite para comer e dormir.
Quando falava a ela as coisas que minhas tias faziam, das maldades diárias que sofria, e que não sofria mais por conta da minha avó, sempre de olho em tudo, minha mãe chorava e tinha ânsia de agredir, de socar, de matar e gritar, sempre sentimentos calados no peito.
Hoje imagino como devia ser horrível viver aquilo, saber de seu filho em risco, e não poder parar, pois o dinheiro era preciso num mundo em que não tínhamos ninguém.
Já disse que eram três tias, né?
Pois bem... duas delas vivam somente na amargura, satisfeitas com seus fundos do poço.
Mas, uma delas, era especialmente ruim, tia Saíla, a mais velha das 4 filhas.
Tinha um medo horrendo da tia Saíla, pois via a morte em seu olhar.
Nunca esqueço da vez em que, sem querer, me vi sozinho com ela, na cozinha.
Ao perceber a oportunidade, tia Saíla pegou uma faca enorme e andou em minha direção. Aterrorizado, eu corria ao redor da mesa, gritando, até que ela ela me encurralou em frente à porta.
Eu era pequeno, devia ter uns quatro anos e, nervoso, não conseguia abrir a maçaneta, que estava melada de óleo de cozinha e deslizava sem sair do local.
Lembro dela chegar perto, dos meu gritos, do meu medo, e lembro de mijar na calça de tanto pavor...
Achei que ia morrer.
Depois eu já estava no colo de minha avó, surgida não sei de onde, e que gritava com Saíla, sua filha, enquanto minhas outras tias riam de mim, completamente sujo e apavorado.
Como essa, houve várias outras situações.
Mas, nada tão assustador como o que agora vou contar...
A entrada do quarto onde dormíamos era pelo pátio externo, não passando por dentro da casa.
Minha mãe preferia assim, pois acabava ficando mais afastada das irmãs. Contudo, sempre havia medo de um assalto ou coisa do gênero, pois a porta da rua era a porta do quarto.
Minha mãe tinha tanto medo, que, sempre que íamos dormir, ela colocava uma cadeira e diversos objetos na frente da porta, como se fizesse uma barricada.
Qualquer barulho, qualquer sinal de presença no pátio, minha mãe já dava um pulo, amedrontada, me segurando no colo.
E foi assim naquela noite.
Ainda era cedo, acho que perto das onze da noite, e eu já sonhava pesado quando minha mãe me pegou no colo e se encontrou na porta.
Em silêncio, me pedindo silêncio, mamãe se pôs a ouvir.
Durante muito tempo só houve silêncio, mas, repentinamente, uma sombra passou pela janela.
Era um homem alto, e nada mais conseguimos ver além do brilho de uma faca.
Ao ver aquilo, minha mãe se meteu por baixo de uma mesinha, onde colocávamos a televisão, e começou a rezar.
Talvez o homem tenha percebido a movimentação, talvez tenhamos feito algum barulho, apesar de lembrar do silêncio, mas, em seguida, começamos a ouvir, baixinha, a voz grossa de um desconhecido, que perguntava, num tom assustador...
- Ele está aí?
Sabia que "ele" era eu, e também intuía o risco de tudo ao ouvir a voz macabra, seguida de um riso baixo e desconexo, como se fosse de um maluco.
Depois, enquanto seguia perguntando por mim, a boca bem grudada na madeira da porta, ouvimos também o som da faca na madeira.
E nada, nenhum aviso, nenhum pavor, seria capaz de nós preparar para o horror que veio em seguida...
Subitamente, o homem, ou o ser, que perguntava por mim, passou a esmurrar a porta, a dar chutes e socos como se fosse colocar a casa toda abaixo a qualquer momento.
Ao mesmo tempo ele gritava como se fosse um bicho, coisas que jamais esqueci:
- EU SEI QUE ESSE DIABO TÁ AÍ, ELE TEM QUE MORRER
E a porta balançando a cada chute, a cada soco.
Diante dos gritos, minha mãe também começou a gritar pedindo ajuda, mas ninguém parecia ouvir, como se estivéssemos sozinhos no mundo.
- ME DÁ ESSE MOLEQUE! EU TENHO ORDEM, EU TENHO QUE PEGAR ESSE DIABO
Enquanto minha mãe cobria minhas orelhas tentando que não ouvisse aquilo, mas era impossível, pois a cada pancada meu coração batia mais forte a quase sair do peito.
Minha mãe se enfiava cada vez mais fundo por baixo da mesa, tentando me proteger com seu corpo, no exato momento em que a porta cedeu pela primeira vez.
Como num passe de mágica, lembro da cadeira voando pelo meio do quarto e dos objetos da barricada caindo ao nosso redor.
Com nossos corpos grudados num abraço que seria o último, eu mal sentia que suávamos muito, que tremíamos muito e que chorávamos sem socorro.
Foi quando o homem acabou de abrir a porta, com um último chute, e entrou, e então eu o vi por completo.
Ele era alto, muito alto, e também muito magro.
No escuro eu só via a silhueta dele, não conseguia vislumbrar as roupas, mas eu vi o chapéu assustador que se destacava na escuridão.
Por um instante, como se nos farejasse, ele parou na entrada do quarto e ficou quieto.
Era como se ele fosse cego, o nariz fungando no meio do escuro, talvez buscando sentir o cheiro do nosso medo.
Por baixo da mesa, além de tampar meus ouvidos, desesperada, minha mãe também tentava tampar meus olhos e boca para que não visse o terro, para que não gritasse a morte
E, como se motivado pelo maior dos ódios possíveis, o homem avançou pelo quarto, fungando e grunhindo, e foi aí que aconteceu...
O homem armado com a faca, que perambulava pelo nosso quarto e fungava e rosnava, e que perguntava por mim em sussurros raivosos, simplesmente não nos viu.
Era como se fôssemos invisíveis...
Lembro estranhamente bem daquele momento.
Nós, abraçados, congelados, mal escondidos por baixo da mesa; e o homem revirando armários, a cama, tudo, me procurando, sem nos ver bem ali...
Foi estranha aquela sensação, como se não fôssemos reais, ou como se ele fosse um pesadelo.
Num ataque de raiva ele passou a rasgar roupas, a quebrar meus brinquedos.
Lembro bem dele jogar o uniforme da minha mãe no chão, de rasgar o crachá dela, até que se virou, sem nos ver, e saiu porta afora, rumo à escuridão.
Só conseguia torcer pelo fim do pesadelo, até que...
...acordamos...
Não lembro que horas eram, mas minha mãe diz que era perto de 3 da manhã.
Sem saber que tínhamos sonhado o mesmo sonho de morte, nos vimos assombrados nas sombras da madrugada.
Eu chorava muito, observado pelos olhos imensos de minha mãe.
Tinha sido um sonho horrendo, nada mais do que isso, mesmo que sonhado por nós dois.
E assim ficamos, sem conseguir dormir, sem poder relaxar, até que o despertador bateu 5:30, hora de minha mãe acordar para ir à fábrica.
Minha mãe se vestiu rapidamente, enquanto eu observava a luz da manhã entrando pelos buracos do teto, como se as sombras fossem pequenos diabos que me assombravam.
Até que, já vestida, vi minha mãe se desesperar, como se procurassem algo.
Inconscientemente, ouvi minha mãe resmungar "meu crachá, meu crachá", enquanto remexia pelos cantos, procurava entre papeis e roupas, sem encontrar o crachá.
Sonolento, vi minha mãe abrir a porta:
- Fique aqui, vou lá dentro procurar meu crachá.
E eu fiquei, no quarto ainda escuro, a luz do sol que nascia lenta, o mesmo quarto onde quase tínhamos morrido fazia pouco.
Não senti medo de cara... mas, aos poucos, enquanto as sombras pareciam dançar pelos cantos, foi me batendo um desespero gigantesco, então eu vi.
Surgindo lento, se materializando aos poucos, uma figura de morte foi saindo das sombras segurando um riso assustador na sua face cadavérica.
Antes que pudesse gritar, que pudesse pedir socorro, aquele ser deu um pulo em minha direção e senti a lâmina entrar na minha carne.
Eu devo ter gritado, porque logo em seguida vi minha avó e minha mãe entrando no quarto, desesperadas, como se já esperassem o pior.
Eu chorava, me debatia sem fim.
Foi minha avó quem me pegou no colo, enquanto minha mão olhava assombrada para a cama, onde eu estava deitado...
...porque, no exato local onde eu estava deitado, também estava o crachá de minha mãe, rasgado exatamente como fora rasgado pelo ser em nossos sonhos.
Essa história foi baseada no relato que o @luanourafael me mandou por DM, especialmente para o #Tantoim 2021.
A casa ainda está lá, no mesmo local, inabitada, talvez por tanta raiva que passava diariamente por seus corredores.
Contudo, o Luan e sua mãe se livraram dessa sina e vivem felizes seus destinos. Contudo, as lembranças ainda existem e, vez ou outro, ainda perseguem.
Aqui, uma foto do Luan e da sua avó querida, na casa de Inimutaba.
Agora, deixa contar uma novidade.
Semana que vem, dias 04 e 05 de novembro, vou ser host numa viagem incrível pela Belém Assombrada, viagem oferecida na plataforma da Além.
Vão ser dois dias de muito local assombrado de Belém.
Então, se você gosta de viajar e de visagem, se tem vontade de conhecer um pouco mais sobre Belém, dá um pulo no site da Além e garante logo tua vaga nessa experiência fabulosa.