Tanto falaram que “o Flamengo não foi líder em nenhuma rodada”...
Assim como um bom maratonista, no entanto, o rubro-negro assumiu a ponta na reta final com a vitória sobre o Inter no Maracanã.
Conversei bastante com o @obrunopet e decidimos contar juntos a história desse jogo.
Comecei citando maratonas, mas eu quero falar mesmo é de outro esporte, o futsal.
Para quem gosta do jogo, é sempre um momento especial quando um dos times resolve usar uma famosa e arriscada estratégia: o goleiro-linha.
A ideia é simples. Precisando do resultado — em geral se estiver perdendo nos minutos finais —, o treinador tira seu goleiro e coloca um jogador de linha no gol. Ele pode pegar com as mãos, mas o objetivo é usar os pés.
Com cinco contra quatro na linha, o time consegue empurrar o adversário para trás, encurralar e pressionar em busca do gol salvador.
Se consegue marcar, o goleiro volta a campo e o time volta ao “normal”.
Mas há um enorme risco, claro. Perder a bola e tomar um contra-ataque com o gol desprotegido é fatal.
Exatamente por isso, os time só costumam usar o goleiro-linha no finalzinho, como último recurso. No futebol de campo, é como mandar o goleiro para a área no escanteio.
Mas, diferente do famoso goleirão na área, que é puro desespero, o goleiro-linha envolve estratégia. Cada time tem seu goleiro-linha designado, as movimentações são ensaiadas e o jogo é pensado.
Pois foi mais ou menos o que Rogério Ceni fez no jogo de domingo. Precisando do resultado, o treinador decidiu arriscar, tirou o lateral-direito Isla e colocou o centroavante Pedro. Não apenas mais ofensivo, o Flamengo passou a jogar em um esquema assimétrico e peculiar.
Uma espécie de 3-4-3 torto. Filipe Luís não era exatamente um zagueiro, mas ficava mais preso. Everton jogava aberto pela direita, com Arrascaeta saindo da esquerda para o centro, enquanto BH se movimentava por ali e Gabigol e Pedro ocupavam os zagueiros.
A ideia era empurrar o adversário para trás e crescer o nível da pressão.
O risco era uma defesa mais desprotegida, especialmente na transição e principalmente no lado direito, que agora tinha Everton Ribeiro como jogador mais aberto — justamente no setor mais forte do Inter.
Mas, aparentemente, Rogério tinha uma jogada específica na cabeça. Um movimentação pensada.
Logo depois da expulsão, ele chama Gabigol para explicar a ideia. Pouco depois, chama o camisa 9 e Everton, usando agora a prancheta para detalhar os movimentos.
É difícil cravar exatamente qual era a jogada pensada por Rogério Ceni. Mas podemos identificar os padrões de movimentação do time depois das mudanças. Um mesmo tipo de jogada começa a acontecer repetidamente, acompanhadas dos gritos e orientações do treinador.
A bola precisa chegar rapidamente em Everton Ribeiro. A partir daí, Gabigol encosta saindo do centro e Gerson se projeta. Qual era o objetivo exato? A bola deveria chegar a Gerson? Abrir espaço para Arrascaeta no meio?
Ouça os gritos de Rogério Ceni…
O Flamengo cresce, pressiona, preocupa a defesa do Inter, mas a tal jogada não encaixa. Até que o Inter, tão preocupado em não oferecer contra-ataques ao longo do campeonato, se desestrutura e oferece a chance…
O gol sai e Rogério Ceni imediatamente reverte as mudanças. De certa forma, “tira seu goleiro-linha”, já que o objetivo havia sido alcançado e não valia mais a pena correr tantos riscos.
Analisar depois é sempre mais fácil. Deu certo elogia, não deu, crucifica.
Tanto o @obrunopet como eu achamos a formação bastante curiosa. Na hora do jogo, não necessariamente teríamos feito a mesma coisa, mas há uma diferença fundamental...
O time do treinador vai a campo, assume riscos, enquanto o do analista e o do torcedor ficam apenas na imaginação. Rogério agiu e deu certo.
Talvez sua jogada não tenha saído perfeitamente como planejado, mas ele acabou sendo recompensado pela ousadia.
No Hockey, há uma dinâmica parecida com essa do goleiro-linha no futsal. Inclusive, logo depois do jogo recebi uma mensagem do @URBe que dizia “Ceni meteu o power play do hockey”
A ideia é mais ou menos a mesma.
Mas há uma pergunta interessantíssima a ser feita: a partir de que momento vale a pena arriscar tudo com o goleiro-linha? Todo treinador faz isso faltando 30 segundos, nenhum faz faltando três minutos.
Qual é, então, o momento ideal de arriscar?
É bacana trazer o Hockey para a conversa porque não conheço nenhum estudo sobre isso no futsal, mas há uma publicação interessantíssima sobre o esporte gelado.
Dois pesquisadores, Cliff Asness e Aaron Brown, se propuseram a calcular estatisticamente os riscos e benefícios da estratégia, a fim de responder justamente essa pergunta.
A conclusão deles (que não é absoluta, mas é o resultado dos modelos matemáticos construídos) é estarrecedora: perdendo por um gol, o time deveria colocar o goleiro-linha faltando SEIS minutos para o fim!
Nunca, em hipótese alguma, nenhum treinador profissional fará isso. Sabe por quê?
Porque o risco é grande demais. Se der errado, o time pode tomar uma goleada e ele será crucificado, chamado de professor-pardal (ou qualquer equivalente em inglês) e louco.
Alto benefício, alto risco. É preciso coragem.
Rogério Ceni não esperou até os minutos finais para se lançar ao ataque. Com a expulsão, veio a brecha e ele aproveitou. Foi com tudo. Colocou o goleiro-linha. Deu certo — até bastante rápido.
A decisão lembra outro jogo importante do Flamengo, quase 15 anos atrás.
Assim que Valdir Papel foi expulso, Ney Franco trocou o zagueiro Toró por Obina, desmontou o 3-6-1, dominou o Vasco e ganhou a Copa do Brasil.
Coragem, teu nome é Flamengo!
Mas tudo isso é teoria. O jogo não se desenrola na prancheta, mas no campo.
Para entender de fato o que aconteceu na prática, passo a palavra para o sempre certeiro @obrunopet
Aqui, obviamente, rolou um erro que passou na revisão. Toró não era zagueiro, mas volante...
Queria deixar mais claro um ponto aqui... Eu não quis dizer que a prática padrão no hockey é puxar o goleiro-linha faltando 30 segundos, mas sim que essa decisão é fácil faltando 30 seg.
"Qualquer treinador faria faltando 30 seg, nenhum faria faltando 3 min" seria mais claro
• • •
Missing some Tweet in this thread? You can try to
force a refresh
A temporada 2007 marcava a volta do Flamengo à Libertadores da América.
Depois de alguns anos fora, o clube voltava a sonhar depois da conquista da Copa do Brasil em 2006. Transformou o título em obsessão e, numa doce ilusão, reforçou o elenco em busca do caneco.
Sim, o time titular do Flamengo em busca da América tinha Bruno, Léo Moura, Irineu, Angelim e Juan; Paulinho, Claiton, Renato Abreu e Renato Augusto; Roni e Souza.
Moisés, Jailton, Leandro Salino, Léo Lima e Juninho Paulista também eram peças importantes do elenco.
Olhando hoje, com a sabedoria que o distanciamento do tempo nos oferece, parece loucura, mas o rubro-negro iniciou o ano falando realmente em chegar longe na competição continental.
Por incrível que pareça (hoje), passou pela fase de grupos com a segunda melhor campanha: 5V e 1E
O Inter de Abel Braga conseguiu uma sequência de nove vitórias consecutivas, assumiu a liderança goleando o São Paulo e chega à penúltima rodada mais vivo do que nunca. A final de domingo promete. O rubro-negro agora se pergunta: como joga o Inter?
Para começar, vamos olhar os números — sempre fazendo aquela ressalva importante de que as estatísticas são muito úteis para entender o jogo, mas precisam ser analisadas levando em conta o contexto de cada equipe e do campeonato.
Já surgem algumas conclusões interessantes...
A começar pela posse de bola. O Flamengo é, ao lado do Atlético-MG, o time que mais gosta da bola no campeonato. O Inter aparece em quinto, quase empatado com o Grêmio, por exemplo, que é considerado um time de muito mais posse…
Jogo é jogado e lambari é pescado. Não dá pra garantir resultado no futebol. Nesse campeonato, então, não tem jogo ganho.
Mas não dá para perder assim. É inacreditável ver o time indo de inoperante a inexistente ao longo de 90 minutos. Não há lógica que explique.
É um erro analisar o time só com base no que a gente quer.
Precisamos tentar entender o que o time quer. Isso envolve tanto o treinador quanto os jogadores.
Mas o que o Flamengo quer?!
Tomar decisões em um campo de futebol é difícil justamente porque cada decisão tem consequências.
Do sofá de casa, a gente diz "era só fazer isso", mas a nossa ideia não é testada pelo cruel encontro com a realidade. O treinador e os jogadores, sim, vivem essa pressão.
Essa foto circulou mais cedo pela internet. Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, estudando vídeos dos jogos do Flamengo.
Um detalhe não fugiu do olhar dos mais atentos: o nome do vídeo. "Perda Zona Alta" era o título do compilado.
O que pode querer dizer?
É comum que os bons treinadores estudem adversários usando vídeo.
Muitas vezes, compartimentam o jogo em vários pequenos pedaços para encontrar padrões. Ao separar um compilado de "perdas de bola em zona alta", o Palmeiras está procurando detalhes de uma situação específica.
A tal "perda em zona alta" representa nada mais do que todas as vezes que o Flamengo perdeu a bola no chamado "terço final", ou seja, a zona de ataque.
Abel e sua comissão querem saber como o time se comporta nessas situações para encontrar onde estão as brechas.
O São Paulo venceu com uma jogada ensaiada de escanteio. Mérito dos jogadores e também de Fernando Diniz e sua equipe.
Mas o detalhe mais legal passa despercebido: a jogada foi pensada especificamente pra esse jogo...
Fernando Diniz e sua equipe técnica estudaram direitinho o adversário.
Veja os escanteios cobrados contra o Sport nos últimos quatro jogos. Veja onde sempre tem um buraco na marcação...
O que o SPFC fez? Usou cinco caras arrastando a defesa para perto do gol e colocou Luciano (canhoto) longe do bloqueio. Na hora certa, correu para o espaço vazio.
O espaço que SABIAM que estaria lá.
A cobrança veio aberta e rápida, perfeita para a finalização.
Todo mundo sabe que o principal desafio do Flamengo é ajustar a defesa. O problema não vem de hoje: desde o início do ano o setor não vem bem. Mas agora, no momento mais agudo da temporada, é uma necessidade latente, a prioridade número 1 de Rogério Ceni.
Há problemas coletivos, envolvendo o time todo. Se a marcação na frente não está ajustada, a bola chega limpa para cima dos zagueiros. Se há muito espaço entre os setores, a zaga fica exposta… Todos já sabemos disso