Seguindo a série sobre os números do B20, chegou a hora de falar sobre o campeão. O Flamengo não alcançou a expectativa gerada por 2019, mas o desempenho geral pode ter sido melhor do que muitos acham...
Ali, alguns dados já escancaravam a proposta rubro-negra.
Mas o Brasileirão é longo e cada equipe passa por vários momentos diferentes. Para entender melhor o que levou o Flamengo ao título, vale a pena destacar a arrancada final, quando o time de fato acelerou em busca do título.
Afinal, é evidente que o Flamengo oscilou dentro do campeonato, mas essa não foi uma temporada comum. Com todas as questões impostas pelo calendário e pelo COVID, o Flamengo não liderou até o finalzinho — como muita gente lembrou muitas vezes —, mas sempre esteve ali por perto.
Para muitos, a arrancada de fato começou contra o Grêmio em Porto Alegre. Pessoalmente, acho que a vitória contra o Palmeiras em Brasília foi fundamental.
Mas, nesse recorte, usarei os dez jogos finais, que considero ser uma amostragem razoável para tirar algumas conclusões.
No geral, Flamengo e Atlético-MG frequentaram um universo particular. Foram os times que mais tiveram a bola, os que a tiveram de maneira menos quebrada e também os que mais quebraram a posse dos adversários.
Nesse último quesito, o Fla melhorou ainda mais no final.
Picotando mais o jogo dos adversários, o Flamengo passou a mantê-los ainda mais afastados do próprio gol e fez com que o número de finalizações sofridas e chance cedidas diminuísse consideravelmente — ficando menor do que as melhores médias do campeonato.
O time passou a ser mais proativo sem a bola, colocando mais pressão no portador. Por isso, passou a recuperar mais bolas no campo de ataque.
O Flamengo voltou a "atacar defendendo", ou seja, ficar com a bola já se preparando para o momento da perda.
Isso significava recuperar a bola rápido ou forçar o chutão aleatório, o que garantia o Flamengo no topo do ranking de disputas aéreas vencidas.
Isso porque a defesa sempre pega o chutão de frente e tem melhores condições para vencer a disputa.
Fla e Atlético-MG disputam mais bolas aéreas no campo de defesa do que no de ataque, enquanto Corinthians e Internacional — times que usam mais ligações diretas — são o contrário.
Com isso, o Flamengo conseguiu uma das principais melhorias que precisava, controlando os contra-ataques adversários.
De todos os números, talvez esse seja o mais relevante. Inclusive, foi o ponto que acabou enterrando o Atlético-MG.
Afinal de contas, o ciclo que o Flamengo (assim como o Atlético-MG) tenta impor ao jogo é um ciclo de pressão. Afogado lá atrás, a saída do adversário acaba sendo o contra-ataque. Se o time for frágil defendendo essas situações, o modelo inteiro desaba.
A melhora defensiva, portanto, vai muito além do número de gols sofridos. Esse número é, na verdade, reflexo do resto.
Essa melhora, no entanto, não veio com um sacrifício do outro lado do campo. Muitas vezes, isso acontece: a defesa se desequilibra e, para corrigir o problema, o treinador recua e tira força ofensiva.
Na arrancada final, no entanto, o Flamengo foi ainda mais mortal.
Mas é claro que esse número também é reflexo do resto. O Flamengo se manteve sendo o time que mais entrava no último terço e na área do adversário, além de ser o terceiro que mais finalizava.
Mas três coisas mudaram...
A primeira foi a redução do número de cruzamentos.
O @CcBatatinha já mostrou que o Fla era um dos times que mais jogava por dentro (
). Na reta final, passou a ser o time que menos cruzava no campeonato e isso potencializou muito Gabigol.
O segundo ponto foi o xG por finalização. Ou seja, o número de chances criadas não aumentou, mas a qualidade desses chances chances explodiu! Afinal, nem toda chance é igual.
Vale a pena, inclusive, olhar para o xG a cada rodada.
Em apenas oito partidas, o Flamengo teve xG menor que o do adversário, sendo que em sete delas a diferença foi bem pequena, sugerindo mais um empate que derrota.
Outra maneira de olhar é incluindo o valor acumulado da diferença de xG. Ou seja, a cada rodada, se o time teve um xG maior que o adversário, a linha vermelha sobe. Se foi menor, desce.
Quanto mais alto a linha chega, maior o domínio — pelo menos em tese — sobre os adversários.
E como fica a comparação com os outros postulantes ao título?
Bem... Cada um pode tirar as próprias conclusões, mas fica bem claro que, pelo menos no modelo xG, o Flamengo foi bem mais dominante — e inclusive mais constante.
O terceiro ponto, porém, é o mais crucial: aproveitamento.
O Flamengo melhorou muito a conversão das chances!
Aliás, não só o ataque, mas a defesa também melhorou a eficiência — que ainda foi ruim, mas bem melhor que antes.
E esse foi um problema do Flamengo ao longo de todo o campeonato. Aliás... Me arrisco a dizer que esse foi O problema do Flamengo ao longo de todo o campeonato.
Afinal de contas, esses dois números têm uma característica especial...
Os números de eficiência final (conversão de chances no ataque e na defesa) servem como MULTIPLICADORES para todo o resto.
Ou seja, mesmo que o time faça tudo certo, todas as métricas sejam maravilhosas, mas no fim das contas, tudo depende desses dois números.
Porque o processo para marcar um gol é um funil.
De nada adianta tudo funcionar perfeitamente se a boca do funil estiver entupida.
Ao melhorar um pouco a eficiência (tanto na frente quanto atrás), o Flamengo libertou o potencial do time e o desempenho passou a gerar resultados.
Os números do FUNIL OFENSIVO e do FUNIL DEFENSIVO mostram isso.
Apesar de todas as oscilações e dos momentos ruins, o time de 2020 passou longe, bem longe de ter feito um campeonato ruim. Aliás, muito pelo contrário...
Muitas das críticas ao time foram justas. Em alguns momentos a performance foi abaixo do que era esperado, ainda mais com a experiência de 2019 ainda viva na memória.
No fim do primeiro turno, por exemplo, o Flamengo enfrentou os três principais rivais e fez apenas um ponto!
É muito difícil, porém, levantar o troféu sem ser extremamente eficiente — especialmente no Brasil. É preciso estar muito acima dos demais. Nos números do Brasileirão 2020, o Flamengo esteve. Por isso, chegou à última rodada líder e saiu dela campeão.
Se você curtiu esse conteúdo e curte outras coisas que eu produzo, pode me apoiar a mergulhar de cabeça nessa aventura que é falar sobre futebol. Muita gente não sabe, mas essa não é minha atividade principal. Pelo menos até agora... Chega mais!
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 2: COMO ATACAM E COMO DEFENDEM]
Pense por um minuto: qual foi o time que mais conseguiu invadir a área dos adversários no campeonato passado?
E qual foi o time que menos teve a sua área invadida?
As respostas podem te surpreender...
Na parte 1 da série sobre os números do Brasileirão 2020, falei sobre a posse de bola: quem teve, quem não teve, quanto variou e o que isso significou em termos de resultado.
Agora é a hora de olhar para a forma como os times atacavam e defendiam
Há exatos 18 anos, Deco estreava pela seleção portuguesa — sob o comando de Felipão, marcando o gol da vitória contra o Brasil. Só isso.
Um craque que merece ser lembrado.
Para a maioria do público brasileiro, Deco era um ilustre desconhecido até 2004, quando liderou o Porto ao surpreendente título da Champions League, inclusive marcando o segundo gol da final.
(O primeiro havia sido marcado por Carlos Alberto, mas essa é outra história)
A essa altura, porém, ele já era grande em Portugal. Não só pelo futebol, mas também pela polêmica envolvendo sua nacionalidade.
Afinal, Deco saiu rumo ao Benfica aos 19 anos de idade, mas não tinha qualquer vínculo familiar com Portugal.
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 1: QUEM TEM A BOLA]
O Brasileirão acabou, mas ainda há muito a ser estudado, desvendado e debatido. Começa aqui, então, uma série sobre os números do campeonato.
Na primeira parte, a boa e velha posse de bola — e muita coisa além dela
Segundo o @InStatFootball, essa foi a posse de bola média das equipes. O resultado não é nada surpreendente.
Saber quem ficou com a bola é importante para avaliar tanto estilo de jogo quanto performance, mas a simples média não é suficiente...
Afinal, a posse de um time pode variar muito de um jogo para o outro.
Se o TIME X fica com 70% da posse em metade dos jogos e 30% na outra metade, enquanto o TIME Y tem sempre 50%, a média dos dois será igual, mas a análise deve ser totalmente diferente.
Um fator que não pode ser ignorado nessa temporada é a pandemia do coronavírus, que tornou todos os times mais instáveis e tirou as torcidas dos estádios. Muita gente previu um desaparecimento do "fator casa". De fato, houve uma queda de rendimento dos mandantes, mas nada absurdo
Quatro gráficos para falar rapidinho sobre a produção ofensiva e defensiva dos times no Brasileirão 2020...
Quero fazer algumas observações rápidas, mas vai uma explicação breve sobre o que é xG e xGA para quem ainda não sabe.
O desafio é medir a qualidade das chances criadas por cada time. Afinal, "grande chance" é um conceito meio abstrato que coloca muita coisa no mesmo balaio.
Um chute sem goleiro tem mais chance de ser gol do que uma cabeçada da marca ou pênalti ou um chute da intermediária. Então a proposta foi criar um modelo matemático que atribui um valor para cada finalização.