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29 Mar, 33 tweets, 10 min read
Há exatos 18 anos, Deco estreava pela seleção portuguesa — sob o comando de Felipão, marcando o gol da vitória contra o Brasil. Só isso.

Um craque que merece ser lembrado. Image
Para a maioria do público brasileiro, Deco era um ilustre desconhecido até 2004, quando liderou o Porto ao surpreendente título da Champions League, inclusive marcando o segundo gol da final.

(O primeiro havia sido marcado por Carlos Alberto, mas essa é outra história) Image
A essa altura, porém, ele já era grande em Portugal. Não só pelo futebol, mas também pela polêmica envolvendo sua nacionalidade.

Afinal, Deco saiu rumo ao Benfica aos 19 anos de idade, mas não tinha qualquer vínculo familiar com Portugal.
Nascido em São Bernardo do Campo, ele apareceu bem na Copinha em 1997, levando o Corinthians até a final.

Pouco depois, foi para Portugal, mas não ficou no clube e acabou emprestado ao pequeno Alverca. Image
"Num primeiro momento foi uma frustração, mas depois percebi que talvez fosse mais uma ilusão da minha cabeça, pensar que viria do Brasil — apesar de estar no Corinthians, um clube grande — para jogar diretamente no Benfica.", disse em 2019.

24.sapo.pt/desporto/artig…
E a história de Deco poderia ter acabado aí, como tantas outras.

Talvez quem trabalhava comigo (...) poderia ter dito a verdade. Não teria tido problema nenhum, era uma questão de escolha ou não. A única coisa com que fiquei chateado foi não saber a verdade."
Na temporada seguinte, se transferiu para o Salgueiros em uma negociação complicada, que envolveu clubes no Brasil e a chegada de Nandinho, então jogador do Salgueiros, ao Benfica. A bagunça era tão grande que Nandinho foi terminar a temporada defendendo as cores do Alverca. Image
Deco se destacava quando entrava em campo pelo novo clube, só não entrava muito, pois uma sequência de lesões o atrapalhava. Mesmo assim, o poderoso Porto resolveu apostar naquele meia brasileiro.

Ele chegou já no final da temporada, mas a tempo de participar do histórico penta. Image
Dali, Deco só cresceu.

Quando Mourinho chegou ao clube, no meio da temporada 2001/02, identificou um punhado de jogadores incontestáveis e, claro, Deco estava entre eles. Não só isso, Deco era o grande nome do meio-campo, o verdadeiro camisa 10.
"Todos [os treinadores] me ajudaram de alguma forma na evolução e no crescimento, mas talvez o José Mourinho tenha sido o que mais me impressionou no sentido do jogo, do conhecimento. Numa altura em que realmente revolucionou muito aquela que era a forma de ver o jogo, o treino." Image
A temporada seguinte — a primeira completa com Mourinho — talvez tenha sido a mais radicalmente transformadora de sua carreira. No primeiro semestre de 2003, três coisas fundamentais aconteceram.
Em maio, o Porto venceu o Celtic na prorrogação e se sagrou campeão da Copa da UEFA, encerrando um jejum dos clubes portugueses em cenário europeu que já durava 16 anos. Image
O segundo momento tem a ver com o seu passaporte.

Como não tinha nenhuma relação anterior com Portugal, Deco teve que esperar seis anos desde a sua chegada, como manda a lei, para receber a cidadania.

E foram seis anos exatos — talvez até um pouco menos —, tamanha a pressa!
Deco, portanto, levantou a Copa da UEFA já como atleta português. Afinal, três meses antes, em fevereiro, havia completado o processo de naturalização e recebido o passaporte.

publico.pt/2003/02/14/des…
Dois dias antes de confirmada a sua nova nacionalidade, um jogo marcante: a seleção portuguesa perdeu para a Itália por 1x0 em um amistoso disputado em Genova.

O gol de Bernardo Corradi não teve a menor importância. Relevante era o que acontecia no banco português. Image
Aquela era a estreia de Luiz Felipe Scolari no comando de Portugal.

Brasileiro e atual campeão do mundo, Felipão foi fundamental para a chegada de Deco à seleção. Image
A própria chegada do técnico não foi simples. Muita gente não gostou da ideia de trazer um estrangeiro — ainda mais um que ganhava MUITO mais que seus antecessores.

Porém, a um ano da Euro 2004, que seria disputada em casa, a Federação Portuguesa decidiu investir tudo.
Além disso, aquele era o momento de amadurecimento da Geração de Ouro de Portugal.

O país havia sido campeão mundial sub-20 em 1989 e 1991 e depositava suas fichas naquele conjunto de jogadores. Image
Rui Costa e Figo, os grandes craques daquela geração, tinham agora 30 anos de idade. Um jogava no Milan, o outro no Real Madrid.

Quem ousaria trazer um brasileiro para esse meio-campo? Image
Aliás, os próprios jogadores não gostaram da ideia. Rui Costa disse ser contra "as seleções – todas, e não só Portugal – naturalizarem jogadores, pois se chama seleção nacional. Eu nunca o faria, pois tenho grande amor à minha pátria.”

Figo seguiu um discurso parecido. Image
Mas, se havia um homem capaz de bancar a convocação de Deco, era Luiz Felipe Scolari.

Já no primeiro amistoso após a naturalização, ele passou a fazer parte do elenco português. Por coincidência, o adversário era simplesmente o Brasil.
Deco chegou a ser questionado sobre qual hino cantaria.

“Certamente será o português, mas nunca deixarei de ser brasileiro. Uma coisa é a minha terra, onde nasci e tenho família; outra é Portugal, onde fiz carreira e não posso negar que existe grande respeito e carinho por mim” Image
Pauleta abriu o placar aos 7' do primeiro tempo.
Aos 16' do segundo tempo, Deco estava em campo.
Três minutos depois, Ronaldinho empatou de pênalti.

Aos 35', falta para Portugal. Roberto Carlos peita o juiz e é expulso. Muita confusão... Só há um homem concentrado em campo. Image
Deco se apresenta e cobra mal, mas a barreira brasileira abre e Marcos vai com a mão mole. O placar termina 2x1, a primeira vitória de Portugal sobre o Brasil desde 1966 — quando, aliás, era comandado por Otto Glória, outro brasileiro.
Pouco mais de um ano depois, Deco ajudou o Porto a vencer a Champions e a seleção portuguesa a alcançar a final da Euro.

Durante o torneio, barrou Rui Costa e se tornou titular, mas Felipão deu um jeito de colocar os dois juntos em alguns momentos decisivos. Image
Logo depois, foi ao Barcelona e venceu outra Champions.

Aliás, não se engane... Naquela época, o Barça não vencia a Champions toda hora — e tanto Xavi quanto Iniesta precisavam brigar por vaga quando Deco estava em campo. Image
E seguiu fazendo sucesso na seleção. Disputou as Copas de 2006 e 2010, além da Euro 2008.

Sua passagem ajudou na chegada de outros brasileiros ao time português, como Pepe e Liédson. Image
Depois, Felipão foi treinar o Chelsea e fez um pedido especial ao chefe Abramovich: Deco se tornou a primeira contratação do novo técnico.

As lesões e a saída rápida do comandante, no entanto, foram desastrosas para ele. Image
Em 2010, treze anos depois de cruzar o Atlântico pela primeira vez, Deco fez o caminho de volta.

Em três anos, não jogou muitas pelo Fluminense, mas jogou muito.

As lesões atrapalharam muito e Deco só entrou em campo em 45% dos jogos. Quando jogou...

espn.com.br/noticia/351406…
Foi bicampeão brasileiro e terminou a carreira conseguindo adicionar ao currículo o sucesso na terra natal.

Deco era realmente outro nível.
Deco amava a bola e o jogo. Apareceu tarde e teve lesões desde muito cedo, mas chegou onde chegou porque a bola também o amava. No meio-campo, era um craque de primeiro nível.

Aos 36 anos, já não conseguia mais...
"No fundo ninguém quer parar. Mas foi quando foi necessário. Já não estava a ser feliz, estava tendo lesões. Aquela que era a minha paixão de jogar futebol estava me fazendo mal; não conseguia fazer aquilo de que gostava da melhor forma." Image
Em 2014, o Porto de 2004 enfrentou o Barcelona de 2006 em um jogo para celebrar o fim dessa incrível carreira que uniu dois continentes.

Deco jogou um tempo de cada lado e fez um golaço com cada camisa. Era um prazer vê-lo jogar! Image

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