Andando pelo interior do estado do Pará, já me hospedei em todo o tipo de hotel.

Já teve hotel chique, já teve hotel que mais parecia cativeiro.

Mas, dentre todos, nenhum me propiciou o que vivi em um hotel velho de Santarém.
Santarém teve uma época de muita riqueza, em que foram construídos hotéis gigantes e luxuosos, só que a maré mudou…

Da mesma forma que veio, o dinheiro foi embora e deixou plantado na cidade uns elefantes brancos bizarros.

Esse hotel, por exemplo, me lembrava muito O Iluminado
Corredores enormes e vazios, silenciosos e escuros. Alguns andares inteiros da construção estavam sem uso, e só uns dois eram usados na hospedagem.

De resto, pairava um silêncio agressivo por lá.

Logo que cheguei e me deparei com aquilo, decidi que tinha que desbravar o local.
E eu andei, de fato andei, por todos os cantos.

Vi os andares sem uso, vi quartos vazios, consegui ir até no telhado, que estava destrancado, e no subsolo do hotel, que saia em outra rua e estava só entulho.

Na hora, não percebi, mas aquilo tudo me pesou muito.
Outra coisa muito estranha era a falta de pessoas.

Parecia não haver nenhum hóspedes além de mim. Os funcionários, acho que só tinham três, que se revezavam em quase tudo…

E eu, andando naquela solidão, naquele escuro empoeirado e deserto.
Naquele dia jantei cedo, na beira da piscina redonda, imensa, que deve ter sido luxuosa um dia, único cliente do restaurante, servido sempre pelos mesmos poucos funcionários.

Deitei umas 21 hs, já que trabalharia raiando o dia seguinte e só esperava uma noite tranquila…
Acontece que, perto de uma da manhã, acordei com uma gritaria muito forte que parecia vir de dentro meu quarto.

Acordei assustado, meio que em pânico, sem entender nada, e só consegui correr pra ligar a luz, como se isso pudesse me dar segurança.
Quando a luz acendeu, mais calmo, notei que os gritos vinham do quarto ao lado, e só isso explicava serem tão altos.

Era um casal, numa aparente briga por ciúmes, onde o cara acusava a ela de traição.

Sentado na cama, fiquei na minha, até que a coisa tomou outro rumo…
Acontece que a briga, que mais tinha um tom de lamento, de sofrência, foi ganhando um ar mais e mais violento, e percebi que o cara socava os móveis e as paredes, e logo temi pelo pior.

Liguei imediatamente na recepção para informar o problema, pedir que interviessem, mas nada..
Estranhamente a ligação só chamava, como se eu estivesse sozinho naquele hotel gigante e vazio, justamente com o casal que brigava.

Comecei a tentar todos os ramais, recepção, garagem, piscina, restaurante, mas ninguém atendia.

Fui ficando cada vez mais nervoso, porque pensei:
“Nesse hotel gigante, provável que ninguém escute a briga, talvez só outros hóspedes, mas, e se esse cara começar a agredir a moça!? Vou ter que fazer algo”

E, pra azar, a briga só ganhava contornos cada vez maior de tragédia.

Até que aconteceu.
Os gritos se interromperam e deram lugar ao arfar típico de briga. Logo depois, passei a escutar uns grunhidos horrendos, como se alguém estivesse sendo sufocado.

Quando a ficha caiu, dei um pulo e abri a porta, e logo estava no corredor, pronto pra qualquer coisa, mas…
…parado no corredor enorme e empoeirado, cheirando a carpete sujo, iluminado somente pela luz que saia do meu quarto, me vi repentinamente cercado por um silêncio típico de cemitério…
Na hora me desesperei, pois aquele silêncio só podia significar uma coisa, o que fez meu coração disparar em adrenalina.

Diante do quarto ao lado, comecei a bater na porta, meio que sem saber o que esperar, mas ninguém respondeu.
Toc toc toc

- Oi, gente… tem alguém aí!?

Toc Toc Toc

- Amigo, abre a porta, por favor.

TOC TOC TOC

- Mano, eu ouvi a briga! Só quero saber se está tudo bem.

Mas nada…
Desesperado, encostei a orelha na madeira, tentar ouvir algo.

Ao longe, ainda ouvia uma respiração pesada, baixinha, assim como uma espécie de choro abafado, talvez por uma mão!

Eu estava tenso, ainda com a orelha colada, já pensando em arrombar a porta, quando aconteceu…
Foi uma porrada dada pelo lado de dentro, mas tão forte que fez sair poeira da soleira. E foi justamente onde minha orelha estava, então foi como se tivesse levado o soco, o que me fez cair no chão zonzo, surdo e meio desacordado…

E foi quando eu vi.
No chão, caído no carpete velho, no escuro, vi a porta se abrir e um homem magro e careca, vestindo roupa social sair.

Com ele estava a mulher que antes gritava, ainda viva, mas com um braço torcido para trás e a boca tapada pela outra mão do cara.

E ele gritava, irado:
TU VAIS VER, VADIA, O QUE DÁ ME TRAIR

Enquanto a mulher se debatia tentando fugir.

Eu sentei no chão, uma dor horrenda na cabeça, e nem tive tempo de ver eles sumindo na escuridão, em direção aos elevadores e à enorme escadaria.
Eu levantei, de forma que deu, mas, antes que pudesse fazer algo só ouvi um grito curto e um barulho horrendo de algo pesado e maciço bater, talvez, no primeiro andar.

Vocês já ouviram o barulho de um corpo caindo?

Eu já, e não consigo esquecer.

Era o mesmo barulho.
Em prantos, porque naquela hora eu percebi exatamente o que tinha acontecido, não tive qualquer reação quando o homem passou ao meu lado, correndo, e se trancou novamente no quarto.

Eu só consegui caminhar, cambalear, em direção às escadas para ver, e eu vi.
No chão do primeiro andar, eu estava no quarto, bem no vão das escadarias, onde devia estar o corpo daquela mulher, não havia nada…

Vocês podem imaginar como eu fiquei!

Mudei de ângulo, tentei ver de todas as formas, mas era impossível não ver, se estivesse ali.

Nada.
Voltei correndo ao meu quarto, completamente perdido, pensando em ligar pra polícia, chamar alguém, e foi quando percebi que a porta do quarto ao lado, que devia obrigar o assassino, estava aberta.

Alguma coisa me obrigou a ir lá e eu fui, mas o quarto estava vazio.
Havia uma cama, sem estrado, com o colchão em pé, escorado numa das paredes.

Não havia lençol, não havia frigobar e aquele quarto não era ocupado fazia tempo.

Nessa hora me bateu o medo. Olhando a nesga de luz que saia do meu quarto, pensei no que fazer se ficasse no escuro.
Mas também não pensei duas vezes.

Corri de volta ao quarto, tranquei a porta e ainda fui inocente de colocar a mesa de cabeceira lá, uma barricada que talvez não servisse a nada.

Nessa noite eu não dormi, breves desmaiadas que dei, somente, quando não aguentava mais.
Decidi sair daquele local o quanto antes, pois, cada vez mais, sentia uma carga enormemente negativa me oprimindo.

Naquele dia fui o primeiro a chegar na sala de cafe, já com mala e tudo.

Lá encontrei uma funcionária muito fofa, parecia uma avozinha do mato, com quem conversei.
como quem não queria nada, ainda escondendo meu pavor:

- Me diga, tem muita história de visagem nesse hotel?

- Oxe, dr, é o que mais tem. Essas paredes já viram muita coisa.

E como devia estar visivelmente assustado, ela perguntou:

- Aconteceu algo com o senhor?
De forma breve, sem querer parecer louco, contei a ela tudo que aconteceu comigo e, pra minha surpresa, ela só riu.

Riu forte, enquanto arrumava pratos e xícaras.

- Moço, o senhor viu Genésio. Era garimpeiro brabo, matava gente e matou uma mulher aqui mesmo, dessa forma aí.
Ela então me narrou da vez que Genésio chegou de uma festa com uma moça com quem namorava, era lá por 1976, e que ele cismou que ela o estava traindo e, por isso, jogou ela escada abaixo, e nunca foi preso, porque era ditadura e o garimpeiro era amigo de muita gente importante.
Ao ver meu interesse, ela continuou:

- A justiça não pegou a ele, mas Deus não deixou ele entrar, nem no céu, nem no inferno. Fez pra ele um purgatório horreeendo, e ele revive esse dia faz muito tempo. Eu mesma já vi a alma de Genésio sofrendo por aqui.

- Credo, vozinha…
Depois disso, acabei rápido meu café, me despedi da boa velhinha, agradeci pela conversa e corri na recepção pra fechar a conta.

O carro da firma passaria logo mais para me apanhar.

E, enquanto pagava, puxei assunto com o rapaz da recepção, que já tinha visto antes.
- Mano, ontem de noite eu vi Genésio.

Esperei que ele fosse rir, mas nada mudou no seu rosto.

- Tu conheces essa história, desse crime?

- Qual crime?

- Do Genésio, um garimpeiro que matou a namorada aqui no hotel.

O homem ficou branco.
- Senhor, nunca teve crime aqui.

- Mas rapaz… a senhora do café da manhã me contou tudinho. Eu entendo que isso pode dar má fama ao hotel, ma…

- Que senhora?

- A senhora que estava servindo o café da manhã.

- Não tem nenhuma senhora servindo o café da manhã…
E, bem… aquelas paredes já deviam ter visto muita coisa mesmo.

O rapaz que servia o café da manhã colocou tudo na mesa, para os poucos hóspedes, e saiu pra comprar manteiga, que tinha acabado.

No hora em que estive lá não havia ninguém além de mim.
Eu estava tão abalado que ele acabou assumindo que sim, que tinha acontecido o crime, mas que os donos pediam para abafar, pois as coisas já não estavam boas.

E não, não havia nenhum hóspedes com as características da velha, nem ninguém entraria ali sem passar pela recepção.
Era só mais um dos tantos espíritos que passavam sua eternidade naquele local esquecido pelo tempo, rememorando suas vidas, seus dramas e suas dores.

Dos muitos que, me confidenciou o homem, andavam por lá.
Nem preciso dizer que NUNCA mais me hospedei lá.

Sei que mudou de nome, passou por reformas, mudou de nome e tudo, mas ainda guarda na alma as características do seu tempo de grandeza.

Recomendo, inclusive, um café de final da tarde na piscina redonda com trampolim.

Fim

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9 Jul
Nunca pensei ser corajoso.

Na verdade, por muito tempo me achei absolutamente desprovido de qualquer tipo de coragem, amedrontado pelos cantos escuros de uma casa grande e pouco iluminada, repleta de barulhos que nunca foram bem explicados.
Acabei sendo corajoso quase sem querer, coragem baseada num pacto social silencioso e nunca escrito,  por conta dos medos do meu irmão, que eram muitos.
Meu irmão era uma criança amedrontada, que desligava luzes e corria para longe do escuro como se um monstro fosse emergir das sombras e acabar com sua vida.

De noite, ir ao banheiro era medonho; beber água era medonho; buscar algo na sala era medonho.

E eu também era assim.
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5 Jul
Ontem foi noite da gente morrer de medo por aqui.

Mesmo estando “acostumado” com as coisas bizarras que, vez ou outra, ocorrem, dessa vez foi tão intenso que nem sei explicar.

Pois bem… ontem era noite das crianças dormirem aqui no nosso quarto - e meu dia de fazê-las dormir.
Elas dormiram 21:30, aí sai do quarto e fui encontrar Lívia na sala.

Comemos, conversamos, e como a gente estava muito cansado, umas 23 horas já estávamos prontinhos pra dormir.

Livia e Vicente na cama, eu e Íris no colchão no chão.
Livia dormiu logo, eu ainda pegava no sono quando Íris começou a gritar muito alto.

Eu corri pra acalmar a ela, mas a raiva que ela sentia no sonho era tanta, que acabei levando uns tapas e socos.

Por fim, consegui acalma-la, só que, minutos depois, novos gritos.
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2 Jul
O cara morava numa cidadezinha bem pequenina.

Um dia, partiu pra cidade grande para realizar seu sonho. Começou a atuar, foi ficando famoso e acabou indicado a um grande prêmio pelo papel de um gay.

A cidade parou, claro, pra ver aquele seu filho, no auge.
Ele se chamava Cameron Drake e parecia nervoso na plateia.

Todas as tevê da cidade sintonizadas naquele momento fabuloso.

Todos os moradores esperando o momento máximo de um morador dali.

Dentre eles, Howard Brackett, que assistia à premiação ao lado de sua noiva.
Brackett, professor de literatura da cidade, tinha sido o grande influenciador da veia artística de Drake.

Por essa razão, era o mais empolgado com a possibilidade de ver o aluno brilhar daquela forma.

Até que chega o momento da premiação e Drake ganha.
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17 Jun
Eu era criança quando vovó adoeceu e fomos morar em Serra Grande, interior do interior de Quatipuru, no interior do Pará.

Apesar da mudança, a infância em Quatipuru foi fantástica, no tanto de brincadeira e aventura que vivi, mas nem tudo é boa lembrança Vista aérea de Quatipuru, no interior do estado do Pará.
A casa de minha avó era afastada de tudo e todos.

Para o centro do município eram quase duas horas de carro. Os vizinhos que havia, todos moravam na lonjura das coisas do mato.

Perto da casa da avó, de criança, só havia Zeni e Nete, duas irmãs atentadas a dar nó em trilho. Foto de uma casinha branca, perdida no meio do campo
Zeni e Nete sempre me colocavam em bronca, inventando mil brincadeiras malucas e coisas extraordinárias.

E eu, a mais nova, meio que aceitava o comando das irmãs, minhas únicas amigas naquele recanto de mundo perdido, cercado de imensidão, mato e água.
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16 Jun
Adoro histórias de nomes.

Outro dia peguei uber com o Nigel. Quando entrei, pronunciei Nigel como Nigel Mansell ele ficou todo feliz.

O pai, viciado em F-1, escolheu o nome que, hoje, agrada o rapaz - mas não agrada a todos, pois foi em desacordo com a mãe.
Aí lembrei das minhas histórias.

Uma senhora que trabalhou conosco. Nascida na Santa Casa, seria chamada de Cecília, sonho da mãe recém parida.

Mas o pai, usando de ardil, foi registrar a criança sozinho e voltou ao quarto com o papel certificando outro nome.
Imagina a surpresa da mãe, que queria Cecília, que acertou tudo para ser Cecília, quando se deparou com a certidão onde constava MARIA MACILDA.

Pois é. Segundo o pai, seu sonho era ter uma filha chamada Macilda, nome que achava especial.

Vai entender os desejos do bicho homem.
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10 Jun
Faz um tempo, eu tava morando em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, e as coisas estava bem estranhas, sabe?

Foi logo no início da pandemia, e vocês imaginam passar por toda aquela loucura, só eu e minha filha, tendo que aguentar as incertezas desses tempos doidos.
Especialmente minha filha, a Juju, estava sofrendo muito.

Apesar de sempre termos sido caseiros, com a chegada da pandemia acabamos nos trancando mais, isolados de tudo e todos, o que certamente a deixou bem nervosa, e eu sentiu tudo também, porque sempre fomos muito ligados.
Nunca achei que fosse loucura, mas Juju começou a falar muito sobre um anjo... uma espécie de anjo da guarda que queria se aproximar e estar ao lado dela naquele momento. Um ser de luz que dizia estar ali para nos proteger.

Eu perguntava sobre ele, mas Juju não sabia falar nada.
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