Muito se fala sobre o "tatiquês", uma língua exótica para versar sobre o futebol, mas que apenas os iniciados têm acesso.
De fato, há muitos jargões no futebol que nem todo mundo entende — assim como há em todas as outras áreas do conhecimento. Quero falar rapidamente sobre...
Na verdade, nosso dia a dia está lotado de "jargões".
Ou pelo menos de palavras e expressões que representam ideias um pouco mais complexas.
A gente fala "casa" para não ter que dizer "espaço com quatro paredes e um teto habitado por pessoas".
É para isso que a linguagem serve. Com esses conceitos que representam a junção de outros conceitos, somos capazes criar atalhos cognitivos para passar uma ideia de dentro de uma cabeça humana para dentro de outra cabeça humana.
Imagina um elefante rosa com asas de borboleta.
Imaginou? Então você está construindo uma imagem mental de algo que nunca existiu, apenas a partir das palavras que eu estou escrevendo aqui!
Já parou para pensar no quão poderoso é esse processo?
Para imaginar, porém, você precisa saber o que é "elefante", "rosa", "asa" e "borboleta". Se esses conceitos não existirem na sua cabeça, já era.
O objetivo de construir conceitos, dos mais simples aos mais complexos, portanto, é facilitar a comunicação.
Acontece que em todas as áreas do conhecimento há aqueles que usam jargões no sentido oposto: para dificultar propositalmente a compreensão, excluir pessoas do debate e parecerem mais inteligentes.
Afinal, a nossa tendência é encarar aquilo que não compreendemos como difícil e a pensar em pessoas que dominam coisas difíceis como sendo pessoas inteligentes.
Mas a verdade é oposta. Einstein dizia: "se você não consegue explicar a uma criança, você não entende o assunto"
Isso não significa "emburrecer" a mensagem. Não significa torná-la mais rasa.
Significa entender as ferramentas e chaves de leitura que estão à disposição do interlocutor e, caso necessário, construir novas ferramentas e chaves de leitura a partir das que ele já tem.
E esse processo é vivo. A linguagem evolui, os termos mudam, a maneira de se comunicar é transformada. Esse processo é natural e no futebol não é diferente.
"Escanteio" era córner e meu pai chama "zagueiro" de "beque" até hoje.
Vejo, portanto, narradores, comentaristas e jornalistas em geral tentando se atualizar. Volta e meia surge esse comentário em um programa ou transmissão de jogo: "antes e falava assim, agora se fala isso", mas normalmente em um tom curioso.
Em geral, o comentário leva mais para o lado de que "é mais chique/elegante/inteligente/moderno falar assim".
Na realidade, não podemos esquecer que novos termos carregam novos conceitos e, portanto, novos significados.
Não há necessidade nenhuma de falar "residência" se você já usa a palavra "casa" e ela te serve bem.
A palavra "lar", no entanto, pode carregar um significado sutilmente diferente, mais apropriado para aquilo que você quer dizer.
É por isso que a gente vê tantas pessoas usando "transição" como sinônimo de "contra-ataque", "reativo" como sinônimo de "retranca" ou "amplitude" como sinônimo de "pelo lado".
O problema é que não são sinônimos.
Fiz um vídeo outro dia sobre "futebol reativo" e porque isso é diferente simplesmente de "defensivo".
Acho um bom exemplo, porque mostra como o debate é muito mais complexo e interessante quando a gente pensa no significado, não na palavra bonita.
Quando, na ânsia de "falar bonito", a gente simplesmente substitui um termo pelo outro, entrando na moda, me parece que cometemos um erro duplo.
Primeiro, deixamos o debate menos interessante por não capturar as nuances possíveis.
Segundo, alienamos o público.
Afinal de contas, eu gostaria que todo mundo entendesse o que é "transição" porque acho um conceito relevante para entender o jogo. Enquanto nem todo mundo entende, é preciso explicar, construir aos poucos.
Substituir simplesmente um pelo outro é só encher o saco das pessoas.
E tem uma frase que eu levo como lema da vida:
"As pessoas não devem ser derrotadas pela linguagem."
A linguagem SERVE às pessoas, às ideias, ao debate, não o contrário. Se a linguagem estiver aí pra excluir e derrotar, já começa tudo errado.
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O Fluminense fez uma boa estreia na Libertadores e empatou com o River no Maracanã. O time foi realmente consistente na sua proposta, mas mostrou, a meu ver, um problema estrutural na maneira como progride com a bola ao ataque.
Vamos explorar mais no fio...
Para falar sobre isso, precisamos falar sobre o passe-falso.
Quando o lateral aciona o ponta no mesmo corredor, coloca o companheiro em uma situação delicada. Afinal de contas, ele recebe de costas, marcado, colado na linha lateral...
Não consegue ir para frente porque a marcação está colada. Não pode ir para fora porque sairia do campo. E tem dificuldade de girar para o meio porque em geral recebe a bola de costas para o campo — ainda mais se for um ponta canhoto na esquerda ou destro na direita.
Seguindo a série sobre os números do B20, chegou a hora de falar sobre o campeão. O Flamengo não alcançou a expectativa gerada por 2019, mas o desempenho geral pode ter sido melhor do que muitos acham...
Ali, alguns dados já escancaravam a proposta rubro-negra.
Mas o Brasileirão é longo e cada equipe passa por vários momentos diferentes. Para entender melhor o que levou o Flamengo ao título, vale a pena destacar a arrancada final, quando o time de fato acelerou em busca do título.
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 2: COMO ATACAM E COMO DEFENDEM]
Pense por um minuto: qual foi o time que mais conseguiu invadir a área dos adversários no campeonato passado?
E qual foi o time que menos teve a sua área invadida?
As respostas podem te surpreender...
Na parte 1 da série sobre os números do Brasileirão 2020, falei sobre a posse de bola: quem teve, quem não teve, quanto variou e o que isso significou em termos de resultado.
Agora é a hora de olhar para a forma como os times atacavam e defendiam
Há exatos 18 anos, Deco estreava pela seleção portuguesa — sob o comando de Felipão, marcando o gol da vitória contra o Brasil. Só isso.
Um craque que merece ser lembrado.
Para a maioria do público brasileiro, Deco era um ilustre desconhecido até 2004, quando liderou o Porto ao surpreendente título da Champions League, inclusive marcando o segundo gol da final.
(O primeiro havia sido marcado por Carlos Alberto, mas essa é outra história)
A essa altura, porém, ele já era grande em Portugal. Não só pelo futebol, mas também pela polêmica envolvendo sua nacionalidade.
Afinal, Deco saiu rumo ao Benfica aos 19 anos de idade, mas não tinha qualquer vínculo familiar com Portugal.
[BRASILEIRÃO 2020 EM NÚMEROS | PARTE 1: QUEM TEM A BOLA]
O Brasileirão acabou, mas ainda há muito a ser estudado, desvendado e debatido. Começa aqui, então, uma série sobre os números do campeonato.
Na primeira parte, a boa e velha posse de bola — e muita coisa além dela
Segundo o @InStatFootball, essa foi a posse de bola média das equipes. O resultado não é nada surpreendente.
Saber quem ficou com a bola é importante para avaliar tanto estilo de jogo quanto performance, mas a simples média não é suficiente...
Afinal, a posse de um time pode variar muito de um jogo para o outro.
Se o TIME X fica com 70% da posse em metade dos jogos e 30% na outra metade, enquanto o TIME Y tem sempre 50%, a média dos dois será igual, mas a análise deve ser totalmente diferente.
Um fator que não pode ser ignorado nessa temporada é a pandemia do coronavírus, que tornou todos os times mais instáveis e tirou as torcidas dos estádios. Muita gente previu um desaparecimento do "fator casa". De fato, houve uma queda de rendimento dos mandantes, mas nada absurdo