Na verdade, por muito tempo me achei absolutamente desprovido de qualquer tipo de coragem, amedrontado pelos cantos escuros de uma casa grande e pouco iluminada, repleta de barulhos que nunca foram bem explicados.
Acabei sendo corajoso quase sem querer, coragem baseada num pacto social silencioso e nunca escrito, por conta dos medos do meu irmão, que eram muitos.
Meu irmão era uma criança amedrontada, que desligava luzes e corria para longe do escuro como se um monstro fosse emergir das sombras e acabar com sua vida.
De noite, ir ao banheiro era medonho; beber água era medonho; buscar algo na sala era medonho.
E eu também era assim.
Era uma criança amedrontada, só que mais velha do que ele.
Por ser mais velho, meu irmão se agarrava a mim como se fosse salvador capaz de protegê-lo do mal, coisa que jamais me senti capaz de fazer nas lembranças de não ser corajoso. Acontece que, para ele, eu era segurança.
Nunca recusei ser corajoso para meu irmão, mesmo quando o medo me gelava a alma.
Hoje percebo que sempre fui generoso na minha falsa coragem, para dar a ele a também falsa impressão de estarmos seguros.
Isso me faz pensar que nem toda a falsidade é ruim.
Meu irmão cunhou meu nome, não o Fernando de batismo, mas o Tanto que se tornou quem sou.
Veio dele todos me chamarem assim e nisso sou agradecido, pela invenção de parte de mim.
Foi justamente ele me chamar Tanto nos momentos de desespero que me fez construir algo bom ao redor
Muitas vezes, no meio da noite, meu irmão sentia vontade de ir ao banheiro que ficava num corredor escuro, fora do quarto.
Eu era acordado com o Tanto repetida vezes pelo meu irmão, já estava apertado, se contorcendo na cama, me chamando em desespero do aperto.
Eu acordava, acendia a luz e íamos.
Sair do quarto para ir ao banheiro era patético em fazermos muito barulho e estardalhaço.
Tínhamos várias estratégias para acender as luzes antes que fôssemos capturados pelo mal, mas sempre fracassávamos. Era patético.
Nisso, minha mãe acordava braba pelo susto e nos ralhava, mas isso ela resolveu comprando um penico.
Jamais esquecerei do dia em que vi o penico de ferro esmaltado, azul turquesa por fora, branco por dentro, que me encantava por ser tão bonito.
Na minha cabeça era um absurdo usar algo tão bonito para ser mijado, me sentia ruim por mijar nele, mas o penico também não durou.
Certa vez, na hora de dormir, era a vez de meu irmão desligar a luz, e ele o fez, desligou a luz e correu para a cama, mas no meio do caminho deu um chute colossal no penico cheio de urina que se espatifou em cacos de esmalte e mijo por tudo.
Foi horrível a sensação.
Jamais esquecerei do nosso quarto todo mijado, de acender a luz e descobrir o quarto todo mijado, e de minha mãe limpando nosso quarto no meio da noite, o rosto de raiva fazendo-me duvidar de todo o amor que já tinha recebido até ali.
Mas isso ela também resolveu, quebrando uma parede e fechando uma porta e criando, para nós, uma suíte.
Lembro como achei elegante termos uma suíte com porta escondida por uma falsa porta de nosso armário. Os únicos garotos privilegiados da rua que tinham seu próprio banheiro.
Mas, apesar de elegante, isso não resolveu o medo de meu irmão. Só resolveu de não termos o quarto mijado novamente, agora que não tínhamos mais penico.
Ainda com medo, meu irmão seguia me chamando de noite, Tanto, Tanto, para irmos ao banheiro, agora dentro do quarto.
Fazíamos tanto barulho nessa operação quanto antes, talvez até mais barulho agora que tínhamos duas portas, a porta falsa do armário e a porta do banheiro, mas, ao menos não assustávamos mais minha mãe.
Até hoje não sei a razão de não deixar a luz do banheiro ligada, de noite.
Foi também mais ou menos nessa época que meu irmão não quis mais dormir sozinho em sua cama, pois os monstros da imaginação podiam deitar com ele durante a noite e fazer medo, então comecei a ser acordado também para que meu irmão fizesse aquele pedido que de início me irritava:
- Tanto, posso dormir na tua cama?
Digo que me irritava, mas não me irritava, pois eu, que jamais pensei ser corajoso, que tinha os mesmos medos dele, acabava sendo obrigado, por ser mais velho, a ter aquela falsa coragem que dava a ele aquela falsa impressão de segurança, e isso me fazia bem.
Era orgulho.
Mas não orgulho no sentido rasteiro da palavra, daquele raso sentimento vazio de se achar importante para alguém por ser necessário para alguém e disso unicamente surgir sua importância.
Me fazia bem pois eu sentia amor por meu irmão. Protegê-lo era amor.
Além de amor, protegê-lo talvez fosse a grande missão que eu, uma criança amedrontada, só que mais velha, pudesse ter na infância feliz na casa grande e pouco iluminada, repleta de barulhos que nunca foram bem explicados.
Além de amor, cuidar dele era missão.
E esse amor, esse gostar de proteger aquele a quem devo muito do que sou, sempre estava ligado a ele chamar meu nome no meio da noite, não o Fernando de batismo, mas o Tanto que surgiu dele ter me batizado assim.
Tanto foi a a vontade dele, que não sabia pronunciar meu nome quando pequeno.
E não esqueço das noites dormindo junto com meu irmão, apertados na minha cama curta, em que ele me abraçava e se chegava a mim como se aquele simples toque fosse toda a segurança que ele precisava no mundo - naquele momento - e era.
Sinto falta das noites em que dormíamos juntos na mesma cama, como se o simples dormir dele só pudesse ocorrer se fosse ao meu lado, na mesma cama.
Hoje vejo meus filhos fazendo o mesmo e entendo mais ainda tanto amor que havia ali, pois é o mesmo amor que há aqui..
Lembro daquelas noite escuras em que sentíamos medo de monstros, em que me fazia de forte por ser mais velho e era toda a segurança do mundo ao meu irmão, e vejo que o amor também se herda e passa adiante por gerações.
E que assim seja.
De todo o amor que tive, de toda a proteção que dei a ele nas noites escuras da Apinages, acordo de noite, na vida de hoje e vou ver meus filhos dormindo, para ver se dormem bem. E descubro os pequenos soterrados todos juntos numa cama só.
Vejo meu irmão, me vejo.
E percebo que há muito amor aqui, uma casa que não é escura, mas que tem alguns barulhos nunca explicados, que os medos são os mesmos, das crianças, mas que a vida é boa quando se tem em quem confiar e quem te proteja.
Boa noite
e fim.
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Um dia, partiu pra cidade grande para realizar seu sonho. Começou a atuar, foi ficando famoso e acabou indicado a um grande prêmio pelo papel de um gay.
A cidade parou, claro, pra ver aquele seu filho, no auge.
Ele se chamava Cameron Drake e parecia nervoso na plateia.
Todas as tevê da cidade sintonizadas naquele momento fabuloso.
Todos os moradores esperando o momento máximo de um morador dali.
Dentre eles, Howard Brackett, que assistia à premiação ao lado de sua noiva.
Brackett, professor de literatura da cidade, tinha sido o grande influenciador da veia artística de Drake.
Por essa razão, era o mais empolgado com a possibilidade de ver o aluno brilhar daquela forma.
Até que chega o momento da premiação e Drake ganha.
Faz um tempo, eu tava morando em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, e as coisas estava bem estranhas, sabe?
Foi logo no início da pandemia, e vocês imaginam passar por toda aquela loucura, só eu e minha filha, tendo que aguentar as incertezas desses tempos doidos.
Especialmente minha filha, a Juju, estava sofrendo muito.
Apesar de sempre termos sido caseiros, com a chegada da pandemia acabamos nos trancando mais, isolados de tudo e todos, o que certamente a deixou bem nervosa, e eu sentiu tudo também, porque sempre fomos muito ligados.
Nunca achei que fosse loucura, mas Juju começou a falar muito sobre um anjo... uma espécie de anjo da guarda que queria se aproximar e estar ao lado dela naquele momento. Um ser de luz que dizia estar ali para nos proteger.
Eu perguntava sobre ele, mas Juju não sabia falar nada.