É interessante como especialistas em uma área específica podem estar com o olhar "viciado" sobre as evidências da sua própria área ou de áreas correlatas, adicionando muita subjetividade às suas análises.

Vem comigo nesse fio para entender melhor esse problema...
Em casos mais extremos, a "opinião de especialista" pode refletir simplesmente um olhar enviesado cultivado durante sua trajetória pessoal e profissional. As vezes até mesmo um "grupo de especialistas" pode, ao invés de tornar a análise imparcial, multiplicar todos seus vieses.
Na história não faltam exemplos de práticas que eram amplamente aceitas como "boas práticas médicas", mas que caíram em descrédito em virtude de ensaios clínicos de alta qualidade. Desde 500 a.C. especialistas afirmavam que a sangria era o tratamento para qualquer doença aguda.
Em 1820 foi comprovada que era prejudicial. Mas deixou de ser usada apenas em 1910. Em 1957 especialistas recomendaram Talidomida para enjôo matinal de gestantes, que levou ao nascimento de pelo menos 8.000 bebês com malformações graves e teve o uso regulamentado anos depois.
Na década de 60 acreditava-se que medicamentos como Rivotril poderiam ser usados para insônia ou ansiedade leve, até descobrir-se, muitos anos mais tarde, que poderiam causar dependência. E por aí vai.

Existe um padrão aqui, você consegue reconhecer?
O padrão é: Recomendação por especialistas baseado em experiência pessoal e plausibilidade biológica -> problemas e efeitos não esperados na prática -> dados científicos demonstrando esse problema -> alteração da conduta (após trazer prejuízo para milhares de pessoas).
Quantos exemplos serão necessários até começarmos a incorporar a boa evidência científica na prática clínica ANTES de fazermos estrago? Quando vamos parar de insistir na prescrição de determinados medicamentos, mesmo os ensaios clínicos não demonstrando benefício clínico?
É bem verdade que no momento de tomar uma decisão clínica, é impossível saber se a decisão está 100% correta. Não somos videntes e nem temos a ambição de ser. Só vamos saber de fato se a conduta "deu certo", após o desfecho.
Mas certamente temos maior chance de acertar e de calcular a relação risco x benefício para o paciente, se nossa decisão for baseada em probabilidades (por meio de boas evidências científicas) e não por uma regra aprendida no passado, imitação dos pares ou crença pessoal.

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2 Apr
Individualizar, verbo transitivo direto que significa "Adequar (alguma coisa) às características individuais de uma pessoa; particularizar".

Repetindo: "ADEQUAR ALGUMA COISA às características individuais de uma pessoa."

Segue o fio de hoje!
Enquanto profissionais de saúde, é muito comum (e na verdade necessário) individualizarmos um determinado tratamento ou intervenção às características e particularidades de um paciente. Isso é crucial para o sucesso terapêutico. Até aí todos nós concordamos né?
Mas o que tenho visto é a banalização do uso da expressão "individualização do tratamento" como justificativa para tomar qualquer decisão ou conduta baseada nas crenças e na observação individual do profissional e não na ciência. Não podemos nos esconder atrás dessa palavra.
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31 Mar
O que você acha mais fácil defender/acreditar durante uma pandemia na qual temos altíssima taxa de contaminados, mas dos quais uma pequena porcentagem evolui de maneira grave?

1) A existência de um tratamento precoce (ainda que falso)
2) A não existência de um tratamento precoce
Vamos fazer um exercício começando por supor que um tratamento precoce existe (mesmo tendo que torturar as evidências pra isso).

Primeiro ponto: Você está falando o que todo mundo quer ouvir. Incluindo você mesmo. Informações que atendem aos nossos anseios são melhores recebidas
Segundo ponto. Olha esse monte de bolinhas aí. São pessoas com COVID. Tá mostrando a cada 100 pessoas, em média, o que acontece SE NÃO USAREM medicamento NENHUM.
Verde: Vão ter sintomas leves e benignos
Rosa: Vão ter sintomas graves ou moderados
Roxo: Vão morrer Image
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30 Mar
O mundo é probabilístico. Não é o que te ensinaram. Abraçar essa realidade torna a vida angustiante, e muda a forma de tomarmos decisões.

Se não existe certeza, o que podemos fazer é tentar reduzir incertezas. Mas pra isso precisamos de uma ferramenta externa aos nossos olhos.
Para boa parte dos pacientes (e também boa parte dos profissionais de saúde, infelizmente), evidências científicas não são um fator determinante no momento de tomar uma decisão terapêutica.

É claro que ninguém vai dizer que não se importa com a Ciência. Todos se importam, mas...
Mesmo tendo consciência de estudos que não demonstram eficácia de um tratamento, pessoas acabam optando por tratamentos cujos "benefícios" foram capazes de "testemunhar com seus próprios olhos". Só que nós não enxergamos bem probabilisticamente. Precisamos dos óculos da Ciência.
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28 Mar
Quem promove tratamentos sem base em evidências, os promovem distorcendo conceitos científicos (voluntária ou involuntariamente) e/ou criando seus próprios princípios e protocolos (baseados nas suas crenças e subjetividades).

Mas não para por aí.
(continua)
Esses profissionais tem consciência que os cientistas permanecem céticos a esses tratamentos. Por isso, os promotores de tratamentos sem base em evidências (como o tratamento precoce) tentam minimizar as críticas científicas, colocando em xeque a credibilidade da própria ciência.
"A Ciência é lenta e não dá tempo de fazer estudos adequados"
Em uma pandemia temos tanta gente ficando doente, que se torna o período de mais rapidez de execução de ensaios clínicos. Não apenas dá tempo, como já deu tempo. Estudos como RECOVERY estão aí pra provar isso.
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25 Mar
Diálogo frequente:

Fulano: - Eu e minha família tivemos COVID, usamos kit-Covid e estamos bem. Quando você tiver COVID, vai usar também.
Eu: - Eu tive COVID e usei só dipirona.
Fulano: - Mas essa é só a SUA experiência, não dá pra generalizar.
Eu: - Pois é. Exatamente isso.
Se tem uma coisa legal que aquele estudo da colchicina (COLCORONA) deixa bem claro, é a proporção de pessoas que são hospitalizadas e/ou morrem no grupo placebo. Dá uma olhada na tabela a seguir, do artigo "Efficacy of Colchicine in Non-Hospitalized Patients with COVID-19".
Das pessoas doentes, no grupo placebo, 5,7% foram hospitalizadas e 0,4% foram a óbito. Isso significou que 99,6% das pessoas com COVID sobreviveram e 94,3% sequer foram internadas.
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16 Mar
#FarmacoNumTweet

- Atchim!
- É Gripe? Benegripe!
Naldecon, Resfenol, Cimegripe, etc. Não quer levar também uma Vitamina C pra "aumentar" a imunidade?

Se antibióticos combatem bactérias, se anti-inflamatórios combatem a inflamação, antigripais combatem a gripe?
Segue o fio!
Ficar resfriado ou gripado é um saco. Além de todos os sintomas desagradáveis, parece um estado incompatível com a vida moderna... Como trabalhar ou até mesmo se divertir nessas condições?
Para tentar amenizar a situação, temos disponível os famosos antigripais. O nome pode transmitir uma falsa impressão. Eles não são capazes de combater a sua gripe ou resfriado. Para isso teriam que ter ação antiviral contra os vírus causadores dessas condições.
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