[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 1: QUEM TEM A BOLA]
O Brasileirão acabou, mas ainda há muito a ser estudado, desvendado e debatido. Começa aqui, então, uma série sobre os números do campeonato.
Na primeira parte, a boa e velha posse de bola — e muita coisa além dela
Segundo o @InStatFootball, essa foi a posse de bola média das equipes. O resultado não é nada surpreendente.
Saber quem ficou com a bola é importante para avaliar tanto estilo de jogo quanto performance, mas a simples média não é suficiente...
Afinal, a posse de um time pode variar muito de um jogo para o outro.
Se o TIME X fica com 70% da posse em metade dos jogos e 30% na outra metade, enquanto o TIME Y tem sempre 50%, a média dos dois será igual, mas a análise deve ser totalmente diferente.
Pegue Flamengo e Internacional como exemplo.
O time carioca não só tinha uma média maior de posse de bola, mas também variava bem menos.
O Inter, inclusive, chegou a ter sete jogos com menos de 40% do tempo de bola no pé.
Por isso, trago aqui também um ranking da variância da posse. Quanto menor o número, mais constante foi o time, independente de ter ficado muito ou pouco com a bola.
Os dois exemplos anteriores são os dois extremos do campeonato.
O Flamengo, de fato, conseguiu controlar a posse na imensa maioria dos jogos. Teve mais de 55% — uma diferença bem razoável — em 29 das 38 rodadas.
Enquanto isso, o Santos conseguia se impor muito mais na Vila e o Bragantino ficava com a bola fora de casa.
O Atlético-MG teve exatamente a mesma média de posse do Flamengo, mas variou mais, o que significa que teve mais jogos com domínio absoluto, acima de 65%.
Toda essa diferença, no entanto, veio fora de casa.
É possível que esse efeito tenha a ver com a estratégia dos adversários, que perceberam a fragilidade do time de Sampaoli aos contra-ataques e decidiram entregar-lhe a bola para sair apenas em velocidade
De fato, o Atlético-MG chegou a ter uma sequência incrível de seis jogos com 73%, 62%, 63%, 72%, 68% e 67% de posse já na reta final do campeonato — média de 68%, dez pontos percentuais acima da sua média geral na competição.
Saiu com apenas oito pontos: 44% de aproveitamento.
Afinal, nem sempre posse e resultados estão intimamente ligados, especialmente no Brasil, como levantei aqui:
O @CcBatatinha trouxe um outro índice muito importante, que ele chamou de Domínio Territorial.
Além de medir quanto cada um fica com a bola, a ideia é avaliar quantos passes consegue trocar no ataque e impedir que o adversário troque no seu ataque.
Aliás, esse será um tema comum nessa série: os dois times ocupam um universo bem particular no campeonato... Mas vamos aos poucos...
De fato, olhando para todos os passes certos dentro de cada jogo, Flamengo e Atlético-MG foram os que mais trocaram passes e os que menos permitiram que os adversários trocassem.
Olhando o número de passes certo por minuto que o time têm a bola, alguns estilos emergem.
O Grêmio, que eliminou o São Paulo da Copa do Brasil tirando onda pela sua "objetividade" foi, na verdade, o time de construção mais paciente. Repare no contraste com o Inter, por exemplo.
Mas nem todo passe é igual. Flamengo e Atlético-MG foram disparados os dois times que mais tentaram passes-chave nos jogos. Mesmo olhando por minuto de posse de bola, os dois continuam no topo da lista. O Grêmio, por outro lado, arriscava pouco.
Por fim, existe uma última maneira de olhar para a posse que é bastante informativa.
Um time pode ter um minuto com a bola, mas faz total diferença se é um minuto contínuo trocando passes ou doze posses de cinco segundos, certo?
O jogo fica muito mais quebrado.
Por isso, venho desenvolvendo uma métrica chamada QUEBRA DA POSSE. Independente de ter a bola por muito ou pouco tempo dentro de um jogo, quão contínua foi essa posse?
Quanto maior o número, mais a posse do time é picotada.
O Fortaleza, por exemplo, tem menos tempo de bola no pé do que o Santos, o Inter e o Palmeiras. Quando consegue ficar com ela, no entanto, tem um jogo mais paciente e consegue mantê-la por períodos mais longos.
Já os quatro primeiros no ranking não são surpresa para ninguém...
O que talvez seja surpreendente é o ranking defensivo dessa métrica. Além de terem pouquíssimo tempo de bola no pé, os adversários de Flamengo e Atlético-MG têm a posse quebrada o tempo todo. Assim, conseguem poucas sequências longas de ataque.
Enquanto isso, o Fortaleza não incomodava tanto os adversários e deixava que mantivessem a bola sem muita quebra. Já o RB Braga, com um futebol intenso e ainda levemente descontrolado, teve a posse muito quebrada, mas também quebrave muito a posse dos adversários. Jogo frenético!
No fim das contas, a bola é a principal ferramenta do jogo. Quando, quanto e como cada time a tem ajuda muito a desvendar estilos e entender mais sobre o jogo. Só precisamos cavar um pouco mais do que a média de posse: ela é só a ponta do iceberg.
• • •
Missing some Tweet in this thread? You can try to
force a refresh
Um fator que não pode ser ignorado nessa temporada é a pandemia do coronavírus, que tornou todos os times mais instáveis e tirou as torcidas dos estádios. Muita gente previu um desaparecimento do "fator casa". De fato, houve uma queda de rendimento dos mandantes, mas nada absurdo
Quatro gráficos para falar rapidinho sobre a produção ofensiva e defensiva dos times no Brasileirão 2020...
Quero fazer algumas observações rápidas, mas vai uma explicação breve sobre o que é xG e xGA para quem ainda não sabe.
O desafio é medir a qualidade das chances criadas por cada time. Afinal, "grande chance" é um conceito meio abstrato que coloca muita coisa no mesmo balaio.
Um chute sem goleiro tem mais chance de ser gol do que uma cabeçada da marca ou pênalti ou um chute da intermediária. Então a proposta foi criar um modelo matemático que atribui um valor para cada finalização.
Tanto falaram que “o Flamengo não foi líder em nenhuma rodada”...
Assim como um bom maratonista, no entanto, o rubro-negro assumiu a ponta na reta final com a vitória sobre o Inter no Maracanã.
Conversei bastante com o @obrunopet e decidimos contar juntos a história desse jogo.
Comecei citando maratonas, mas eu quero falar mesmo é de outro esporte, o futsal.
Para quem gosta do jogo, é sempre um momento especial quando um dos times resolve usar uma famosa e arriscada estratégia: o goleiro-linha.
A ideia é simples. Precisando do resultado — em geral se estiver perdendo nos minutos finais —, o treinador tira seu goleiro e coloca um jogador de linha no gol. Ele pode pegar com as mãos, mas o objetivo é usar os pés.
A temporada 2007 marcava a volta do Flamengo à Libertadores da América.
Depois de alguns anos fora, o clube voltava a sonhar depois da conquista da Copa do Brasil em 2006. Transformou o título em obsessão e, numa doce ilusão, reforçou o elenco em busca do caneco.
Sim, o time titular do Flamengo em busca da América tinha Bruno, Léo Moura, Irineu, Angelim e Juan; Paulinho, Claiton, Renato Abreu e Renato Augusto; Roni e Souza.
Moisés, Jailton, Leandro Salino, Léo Lima e Juninho Paulista também eram peças importantes do elenco.
Olhando hoje, com a sabedoria que o distanciamento do tempo nos oferece, parece loucura, mas o rubro-negro iniciou o ano falando realmente em chegar longe na competição continental.
Por incrível que pareça (hoje), passou pela fase de grupos com a segunda melhor campanha: 5V e 1E
O Inter de Abel Braga conseguiu uma sequência de nove vitórias consecutivas, assumiu a liderança goleando o São Paulo e chega à penúltima rodada mais vivo do que nunca. A final de domingo promete. O rubro-negro agora se pergunta: como joga o Inter?
Para começar, vamos olhar os números — sempre fazendo aquela ressalva importante de que as estatísticas são muito úteis para entender o jogo, mas precisam ser analisadas levando em conta o contexto de cada equipe e do campeonato.
Já surgem algumas conclusões interessantes...
A começar pela posse de bola. O Flamengo é, ao lado do Atlético-MG, o time que mais gosta da bola no campeonato. O Inter aparece em quinto, quase empatado com o Grêmio, por exemplo, que é considerado um time de muito mais posse…