Eu tinha batalhado muito para passar no concurso da polícia civil, um dos sonhos da minha vida.

Logo depois da posse, muito novo, fui lotado como escrivão na delegacia de Polícia de Abaetetuba, uma cidade que fica perto da Belém, muito bonita, por sinal. Foto das celas de uma prisão
Viver em Abaetetuba, para mim, era um sonho.

Rapidinho eu estava em Belém, junto da minha família, o povo era híper hospitaleiro e a cidade era realmente muito bonita, cheia de coisa bonita pra fazer.

Mas, naquele sonho, só havia um pesadelo... Pórtico de entrada de Abaetetuba.
É que o prédio onde funcionava a delegacia era muito antigo, quase centenário.

Ali já havia sido tudo: olaria, hospital, prisão, escola e, por fim, delegacia, numa sucessão de adaptações que tornavam o prédio um grande franknsteisn.
E era medonho trabalhar ali, sabe?

Principalmente nos turnos da noite, em que sempre parecia haver olhos escondidos nas sobras, nos vigiando a cada passo.

E havia histórias muito conhecidas, que assombravam os policiais mais experientes. Foto de olhos brancos, com linhas vermelhas, que olham assus
Determinada noite, em que a delegacia estava hiper deserta, pois vários homens tinham sido destacados para ajudar numa confusão em Barcarena, cidade próxima, eu me vi absolutamente só na delegacia de Abaetetuba.

O plantão tinha sido tranquilo, sem ocorrências, até que...
... já por volta de 1:00, 1:30, quando preparava para fechar o prédio, duas sobras assustadoras entraram pela minha sala, quase me matando de medo e pânico.
Depois de um breve segundo em que minh'alma saiu do corpo, me deparei com uma senhora idosa, muito velhinha, completamente enrugada, que chorava copiosamente e quase não poder falar.

Assim que ela entrou, que me levantei para ampará-la, percebi que um rapaz fazia companhia a ela
Depois de muito pedir que se acalmasse, que me contasse o que havia acontecido, a mulher foi tomando fôlego, respirando ao tropegamente, mas, aos poucos, foi falando.

Em resumo

"Ela tinha sido informada que o filho sofrera um acidente e estava morto"
"Que vizinhos haviam visto o corpo estendido no asfalto de uma das estradinhas na periferia de Abaetetuba, e que tinha certeza de que era ele, o filho amado. E ela queria que investigássemos, que registrássemos ocorrência ou fizéssemos qualquer coisa."

A rapaz permaneceu calado.
Muito a contragosto, pois não via a hora de chegar em casa e dormir, me vi tocado pelo choro convulsivo daquela mulher e resolvi abrir o Cartório para tentar ajudar aquela mãe que sofria.

Novamente, a velhinha foi acompanhada pelo rapaz calado e distante.
Comecei a fazer os procedimentos.

Registrei o desaparecimento e o fato, de que havia ocorrido um provável acidente. Pedi a identificação do pretenso falecido, assim como fotos, e ela me deu.

Ao olha as fotos, um horror percorreu minha espinha...
Acontece que o rapaz das fotos era cópia quase exata do rapaz que acompanhava a velha senhora.

Assustado, meio que sem reação, tentei racionalizar que devia ser um primo, um irmão, e era também notável a semelhando dos dois rapazes com a velha.

"Genética, pensei" foto de velas cercadas pelo escuro.
E depois de fazer todos os registros, com a velha que não parava de chorar na minha frente, como sentisse uma dor alucinante, resolvi tomar a última atitude que me cabia.

Liguei ao IML.
Não demorou muito, descobri que sim, havia um corpo no local, recém chegado, que batia com todas as características que falei.

Como estava sem identificação, ficaria lá, nas gavetas, até que alguém da família pudesse iniciar as providências do velório e enterro.
Muito tato... muito tato mesmo, para informar a uma mãe que seu filho estava realmente morto.

Talvez, até que houvesse certeza plena, aquela mulher, aquele irmão, ainda guardassem qualquer esperança de encontrá-lo ferido, mas vivo.

Não seria aquele o resultado da noite.
"Dona Fulana... não sei como lhe informar isso, mas, infelizmente, há um corpo no IML local que bate com todas as características do seu filho. Como a senhora me descreveu, parece ter sido acidente de moto"

E não estava preparado para o que aconteceu em seguida.
Porque, da velha mulher, encarquilhada pelo tempo, já esperava um escândalo maior do que todos, a certeza que mata a alma e faz dor insuportável.

Acontece que, pela primeira vez, o irmão também começou a chorar, a se jogar no chão dizendo que não era possível.
Agora eram dois chorando de forma compulsiva, situação difícil de controlar somente por mim, sozinho naquela delegacia, já em fim de plantão, tendo que lidar com uma das situações mais difíceis da minha profissão:

Avisar sobre a morte. Foto da morte num campo nublado, em que só se destaca seu v
Foram longos minutos em que a velha senhora chorava e gritava, em que o irmão urrava de dor, tal qual bicho ferido, mas, por fim, consegui convencê-los a me acompanhar até o IML.

E, por precaução, pedi o telefone de outros parentes, pois seria difícil ampará-los sem ajuda.
Foi o rapaz quem me deu o telefone de uma irmã e do cunhado, para que ligasse a eles, que logo iriam lá ajudar e dar prosseguimento nos trâmites de liberação do corpo.

Por fim, convidei os dois para irem comigo na viatura, o que negaram, pois tinham transporte.
Combinamos de nos encontrar lá logo em seguida, a distância era pouca.

Em cinco minutos entrei no pátio do IML e fui recebido pelo médico de plantão.

- E aí, Tanto. Noite difícil?

- Porra, mano... dar notícia de morte para parente é o pior da profissão. Detesto.
- E como eles estão?

- Arrasados. A velhinha só faz chorar, tenho medo até dela ter um troço. Rapaz, acho que irmão, estava se fazendo de forte, mas assim que confirmei a morte ele desabou. Logo mais eles devem chegar.

- Então bora entrar, esperar lá dentro.
E ficamos lá, na sala da recepção, esperando, por 5, 10, 20 minutos.

Bizarro que demorassem tanto, porque o IML ficava muito perto da delegacia.

Mais 25 minutos, 30, e me toquei que não tinha anotado o contato da velha, nem do filho, mas tinha o número da irmã.

Resolvi ligar.
- Boa noite, é a dona Jussara?

- Sim, quem fala?

- Dona Jussara, aqui quem fala é o escrivão Tanto, da Delegacia de Abaetetuba.

- Pois não...

- Olha, eu preciso que a senhora compareça com urgência aqui no IML de Abaetetuba, o quanto antes, um assunto de seu interesse.
E a mulher, evidentemente assustada, disse que chegariam em cinco minutos, e assim, fez, acompanhada do irmão e de dois filhos.

Muito abalada, já entendendo a desgraça que se seguiria, foi informada sobre a possível morte de seu irmão, decorrente de acidente de moto.
Ela segurou o choro, se fez de forte, pediu a deus para que fosse um grande engano, ao final, mas entrou, confiante, acompanhando a mim e ao médico legista.

Ao seu lado, o marido lhe dava suporte, e assim nos deparamos com as terríveis gavetas que só guardam dor. gavetas de um necrotério.
- Eu posso abrir?

- Sim, por favor.

E, num movimento seco e deslizante, surgiu diante de nós o corpo frio e nu, cheio de feridas e hematomas, de uma rapaz novo.

A irmã, imediatamente virou o rosto e começou a chorar, murmurando que sim, era ele, seu irmão...

E eu?
Bem...

Eu mal pude me segurar em pé, a cabeça de girava como se num sonho estranho, inexplicável, pois eu via, diante de mim, não alguém parecido, mas, O EXATO RAPAZ QUE ESTIVERA COMIGO NA DELEGACIA, acompanhando sua mãe no registro de ocorrência.
Era o mesmo rapaz, mesma estatura, marcas, cabelo e bigode, cicatriz, TUDO.

A piorar meu horror, ao lado do corpo estava os farrapos que ele vestia quando do acidente, e eram as mesmas roupas que o rapaz usara quando na delegacia.

Nas hora, não pude mais e vomitei.
Saindo da sala, passado o susto, todos tínhamos nossos questionamentos.

- Dr. como o senhor sabia que era meu irmão se ele estava sem identificação?

- Porque sua mãe estava na delegacia, já no final do expediente, e me informou da possível morte do filho.
- Minha mãe, doutor?

- Sim, dona Oscarina, bem velhinha. Estiveram lá ela e, eu achava, seu irmão... ela me informou de tudo, pediu providências e me deu seu telefone. Sua mãe deve chegar a qualquer momento, inclusive, marcamos aqui...

A isso, recebi só silêncio e espanto.
- Doutor, com todo o respeito, mas minha mãe morreu já faz tempo... Impossível essa história.

- MAS ELA NÃO SE CHAMA OSCARINA?

- Sim

E passei a descrever a idosa, mostrei até a cópia do documento que ela me entregou, mas a resposta era sempre a mesma.

Morta.
Essa foi a história de quando atendi um morto, que ainda não sabia da sua morte, e sua mãe, morta fazia tempo, que buscava luz e descanso ao filho, tido como indigente numa gaveta fria do necrotério de Abaetetuba.

Demorei muito para me recuperar daquilo.
Principalmente porque, conversando com flanelinhas que faziam ponto na frente da delegacia, me juraram de pés juntos que, naquela noite, ninguém chegou ali, muito mais uma velha e um jovem.

E que sai sozinho ao necrotério, para revelar aos vivos os mistérios da morte.

Fim A morte como passageira em um ônibus.
Essa história me foi contada pela queridíssima @raissasarquis, e é relato da sua mãe, que durante anos passou por diversas delegacias assombradas pelo interior do estado do Pará.

De onde saiu essa, há mais, que logo em breve conto a vocês.
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3 Nov
Faz pouco tempo, tive que acompanhar um amigo meu numa missão inglória: o velório de um parente distante dele.

Apesar de detestar tudo que se relaciona à morte, não pude dizer não e, assim, seguimos à capela onde acontecia a despedida.

#tantoim
Chegando lá, cumprimentamos alguns parentes que estavam fora da capela, mas me recusei a entrar e chegar perto do caixão.

Nem conhecia o morto, então, não quis ter aquela imagem.

Preferi ficar lá fora mesmo, apesar de a vista também não ser das mais agradáveis.
Acontece que a capela ficava no meio do cemitério...

Entre ficar olhando os túmulos e cruzes, ou encarar o morto no caixão, nem tinha dúvidas do que era melhor.

E meu amigo também não demorou. Uns 10 minutos depois veio se juntar a mim, sentados numa mureta.
Read 19 tweets
2 Nov
Família é algo maravilhoso porque pode ser o que quisermos - desde que haja amor.

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#publi #meuDNAdiz #AFamiliaAddams2 Foto de nossa família toda....
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#publi #meuDNAdiz #AFamiliaAddams2 Uma foto parecida com a de ...
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bit.ly/meudna-tanto

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29 Oct
Quando minha mãe descobriu estar grávida, primeira coisa que fez foi contar a meu pai, que tratou de sumir no mundo sem deixar rastros.

Minha mãe, vinda de uma família cheia de ódios, se viu sozinha, e assim eu nasci, na pequena Inimutaba, Minas Gerais.

#Tantoim Foto da igreja matriz de Inimutaba.
Inimutaba era famosa por abrigar diversas indústrias têxteis.

Desde cedo minha mãe trabalhava numa delas, justamente para não conviver com toda a raiva que recebia das irmãs mais velhas.

Mas, quando eu nasci, não deu mais para ser assim.

Sozinha, minha mãe precisava de ajuda. Foto das antigas fábricas da Inimutaba
Eu tinha dois dias de nascido quando minha mãe voltou a morar na casa materna, onde moravam minhas três tias mais velhas e minha avó.

Era uma casa grande e velha, afastada de tudo, caindo aos pedaços, que não via reforma fazia tempo. Imagem de uma casa velha de Inimutaba
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27 Oct
Universidade privada de Belém vai fazer jornada jurídica.

Entre os trabalhos aprovados, um, tenebroso, tenta mostrar a pretensa inconstitucionalidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

O texto é um amontoado de bla bla bla-religioso sem sentido.
As manifestações de revolta foram contundentes e certeira, sempre mostrando o absurdo que era aquilo.

Em pouco tempo foram tantas críticas, com centenas de comentários nas redes sociais, que a Universidade voltou atrás.
Com o trabalho retirado de pauta surge a velha lenga lenga de sempre:

o trabalho é de responsabilidade dos acadêmicos, não concordamos com homofobia.

Como disse Popper, quanto mais tolerante a sociedade é com intolerantes, mais intolerante é a sociedade.
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21 Oct
Fio de criança sem noção: o fio
A centopeia fazendo cuuper
Aí até perdi meu pano
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14 Oct
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Por essa convivência muito próxima, ele tem muito contato com filmes, brinquedos e coisas delas.

Também por isso, Vicente adora a Frozen e tudo relacionado a ela.
Recorrentemente Vicente pede para assistir Frozen e Frozen II, dois de seus filmes preferidos.

E, mais recentemente, ele descobriu que cabe numa fantasia da Anna, que já foi da Íris.

Ele não sabe que aquilo é um vestido, ou que deveria ser de menina.
Ele só sabe que é algo que remete ao universo dele, tanto quanto a fantasia do Capitão América ou a mascara do Batman.

Sim, Vicente também adora se vestir de Capitão América e de Batman, brincar de herói e fingir briga comigo.

Helói, ele diz.
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