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12 Mar, 31 tweets, 7 min read
Ah, a posse de bola. Tão falada, tão debatida e às vezes tão polêmica. Tão desejada por uns, tão desprezada por outros…

Há muito a se falar sobre o assunto, mas o cenário do futebol brasileiro atual certamente vai te surpreender.

Segue o fio e vamos ver onde vai dar...
O mundo do futebol passou por uma revolução há pouco mais de uma década. Todo mundo queria a bola.

O melhor jeito de atacar? Ficar com a bola por longos períodos.
O melhor jeito de defender? Ficar com a bola por longos períodos.
O Barcelona, claro, era a síntese desse movimento. Um futebol vistoso, ofensivo, quase mágico, que encantava o mundo. Todos pareciam querer copiar.

A seleção espanhola seguiu a fórmula, mas tirou agressividade, deixou o jogo mais chato e, ainda assim, alcançou um sucesso inédito
Quando o time de Messi venceu o Rayo por 4x0 em 2013, a manchete principal não falava sobre a goleada, mas sobre um fato peculiar: depois de 316 jogos, o Barça havia ficado menos tempo com a bola que o adversário.

sports.ndtv.com/football/barce…
O mundo queria jogar assim. Na Premier League, por exemplo, o percentual de acertos de passes aumentou de 70% para 81% em apenas dez anos!

A maneira de jogar estava se transformando radicalmente e até o futebol inglês agora queria colocar a bola no chão!
Mesmo com tantas transformações na maneira de jogar durante a última década, a tendência de valorização da posse — especialmente pelos clubes mais dominantes em cada país — ainda não se esgotou. Pelo contrário, de certa forma vem se acentuando.

towardsdatascience.com/analysing-pass…
Enquanto isso, a era da posse radical trouxe consigo a não-posse radical. Entendendo a tendência do momento, alguns times optaram pelo caminho oposto, se livrando da bola para montar armadilhas defensivas.

Isso esticou ainda mais a disparidade nas estatísticas de posse.
A grande mudança, porém, veio na nossa forma de ver e pensar o jogo.
Na década de 1990, as transmissões da Globo sempre mostravam o número de passes errados de cada equipe. Um comentário sempre seguia: “tal time errou mais, mas é natural, já que teve mais a bola”

Parava por aí.
Quase de repente, passamos a falar incessantemente sobre o percentual de posse, o número de passes trocados, percentuais de passes certos, tipos de passe (longos, curtos, progressivos, passes-chave, pré-assistências) etc.
No entanto, o sábio treinador italiano, Carlo Ancellotti, já dizia: “Albert Einstein já dizia que nem tudo que pode ser contado conta, e nem tudo que conta pode ser contado. A posse de bola sozinha não vence o jogo.”
De fato, ela é apenas ferramenta. A ferramenta mais importante do jogo, claro, mas ainda é apenas um meio para o objetivo final.

O interessante é entender como essa ferramenta é usada — e o quão útil é — aqui no Brasil.
Futebol é incrível justamente porque um time pode nem ver a cor da bola por 90 minutos e vencer. Mas isso costuma ser exceção. Quero entender aqui quais são as regras!
Vamos aos números! Eu sei que pode parecer chato, mas prometo que tem coisas interessantes aí.

(Antes, um pequeno aviso: estou usando as estatísticas do @InStatFootball para 379 partidas do BR20. O jogo Athletico-PR 2x1 Goiás não está disponível.)
Em todo o campeonato, tivemos 170 vitórias dos mandantes (VM) (44,8%), 108 empates (E) (28,5%) e 101 vitórias dos visitantes (VV) (26,6%). Esses números são importantes para servir como base de comparação global.
Em 70 jogos (18.5% do total), tivemos uma posse de bola extremamente equilibrada, com uma diferença menor que 5% entre os dois times (ou seja, no máximo 52.5% contra 47.5%)

Nesses, tivemos 39 VM (55,7%), 13 E (18,5%) e 18 VV (25,7%)
Em 174 jogos (45.9% do total), o mandante teve mais posse de bola (com uma diferença maior ou igual a 5%). Como o percentual é parecido com o total de vitórias dos mandantes (VM), um primeiro olhar desatento pode até sugerir uma correlação: mandantes têm mais a bola e ganham mais
Olhando só para esses 174 jogos, no entanto, a coisa começa a ficar interessante…

Foram 66 VM (38%), 54 E (31%) e 54 VV (31%).

Ou seja, quando os mandantes têm mais a bola, eles ganham menos que a sua própria média global!
Mas não para por aí. Em 20 jogos o mandante teve mais de 65% da posse de bola.

Foram 6 VM (30%), 6 E (30%) e 8 VV (40%)!

Quanto mais os mandantes têm a bola, menor o índice de vitória!
Agora vamos olhar para o oposto… Quando os visitantes têm muito mais posse de bola (65% ou mais)

Surpreendentemente, acontece mais vezes. Foram 24 jogos no total, com 15 VM (62.5%), 8 E (33,3%) e 1 VV (4.2%)
É isso mesmo, nas 24 vezes que o time visitante conseguiu ter muito mais posse que o mandante, só conseguiu ganhar UMA vez!!!!!!

(35%) Corinthians 1x2 Atlético-MG (65%)
As cinco maiores “goleadas de posse” dos visitantes terminaram em vitória dos mandantes:
(26%) Sport 1x0 Fluminense (74%)
(27%) Vasco 3x2 Atlético-MG (73%)
(27%) Goiás 1x0 Internacional (73%)
(28%) Goiás 1x0 Atlético-MG (72%)
(28%) Ceará 1x0 Fortaleza (72%)
Ou seja, nos 44 jogos em que um time conseguiu dominar completamente a posse (com 65% ou mais), apenas 7 terminaram com vitória do time que ficou com a bola, 14 terminaram empatados e 23 terminaram com vitória do time que não teve a posse!
É um resultado muito categórico, mas também é preciso deixar claro que às vezes esses jogos são condicionados por um gol cedo e o resultado final da estatística de posse de bola é menos fruto das características dos times e mais reflexo das circunstâncias…
O confronto do segundo turno entre os dois times que mais ficavam com a bola no campeonato, por exemplo, terminou assim:

(34%) Atlético-MG 4x0 Flamengo (66%)

Muito, claro, porque o Atlético conseguiu fazer 2x0 logo no começo.
O próprio Flamengo teve mais posse de bola que o adversário em todos os jogos em casa, menos um:

(47%) Flamengo 4x3 Bahia (53%) — quando Gabigol foi expulso logo no comecinho.
As goleadas, aliás, também revelam coisas interessantes. Especialmente as aplicadas pelos visitantes.

Nos 12 jogos em que um visitante venceu por três gols ou mais de diferença, teve mais posse em apenas 4 (33,3%).
Desses quatro jogos em que o visitante teve mais posse e goleou, três foram do Flamengo:

(41%) Goiás 0x3 Flamengo (59%)
(40%) Corinthians 1x5 Flamengo (60%)
(38%) Sport 0x3 Flamengo (62%)
Outro caso curioso é o confronto entre Ceará e Vasco. Ambos foram goleados em casa, justamente quando tiveram mais posse.

(58%) Ceará 0x3 Vasco (42%)
(66%) Vasco 1x4 Ceará (34%)

Se fechar e sair no contra-ataque. É assim que boa parte dos times brasileiros fica confortável.
Quando os times da casa goleiam, aí sim costuma ser por mais por imposição com a bola. Nos 28 jogos em que o mandante conseguiu vencer por três ou mais gols de diferença, teve mais posse em 16.
Aquele imaginário do futebol brasileiro vistoso, ofensivo e obcecado pela bola — a melhor amiga do jogador — ficou para trás. A dificuldade de abrir espaços e furar retrancas impõe uma realidade: ganha quem erra menos. E quem tem a bola acaba tendo mais chance de errar.
Há quem desdenhe da ideia de ter a bola, diga que é besteira e afirme preferir “posse de taças à posse de bola”.

Quem pode culpá-los? Afinal, no Brasil atual, ter o controle da rechonchuda não significa necessariamente ter o controle do jogo, muito menos do resultado.

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13 Mar
Quatro gráficos para falar rapidinho sobre a produção ofensiva e defensiva dos times no Brasileirão 2020... ImageImageImageImage
Quero fazer algumas observações rápidas, mas vai uma explicação breve sobre o que é xG e xGA para quem ainda não sabe.

O desafio é medir a qualidade das chances criadas por cada time. Afinal, "grande chance" é um conceito meio abstrato que coloca muita coisa no mesmo balaio.
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24 Feb
Tanto falaram que “o Flamengo não foi líder em nenhuma rodada”...

Assim como um bom maratonista, no entanto, o rubro-negro assumiu a ponta na reta final com a vitória sobre o Inter no Maracanã.

Conversei bastante com o @obrunopet e decidimos contar juntos a história desse jogo.
Comecei citando maratonas, mas eu quero falar mesmo é de outro esporte, o futsal.

Para quem gosta do jogo, é sempre um momento especial quando um dos times resolve usar uma famosa e arriscada estratégia: o goleiro-linha.
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22 Feb
A temporada 2007 marcava a volta do Flamengo à Libertadores da América.

Depois de alguns anos fora, o clube voltava a sonhar depois da conquista da Copa do Brasil em 2006. Transformou o título em obsessão e, numa doce ilusão, reforçou o elenco em busca do caneco.
Sim, o time titular do Flamengo em busca da América tinha Bruno, Léo Moura, Irineu, Angelim e Juan; Paulinho, Claiton, Renato Abreu e Renato Augusto; Roni e Souza.

Moisés, Jailton, Leandro Salino, Léo Lima e Juninho Paulista também eram peças importantes do elenco.
Olhando hoje, com a sabedoria que o distanciamento do tempo nos oferece, parece loucura, mas o rubro-negro iniciou o ano falando realmente em chegar longe na competição continental.

Por incrível que pareça (hoje), passou pela fase de grupos com a segunda melhor campanha: 5V e 1E
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19 Feb
O Inter de Abel Braga conseguiu uma sequência de nove vitórias consecutivas, assumiu a liderança goleando o São Paulo e chega à penúltima rodada mais vivo do que nunca. A final de domingo promete. O rubro-negro agora se pergunta: como joga o Inter?
Para começar, vamos olhar os números — sempre fazendo aquela ressalva importante de que as estatísticas são muito úteis para entender o jogo, mas precisam ser analisadas levando em conta o contexto de cada equipe e do campeonato.

Já surgem algumas conclusões interessantes...
A começar pela posse de bola. O Flamengo é, ao lado do Atlético-MG, o time que mais gosta da bola no campeonato. O Inter aparece em quinto, quase empatado com o Grêmio, por exemplo, que é considerado um time de muito mais posse…
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24 Jan
Jogo é jogado e lambari é pescado. Não dá pra garantir resultado no futebol. Nesse campeonato, então, não tem jogo ganho.

Mas não dá para perder assim. É inacreditável ver o time indo de inoperante a inexistente ao longo de 90 minutos. Não há lógica que explique.
É um erro analisar o time só com base no que a gente quer.

Precisamos tentar entender o que o time quer. Isso envolve tanto o treinador quanto os jogadores.

Mas o que o Flamengo quer?!
Tomar decisões em um campo de futebol é difícil justamente porque cada decisão tem consequências.

Do sofá de casa, a gente diz "era só fazer isso", mas a nossa ideia não é testada pelo cruel encontro com a realidade. O treinador e os jogadores, sim, vivem essa pressão.
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21 Jan
Essa foto circulou mais cedo pela internet. Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, estudando vídeos dos jogos do Flamengo.

Um detalhe não fugiu do olhar dos mais atentos: o nome do vídeo. "Perda Zona Alta" era o título do compilado.

O que pode querer dizer?
É comum que os bons treinadores estudem adversários usando vídeo.

Muitas vezes, compartimentam o jogo em vários pequenos pedaços para encontrar padrões. Ao separar um compilado de "perdas de bola em zona alta", o Palmeiras está procurando detalhes de uma situação específica.
A tal "perda em zona alta" representa nada mais do que todas as vezes que o Flamengo perdeu a bola no chamado "terço final", ou seja, a zona de ataque.

Abel e sua comissão querem saber como o time se comporta nessas situações para encontrar onde estão as brechas.
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