Chegando lá, cumprimentamos alguns parentes que estavam fora da capela, mas me recusei a entrar e chegar perto do caixão.
Nem conhecia o morto, então, não quis ter aquela imagem.
Preferi ficar lá fora mesmo, apesar de a vista também não ser das mais agradáveis.
Acontece que a capela ficava no meio do cemitério...
Entre ficar olhando os túmulos e cruzes, ou encarar o morto no caixão, nem tinha dúvidas do que era melhor.
E meu amigo também não demorou. Uns 10 minutos depois veio se juntar a mim, sentados numa mureta.
Não demorou muito, outras pessoas foram se aproximando, chegando perto, naquela roda de conversa, piadas e lembranças que só surgem em velório de família.
Só que, certa hora, o assunto morreu e ficamos lá, nos entreolhando, esperando o tempo passar.
E quando o sono já começava a bater forte, surgiu um senhor muito simpático que começou uma prosa boa conosco.
Subitamente, o ânimo do grupo renasceu e estávamos prontos para mais dois velórios, se fosse necessário.
E conversamos sobre política, futebol, sobre a cidade e seus problemas, sobre o inusitado de estarmos ali, no meio da madrugada, quase todos estranhos, nos fazendo companhia naquele momento difícil.
Em grande parte, o motor da conversa era aquele senhor chegado fazia pouco.
Lá perto das 3 da manhã ele perguntou se alguém fumava, e como todos negamos, pediu licença e disse que iria ao carro buscar o maço de cigarros, mas que não demoraria.
Ele foi, não voltou, e logo não lembrávamos mais dele.
Devia ter se cansado e ido embora.
E nós também começamos a nos desfazer, a nos despedir, porque a espera era longa e precisávamos estar firmes para o enterro, no dia seguinte.
Fomos para casa, combinando voltar pela manhã, perto das 7 horas, e assim fizemos.
Já com o dia claro, o cemitério não parecia tão assustador quanto na noite anterior.
Não demorou muito o mesmo grupo da madrugada voltou a se formar, e nova conversa se formou, até que fomos interrompidos por um rapaz que, muito humildemente, falou...
- Vocês poderiam me ajudar? Sei que é chato, mas to sozinho e não dou conta desse caixão.
Era um funcionário da funerária, que, por qualquer razão, tentava, sozinho, tirar uma grande urna do carro funerário para colocar na mesa.
Eu não fui.
Expliquei que morro de medo de mortos, de caixões e de tudo relacionado, mas os rapazes que estavam comigo foram, inclusive meu bom amigo, o André.
Ajudaram o rapaz com o caixão e seguiram empurrando rumo à capela, até que pude ouvir.
Como se desesperados, ouvi gritos vindo de dentro, seguidos de palavrões contidos e rezas altas.
André, meu amigo, foi o primeiro a sair, com os olhos esbugalhados e branco, como se tivesse visto a morte.
Sem falar nada, ele se colocou à minha frente e começou a balbuciar.
- Luiz, pelo amor de Deus... você guardou a fisionomia daquele senhor que veio conversar conosco ontem de noite?
Respondi que não tinha guardado detalhes, mas lembrava da roupa, uma camisa amarela com listras pretas, uma calça de brim cinza, mas só isso.
Sem conseguir falar mais nada, André começou a me puxar pelo braço, pedindo "vem comigo, vem comigo", enquanto segurava o choro.
E eu, apesar de tudo, fui, sem imaginar o que viria...
E, sim...
Quando entrei na capela que ainda estava vazia, pois o velório não havia começado, fui levado docilmente em direção ao caixão que, fazia pouco, havia sido tirado do carro fúnebre com ajuda de meus companheiros, e ele estava lá.
Deitado no caixão, branco como se fosse de cera, com algodão nas narinas e cercado de flores, estava o mesmo velho que havia conversado conosco na noite anterior, quando já estava morto fazia tempo.
Na hora eu passei mal, tive uma queda de pressão e desmaie.
E já acordei do lado de fora, sendo abanado, cercado pelos rapazes que tinham feito companhia na madrugada anterior, também visitados pelo velho morto que, agora, jazia no caixão, bem ao nosso lado.
Fim
Esse relato, simples, me chamou a atenção pelo pavor com o qual me foi contado.
Quem viveu isso, faz muito pouco tempo, foi o @LCNCLuizClaudio. Ele e seus amigos, inclusive, não conseguiram superar o fato.
Vários deles já procuraram ajuda profissional, mas não é simples...
Aqui, um pouco do pavor que senti, junto com ele, ao ler e ouvir o relato.
Por hoje é só, pessoal.
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Eu tinha batalhado muito para passar no concurso da polícia civil, um dos sonhos da minha vida.
Logo depois da posse, muito novo, fui lotado como escrivão na delegacia de Polícia de Abaetetuba, uma cidade que fica perto da Belém, muito bonita, por sinal.
Viver em Abaetetuba, para mim, era um sonho.
Rapidinho eu estava em Belém, junto da minha família, o povo era híper hospitaleiro e a cidade era realmente muito bonita, cheia de coisa bonita pra fazer.
Mas, naquele sonho, só havia um pesadelo...
É que o prédio onde funcionava a delegacia era muito antigo, quase centenário.
Ali já havia sido tudo: olaria, hospital, prisão, escola e, por fim, delegacia, numa sucessão de adaptações que tornavam o prédio um grande franknsteisn.