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A humanidade não sairá a mesma depois desta crise

Rudimentos da nova ciência das redes para pensar a pandemia

Siga o fio.
O vírus SARS-Cov-2 é uma representação de qualquer-outro desconhecido e imprevisível que não consegue ser recepcionado e acoplado estruturalmente às nossas redes biológicas (os corpos vivos humanos).
Ele prejudica o funcionamento de corpos humanos a não ser enquanto não dá conta de "conversar" com a holarquia fractal de seres interdependente que constitui esses corpos.
Já a doença propriamente dita, a pandemia, tem a ver com as redes sociais (não com as mídias sociais e sim com as configurações móveis no espaço-tempo dos fluxos que as pessoas conformam na sua interação).
Uma epidemia é um fenômeno de rede, uma fenomenologia que, em grande parte, ainda desconhecemos. Por exemplo, não conhecemos as condições que possibilitam e acelerem a chamada herd immunity (que é função de herding, uma espécie de flocking ou swarming) (ver nota 1).
A imunidade social não é a soma das imunidades biológicas de corpos de indivíduos humanos. Quem não entende isso não pode entender os mecanismos de rede que atuam nos fenômenos epidemiológicos.
É neste campo que mudanças profundas estão em curso neste momento. Em condições de isolamento extremas, tudo muda (aliás, o velho Darwin já tinha percebido isso).
Configurações tipicamente humanas, no espaço-tempo dos fluxos, estão sendo alteradas. Uma redução brusca e muito grande da interatividade altera não apenas o comportamento coletivo, mas a natureza do que chamamos de sociedade humana (ver nota 2).
Não se sabe ainda a extensão e a profundidade das alterações que estão ocorrendo no espaço-tempo dos fluxos.
A pandemia atual, pelas mudanças sociais que está impondo, não é uma repetição de outras epidemias ou pandemias, como as várias síndromes gripais, e. g., a atribuída ao H1N1.
Nunca houve tamanha mudança em comportamentos coletivos, nem na chamada Gripe Espanhola (vírus Influenza A) ou na Peste Negra (bactéria Yersinia pestis).
Não é a taxa de mortalidade que deve nos assustar e sim as alterações não-sistêmicas das configurações sociais que uma epidemia impõe aos Estados e às sociedades para impedir ou reduzir a velocidade de propagação do agente patogênico.
A solução pelo controle exógeno - inevitável nas condições atuais do SARS-Cov-2, dado nosso desconhecimento - cria também outros problemas desconhecidos na estrutura e na dinâmica da sociedade humana.
Notas

(1) Em geral os médicos, mesmo os epidemiologistas, não dominam suficientemente a nova ciência das redes para entender o problema.
Físicos que trabalham com aplicações da teoria de redes na propagação de doenças, como Alessandro Vespignani - professor de física, ciências da computação e ciências da saúde da Universidade Sternberg da Northeastern University - estão mais preparados para enfrentar a questão.
A medicina comum ainda trabalha na base do empirismo estatístico, da tentativa e erro sofisticada pela construção de modelos matemáticos de propagação. Mas a matemática aqui entra como um recurso, um instrumento, não como um campo de revelação de alterações topológicas.
(2) A internet está servindo, por enquanto, de instrumento de comunicação, mas as redes sociais não são a internet e não podem ser substituídas por ela (as redes são pessoas, não ferramentas).
Imagine-se o que aconteceria se, numa circunstância como a atual, a internet caísse. Retrogradaríamos vários séculos, indo parar em algum lugar distante no passado.
Se as restrições de interação (ou o isolamento) continuar por muito tempo veremos surgir novas formas de solidariedade humana (digo isto porque sou um apostador inveterado na humanidade), mas também veremos o refúgio em religiões e o descambamento para fundamentalismos laicos.
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