Pequeno tutorial de como fazer uma terapia parecer útil (e ganhar canetas caso seja médico inocente ou lotar consultório caso seja charlatão):

1. Invente um mecanismo que explique porquê a droga funciona. Pra melhorar, descubra algum “desfecho substituto” em que ela de fato atue
- Um bom “mecanismo” chama a atenção da maioria, mesmo que seja inventado, ou mesmo que não passe pelo crivo final, que são os estudos clínicos bem feitos.
Um desfecho substituto apaixona qualquer um: quem não gosta de ter um PCR negativado, mesmo que isso não signifique nada?
2. Omita a menção a qualquer estudo que tenha tido desfechos trágicos ou mesmo neutros. O paciente só merece saber daqueles que são positivos.
PS: há diversas terapias consagradas na Medicina que não passariam por esse crivo simples.
3. Capriche na estatística e nos seus gráficos, modificando escalas, deixando pacientes de lado, omitindo intervalos de confiança, torturando os números para que digam o que você quer.

“Números não mentem, mas as pessoas que cuidam deles sim”.
4. Nomeie pelo menos três gurus (obviamente charlatões) para que façam tudo parecer extremamente plausível para o leigo e para o médico leigo (que compartilha coisas como c19study ou vídeos de zipzop).
Use e abuse da eminência deles, mesmo que outros com mesma graduação o neguem.
5. Seja um mestre na arte das comparações vazias e das correlações espúrias. As pessoas não sabem que não se comparam países diferentes por causa da falácia ecológica, mas adoram saber que na África a mortalidade da COVID é baixa. É seu papel usar os dados mais pobres possíveis.
6. Inverta completamente a hierarquia dos estudos científicos: reduza a importância de um estudo randomizado controlado (como o RECOVERY que apresentou uma droga que salva vidas) apontando seus vieses, e exalte os péssimos estudos das suas drogas de mentirinha.
7. Jogue baixo com o imaginário do leigo: apavore a todos, não deixe o leigo saber que toda doença tem também a sua história natural, confunda-o fazendo pensar que “tomei tal medicamento e me curei” é algo que faz sentido em Medicina.
Você sempre fez isso, não mude agora.
8. Invente que o uptodate ou qualquer outro grande portal de revisões sistemáticas estão comprados pela big pharma. Se aproveite que ler sites responsáveis está fora de moda (a moda agora é zapzap).
Não mencione o fato de que a dexametasona, única recomendada, custa 8 reais.
9. Aproveite que há anos os pacientes estão mal acostumados com a Medicina predatória, charlatanismo e pseudo-especialidades. Se você for inteligente a ponto de saber que é tudo mentira, ensine as pseudo-ciências; se sua cognição não chega a tal ponto, então tenha cursos disso.
10. Inverta o ônus da prova: depois que a sua mentira/meia-verdade não comprovada tiver muitos adeptos nas redes, cobre dos pesquisadores sérios a prova de que aquilo NÃO É VERDADE. Milhões de reais serão gastos com isso e não com terapias realmente úteis.

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15 Dec
Piores argumentos que já me deram para o uso de remédios “me engana que eu gosto” para COVID-19.

1. “Eu tomei qualquer absurdo e me curei.”
R: a mortalidade é de 1-2%. Se você tomou e se curou, não dá pra saber se você na seria os 98-99% que seriam curados naturalmente.
2. É pra ficar em casa esperando morrer?
R: se os medicamentos de mentirinha não reduzem mortalidade, esse argumento infantil também não tem efeito.

O tratamento do COVID é o de suporte e dexametasona em casos com pior evolução. Gostaria que fosse mais amplo, mas não é, ainda.
3. “Qual a evidência que remédio para febre reduz mortalidade no COVID?”
R: por sorte não vi nenhum médico falando, mas foi uma das maiores ignorâncias de alto de pedestal que já ouvi.
Sintomáticos plausivelmente reduzem mortalidade por várias doenças por evitar evolução ruim.
Read 10 tweets
13 Dec
Os pensamentos mecanicista, frequentista e bayesiano. Um resumo:

Mecanicista: todos nós durante a graduação. Faz parte do aprendizado que tenhamos noções sobre fisiopatologia e farmacologia, p ex. É normal que se valorizem os mecanismos e que a cadeira sobre MBE fique às traças.
Um dia, contudo, o médico precisa ter o estalo: o momento da curva de Dunning-Kuger em que a ficha cai: A FACULDADE ME ENSINOU ISSO??
Feliz do médico em que a ficha cai. Ou ele passará o resto da vida no primeiro pico “ignorante” da auto-confiança.
Depois, o médico que é introduzido às evidências científicas vira, primeiro, um frequentista.
Ele já sabe que a seção “evidências” do capítulo que está lendo é mais importante que a seção “mecanismo”.
Mas ao ler uma evidência, ele se fixa muito ao valor de p.
Read 7 tweets
7 Dec
Qual a regra número 1 para quem quer se iniciar na leitura crítica de evidências científicas?

ENTENDA QUE ESTUDOS OBSERVACIONAIS SÓ GERAM HIPÓTESES.

Que tal se atentar a isso na próxima notícia ou corrente que você ler sobre algum estudo?
O exemplo do estudo que concluiu que café aumentava a chance de câncer de pâncreas é um bom exemplo para três tipos de vieses: o viés de seleção, confundidores e o que eu chamo de “viés da eminência”.

Foi publicado em 1981 por MacMahon na New England Journal of Medicine (NEJM).
O estudo foi do tipo “caso-controle”, então se selecionavam pacientes com câncer e sem câncer e se perguntava se eles tinham alguns hábitos prévios à doença, entre eles o de beber café. A associação café x câncer de pâncreas é espúria.

Vamos entender seus vieses de um por um:
Read 11 tweets
2 Dec
Você já ouviu falar do “efeito placebo”? Provavelmente, o que você entende sobre ele está errado.

Vamos analisar as bases do efeito placebo para perceber porquê esse é um viés cognitivo do ser humano baseado em mistério e falsas esperanças e não pode ser definido sob a lógica.
O efeito placebo foi primeiro quantificado por Bleecher, escrevendo que os sintomas de 35% de 1082 pacientes foram aliviados por placebo.
Você há de concordar que para a existência comprovada de um efeito placebo, podemos usar o critério:
(1) tem que ter recebido placebo vs qualquer terapia (medicamentosa ou não)
(2) o efeito não apareceu em quem não recebeu placebo,
(3) o efeito tem que ser relevante clinicamente
Read 12 tweets
30 Nov
“Eu tomei ivermectina e me curei”. “Sobrevivi graças à cloroquina”

Vamos a uma thread para explicar porquê isso não é um argumento inteligente (para um médico, é inaceitável) ou modificador de conduta. Lembre-se que a chance de sobreviver ao COVID, não usando nada, é de 98-99%.
A função da Medicina Baseada em Evidências (MBE) é, basicamente, evitar que coincidências ou o acaso poluam o julgamento dos médicos.

Para dar um exemplo dessas coincidências, cito o caso da Procainamida e o estudo CAST.
Procainamida é um anti-arrítmico que tinha um mecanismo farmacológico brilhante e que também melhorava fortemente algo que os médicos podem ver facilmente: o Holter, um exame.

Era usado em pacientes que já tinham infartado e tinham arritmias complexas.
Read 13 tweets
28 Nov
Atualizando a terapia para COVID-19 pelo uptodate e pelo theNNT.com.

A análise não leva em conta as mentiras descaradas do Ministério da Propaganda, digo, Saúde, nem paixão por político, nem tem o intuito de lotar consultório. É evidência.
Sintomáticos e cuidados gerais: ✅

Constantemente definido por terra-planistas como “quer dizer que é pra ficar em casa esperando morrer?”, esse é o cuidado milenar da Medicina. Essas medidas plausivelmente previnem evolução para formas graves de diversas doenças.
Tratamento empírico com antibióticos: ❌

A doença é viral e o tratamento empírico só é indicado se houver possiblidade de uma infecção bacteriana superposta, algo que parece ser mais raro do que descrito em elevadores de hospital e grupos de Zipzop.

Azitromicina ❌
Read 12 tweets

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