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Thread com alguns trechos de "A Peste" de Albert Camus. Li diversos artigos falando sobre os paralelos com a situação de hoje, mas senti falta de um compilado de trechos na íntegra que alimentem a possibilidade de comparação + direta entre texto original e contexto atual. Pois:
1- O diretor do hotel não consegue falar de outra coisa. Mas é também porque se sente envergonhado. Descobrir ratos no elevador de um hotel respeitável parece-lhe inconcebível. (...)
1- (...) Para consolá-lo disse-lhe: 'Mas acontece o mesmo a todos!’. ’Justamente’, respondeu-me, ’somos agora como todos os outros.’
2- "Fiz uma parte da minha carreira na China e vi alguns casos em Paris, há uns vinte anos. Simplesmente, não se teve a coragem de lhe dar um nome. A opinião pública é sagrada: nada de pânico. Sobretudo, nada de pânico."
3- A palavra ”peste” acabava de ser pronunciada pela primeira vez. (...) Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas.
3-(...) Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ”Não vai durar muito,seria idiota”. E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o q não a impede de durar. A tolice insiste sempre e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. (...)
3- (...) Nossos concidadãos, a esse respeito, eram como todo mundo: pensavam em si próprios. Pensavam que tudo ainda era possível para eles: continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. (...)
3- (...) Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos.
4- Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação.
5- O doutor abriu a janela e de uma oficina próxima vinha o silvo rápido e contínuo de uma serra mecânica. Estava ali a certeza, no trabalho diário. O resto se prendia a fios, a movimentos insignificantes. Para que pensar nisso? O essencial era cumprir o dever.
6-
- Diga-me, sinceramente, o seu pensamento: tem certeza de que é a peste? - O problema está mal colocado. Não é uma questão de vocabulário, é uma questão de tempo.
7- Assim é, por exemplo, que, a partir das primeiras semanas, um sentimento tão individual quanto o da separação de um ente querido se tornou, subitamente, o de todo um povo e, juntamente com o medo, o principal sofrimento deste longo tempo de exílio.
8- Pode dizer-se que essa invasão brutal da doença teve, como primeiro efeito, o de obrigar nossos concidadãos a agir como se não tivessem sentimentos individuais.
9-As comunicações telefônicas interurbanas, autorizadas a princípio,provocaram tal congestionamento nas cabines públicas e nas linhas,q foram totalmente suspensas durante alguns dias e, depois,estritamente limitadas aos chamados casos urgentes, como morte,nascimento e casamento.
9- (...) Os telegramas tornaram-se, então, nosso único recurso. Seres ligados pela inteligência, pelo coração e pela carne ficaram reduzidos a procurar os sinais dessa comunhão antiga nas maiúsculas de um telegrama de dez palavras. (...)
9- (...) E como, na realidade, as fórmulas que se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa, longas vidas em comum ou paixões dolorosas resumiram-se rapidamente numa troca periódica de fórmulas feitas como ”Estou bem. Penso em ti. Saudades”.
10a-A partir de então, nos reintegrávamos, afinal, à nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos ao nosso passado e, ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo renunciava, ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos q nela confiam(...)
10b- (...) Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. (...)
10c- (...) Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada.
11a- Nossos concidadãos tinham dificuldade em compreender o que lhes acontecia. Havia os sentimentos comuns, como a separação ou o medo, mas continuavam a colocar em primeiro plano as preocupações pessoais. Ninguém aceitara ainda verdadeiramente a doença (...)
11b-A maioria era sobretudo sensível ao q perturbava seus hábitos ou atingia seus interesses. Impacientavam-se, irritavam-se e esses ñ são sentimentos q se possam contrapor à peste. A 1a reação era culpar as autoridades. ”Ñ se poderiam propor medidas + flexíveis q as adotadas?”
12a- O anúncio de que a 3a semana de peste somava 302 mortos não falava à imaginação. Por um lado, talvez nem todos tivessem morrido de peste. Por outro lado, ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam por semana em tempos normais. (...)
12b- A cidade tinha 200 mil habitantes. Ignorava-se se essa proporção de óbitos era normal. Foi só com o tempo, ao constatar o aumento das mortes, q a opinião pública tomou consciência da verdade. A 5a semana deu 321 mortos e a 6a, 345. O aumento, pelo menos, era eloquente. (...)
12c- Mas não era bastante forte para impedir que nossos concidadãos, em meio à sua inquietação, tivessem a impressão de que se tratava de um acidente, sem dúvida desagradável, mas, apesar de tudo, temporário. Continuavam assim a circular nas ruas e a sentar-se às mesas dos cafés.
13- Bebia-se muito. Como um café anunciou q ”quem vinho bebe, mata a febre”, a ideia, já natural no público, d q o álcool evitava doenças infecciosas reforçou-se na opinião geral. Todas as noites um número considerável de bêbados enchia as ruas, espalhando afirmações otimistas.
14- As pessoas cansam-se da piedade quando ela é inútil.
15- Em todo caso, é verdade que o descontentamento não cessava de aumentar, que nossas autoridades tinham receado o pior e estudado muito a sério medidas a serem tomadas no caso de essa população, mantida sob o flagelo, ser levada à revolta.
16- Evocava ainda os aspectos patéticos ou espetaculares da epidemia. Ele anotava que as pastilhas mentoladas tinham desaparecido das farmácias, pois muitas pessoas as chupavam para se prevenir contra um contágio eventual.
17a- Os bondes tornaram-se o único meio de transporte e avançam com grande dificuldade, os estribos sobrecarregados. Coisa curiosa, no entanto: todos os ocupantes, na medida do possível, voltam as costas aos outros para evitar um contágio mútuo. (...)
17b- Nas paradas, o bonde despeja uma carga de homens e de mulheres cheios de pressa de se afastarem e de se isolarem. Frequentemente, ocorrem cenas devidas apenas ao mau humor, que se torna crônico.
18a- "Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala." (Dr. Rieux) (...)
18b-
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas suas vitórias serão sempre efêmeras; mais nada.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o q essa peste significa para o senhor (...)
18c-
- É verdade - tornou Rieux. - Uma interminável derrota.
(...) Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou:
- Quem lhe ensinou tudo isso, doutor? A resposta veio imediatamente.
- A miséria.
19a- Ao dar demasiada importância às belas ações, se presta uma homenagem indireta e poderosa ao mal. Pois, nesse caso, se estaria supondo q essas belas ações só valem tanto por serem raras e q a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas ações dos homens
19b- O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus e, na verdade, a questão não é essa. (...)
19c- Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então, a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.
20- A pompa fúnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da família e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora.
21a- [a peste] desorganizou a vida econômica e suscitou assim um número considerável de desempregados. Na maior parte dos casos, estes não permitiam recrutamento para os técnicos, mas os trabalhos grosseiros encontraram-se extremamente facilitados. (...)
21b-(...) A partir desse momento, na realidade, a miséria mostrou-se mais forte que o medo, tanto mais que o trabalho era pago na proporção dos riscos. Os serviços sanitários puderam dispor de uma lista de pretendentes e, logo que havia uma vaga, avisavam-se os primeiros da lista
22- Nada é menos espetacular que um flagelo e, pela sua própria duração, as grandes desgraças são monótonas. Na lembrança dos sobreviventes, os dias terríveis da peste não surgem como grandes chamas intermináveis e cruéis e sim como um interminável tropel que tudo esmaga.
23- A peste nada tinha a ver com as grandes imagens exaltadas que tinham perseguido o Dr. Rieux no princípio da epidemia. Ela era, em primeiro lugar, uma administração prudente e impecável de bom funcionamento.
24- Sem memórias e sem esperança, os separados se instalavam no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.
25a- Seu papel já não era o de curar. Seu papel era diagnosticar. Descobrir, ver, descrever, registrar, depois condenar,essa era sua tarefa. Esposas agarravam-lhe as mãos e gritavam:”Doutor, salve-o”. Mas ele não estava ali para salvar a vida, estava ali para ordenar o isolamento
25b-”O senhor não tem coração”,disseram. Sim, ele tinha um coração. Servia-lhe p/ suportar as 20h por dia em q via morrer homens q haviam sido feitos p/ viver. Servia-lhe p/ recomeçar todos os dias. Agora,o coração mal dava p/ isso. Como esse coração seria suficiente p/ dar vida?
26a- Mas o efeito mais perigoso do esgotamento que vencia, pouco a pouco, todos os que continuavam a luta contra o flagelo não estava nessa indiferença aos acontecimentos exteriores e às emoções dos outros, e sim na negligência a que haviam chegado. (...)
26b- Porque tinham então tendência a evitar todos os gestos que não fossem absolutamente indispensáveis e que lhes pareciam sempre acima de suas forças. Foi assim que esses homens chegaram a desprezar cada vez mais as regras de higiene que tinham codificado (...)
26c- (...) Nisso residia o verdadeiro perigo, pois era a própria luta contra a peste que os tornava então mais vulneráveis a ela. Apostavam em suma no acaso, e o acaso não pertence a ninguém.
27a- Havia, no entanto, outros motivos de inquietação em consequência das dificuldades de abastecimento, que cresciam com o tempo. A especulação interviera e oferecia, a preços fabulosos, os gêneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. (...)
27b-As famílias pobres viam-se,assim, numa situação muito difícil, enquanto às ricas ñ faltava praticamente nada. A peste, que,pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério, deveria ter reforçado a igualdade entre nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos (...)
27c- (...) tornava, ao contrário, mais acentuado no coração dos homens o sentimento da injustiça. Restava, é bem verdade, a igualdade irrepreensível da morte, mas essa, ninguém queria. (...)
27d-Os pobres q sofriam de fome pensavam, com mais nostalgia ainda, nas cidades e nos campos vizinhos, onde a vida era livre e o pão não era caro. Já q não podiam alimentá-los suficientemente, eles tinham o sentimento, pouco sensato aliás, de q deveriam tê-los deixado partir (..)
27e- (...) De tal modo que se difundira uma divisa que se lia, às vezes, nos muros ou se gritava à passagem do prefeito: "PÃO OU AR”. Essa fórmula irônica dava o alerta de certas manifestações logo reprimidas, mas cuja gravidade todos percebiam.
28a- Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário, tanto quanto possível, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isso lhe parecerá talvez um pouco simples. Não sei se é simples, mas sei que é verdadeiro. (...)
28b- (...) Ouvi tantos raciocínios que por pouco não me fizeram perder a cabeça, mas que viraram bastante outras cabeças para fazê-las consentir no assassinato, que compreendi que toda a desgraça dos homens provinha de eles não terem uma linguagem clara.
29- Segundo a lei de um coração honesto, tomou deliberadamente o partido da vítima e quis juntar-se aos homens, seus concidadãos, nas únicas certezas que eles têm em comum e que são o amor, o sofrimento e o exílio.
30- (...) para depor a favor dessas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.
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