Eu era criança quando vovó adoeceu e fomos morar em Serra Grande, interior do interior de Quatipuru, no interior do Pará.
Apesar da mudança, a infância em Quatipuru foi fantástica, no tanto de brincadeira e aventura que vivi, mas nem tudo é boa lembrança
A casa de minha avó era afastada de tudo e todos.
Para o centro do município eram quase duas horas de carro. Os vizinhos que havia, todos moravam na lonjura das coisas do mato.
Perto da casa da avó, de criança, só havia Zeni e Nete, duas irmãs atentadas a dar nó em trilho.
Zeni e Nete sempre me colocavam em bronca, inventando mil brincadeiras malucas e coisas extraordinárias.
E eu, a mais nova, meio que aceitava o comando das irmãs, minhas únicas amigas naquele recanto de mundo perdido, cercado de imensidão, mato e água.
Minha mãe, coitada, se dividia em cuidar da vó e cuidar da casa, e nisso eu ficava meio a deus dará, brincando com os bichos do sítio e rindo das presepadas das meninas.
Talvez por isso, nem tenha percebido quando disse que ia banhar, eu, mais Zeni e Nete, no igarapé.
Minha vó sempre dizia para tomar cuidado com igarapé e mato.
Segundo ela, que nunca saiu dali, ao redor daquele vazio todo havia muito, monte de coisa que os olhos não podiam ver.
E que somente com o tempo se conseguia entender e respeitar.
Naquela época, eu não entendia.
Naquele dia, as meninas propuseram de a gente ir num igarapé que ficava mais distante, uns 2 km dali, porque, segundo ela, era morada da Mãe d'Água.
Eu morria de medo da Mãe d'Água, assim como morria de medo da Matinta - e elas sabiam bem disso.
Apesar de tudo, aceitei.
- E tu vais mesmo, moleque?
- Eu vou!
- Mas tu tens medo da Mãe d'Água - e riram de mim
- Tenho medo, mas voinha disse que basta voltar antes da hora dela, que é seguro.
E, como se duvidassem de mim, foram o caminho todo rindo e tentando me meter medo.
E quando a gente chegou, nem lembrei de pedir licença, nem peguei água na concha da mão pra fazer sinal da cruz, igual mamãe tinha ensinado.
Na ânsia de ver aquela água linda, só quis saber de me divertir, e, de fato, o dia foi bom.
Tomamos banho, pulamos de galho, fizemos tudo
E da diversão ser tanta, e de não termos relógio, que nem existia naquela nossa vivência, calculamos mal a hora e, quando vimos, o sol já mostrava partida.
O fim da tarde chegava e, com aquele, a hora da Mãe d'Água, coisa que nunca me explicaram direito.
Na hora do medo, não há orgulho que persista.
- Nete, Zeni, vamos rápido. Logo mais não tem sol e a gente volta no escuro.
- Ah, mas tá com medo da Mãe d'Água?
- Não - menti - mas pode ter onça, pode ter bicho. Bora rápido, por favor.
Então, nos vestimos e corremos.
Como sempre fizemos nos caminhos curtos no meio do mato, fomos correndo em um atrás do outro, e eu, caçula, fui ficando para trás, as risadas alegras das meninas que, aos poucos, foram sumindo nas curvas da mata e se tornando assustadoras...
Apesar do banho, eu estava cansado.
Quanto mais corria, as pernas pequenas, mais as irmãs pareciam distantes de mim.
No meio do desespero, a mata parecia se fechar cada vez mais, como se o verde quisesse me dar um abraço estranho e não querido, mas, ainda assim, eu corria.
Enquanto isso, de relance, ouvia as risadas das duas, parece que propositalmente mais estridentes, justamente para me assombrar naquela hora solitária.
- Zeniiiiiiii
- Neeeeeeeete
- Me espeeeeerem
Mas, quanto mais eu gritava, mais sozinho ficava, enquanto o sol sumia.
Não sei quanto tempo corri, nem a distância, mas tudo começou a ficar estranho.
Porque a mata em que entramos, para chegar no igarapé, nem era tanta, uns 10 minutos de caminhada...
E eu corria fazia meia hora, no cálculo apavorado que fazia.
Cansado, parei, e foi aí que vi...
No meio daquela mata que escurecia - cercado pelo barulho dos bichos camuflados pelo verde, pelo barulho dos bichos que rastejavam longe dos meus olhos - vi as duas demônias rindo de mim, meio escondidas por trás de um tronca de ouricuri caído no caminho.
Não sei como elas fizeram aquilo, mas, em algum momento da minha correria, se esconderam no caminho e, agora, estavam lá atrás, distantes de mal vê-las.
- Vem aqui, moleque - elas gritavam, enquanto riam aquela risada que parecia estar ao redor de mim.
Enquanto me chamavam, com gritos estridentes e gestos firmes, as duas correram novamente em direção ao igarapé, sem me esperar.
- Zeniii, Neeeete, voltem aqui
Como única resposta, a mata mandava as risadas das meninas, como se as duas estivessem correndo ao meu redor.
Como sempre, elas corriam mais rápido do que eu, mas só via minhas amigas da cintura para cima, como se a noite que chegasse fosse tão traiçoeira que me fizesse ver coisas.
E, quanto mais eu corria, mais elas apareciam distantes de mim, sempre me chamando de volta à água.
No mesmo caminho longo (que na minha memória era curto), elas sempre estavam à minha frente, se escondendo em troncos caídos, arbustos e matos, sempre com os gritos finos e violentos, e as risadas estranhas e altas.
Eu estava absolutamente encantado com aquilo...
Mas ainda lembro de ter pensado em voltar, em deixar as duas ali, mas o que eu devia fazer? Eu era criança, devia ter uns cinco anos, sozinho naquela mata que parecia não acabar, e minha única segurança eram as duas, responsáveis por mim.
Foi quando me vi diante do rio novamente
Naquela hora, não conseguia entender o que tinha acontecido, como as duas podiam ter sido tão rápidas assim, porque, meio minuto antes, eu as tinha visto correndo no meio do mato, rindo da minha cara, gritando, me chamando
E agora, elas estavam lá...
No meio do igarapé, as duas irmãs estavam nuas, sérias, olhando para mim, de pé, na beira.
- Que vocês estão fazendo aí? Bora pra casa.
- Vamos banhar mais um pouco. Entra aqui.
- Não, Nete... Essa hora não tem mais banho, bora!
- Só mais um pouco, moleque. Não tem problema.
Eu não tinha escolha...
A noite já vinha longa, caminhando rápida para engolir o caminho, e eu dependia delas, ainda mais àquela hora.
Mesmo que a volta fosse tortuosa, só sentia segurança se fosse com elas, então, comecei a tirar minhas roupas para voltar à água.
Não sei a razão, mas, naquela hora, comecei a chorar.
Ainda hoje fico pensando se era um transe, se, no fundo, eu sabia o que estava acontecendo, numa réstia de consciência.
E assim me despi, e me preparei para pular, e já estava com os olhos fechados, com o ar tampando o nariz
Foi quando senti um forte puxão pelos cabelos e cai, pelado, na lama da beira do rio.
Acordei do transe com um grito muito brabo:
- QUE C TÁ FAZENDO MOLEQUE
E era Nete, suada, que me segurava forte nos braços, como se a evitar minha perdição...
- Nete...? Zeni...?
- CARAMBA, MOLEQUE, FAZ TEMPO QUE A GENTE ESTÁ TE PROCURANDO.
Perdido, eu via as duas na minha frente e, ao mesmo, tempo, buscava as duas no meio do rio, mas só tive tempo de ver um vulto grande que mergulhava, fazendo onda e sumindo nas águas.
- Mas eu vi vocês aqui, vi vocês atrás de mim, me chamando e gritando comigo...
- Claro que não! Távamos escondidas lá na frente, íamos te assustar, mas, quando a gente viu, tu voltaste correndo pra cá...
E, do nada, acho que todos tomamos consciência do que havia acontecido.
E corremos...
No meio daquela mata horrenda, com um barulho infernal de bichos ao redor, corremos desesperados, de mãos dadas, pois sabíamos que havia, ali, encantamento de coisa d'água, de coisa da mata, e era nossa vida em risco.
Nem sei como corremos tão rápido. Só sei que, pouco depois, estávamos na cozinha da casa, molhados, chorando de desespero...
Quando contamos para minha mãe, vovó se desesperou, pois sabia dos feitiços da Mãe d'Água e do pouco que escapamos.
E lembro, até hoje, do abraço cheio de medo de minha mãe, enquanto a voz da minha avó rondava ao lado, dizendo
"Crianças, vocês escaparam por pouco, foram encantados, e por pouco não estavam no fundo agora, a gente chorando, esperando os corpos boiarem"
Fim
Esse relato me foi contado por DM, pela Luciana Lima, a @Luhlimma09, que aprendeu:
Nunca mais entra em água ou mato sem pedir licença a quem de direito, ainda mais se for no interior do Pará.
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Faz um tempo, eu tava morando em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, e as coisas estava bem estranhas, sabe?
Foi logo no início da pandemia, e vocês imaginam passar por toda aquela loucura, só eu e minha filha, tendo que aguentar as incertezas desses tempos doidos.
Especialmente minha filha, a Juju, estava sofrendo muito.
Apesar de sempre termos sido caseiros, com a chegada da pandemia acabamos nos trancando mais, isolados de tudo e todos, o que certamente a deixou bem nervosa, e eu sentiu tudo também, porque sempre fomos muito ligados.
Nunca achei que fosse loucura, mas Juju começou a falar muito sobre um anjo... uma espécie de anjo da guarda que queria se aproximar e estar ao lado dela naquele momento. Um ser de luz que dizia estar ali para nos proteger.
Eu perguntava sobre ele, mas Juju não sabia falar nada.
Dick Rowland, um jovem engraxate negro, de 19 anos, adentra no único prédio do centro da cidade que dispunha de banheiro liberado para "pessoas de cor"
Isso, nos EUA onde vigoravam regras racistas horrendas e desumanas.
Quando Dick entra no elevador, encontra a operadora da cabina, Sarah Page.
Existem muitas versões dos fatos, mas sobre duas coisas se tem certeza:
1. Eles se conheciam, mesmo que minimamente, e se reconheceram.
2. Logo após Dick entrar no elevador, Sarah deu um enorme grito.
Seguido ao grito, por qualquer razão que talvez jamais seja elucidada, Dick correu do prédio.
Muito provavelmente por saber que, naquela época, naquele lugar, diante do grito de uma mulher branca, um rapaz negro provavelmente seria acusado de alguma coisa.