Mesmo estando “acostumado” com as coisas bizarras que, vez ou outra, ocorrem, dessa vez foi tão intenso que nem sei explicar.
Pois bem… ontem era noite das crianças dormirem aqui no nosso quarto - e meu dia de fazê-las dormir.
Elas dormiram 21:30, aí sai do quarto e fui encontrar Lívia na sala.
Comemos, conversamos, e como a gente estava muito cansado, umas 23 horas já estávamos prontinhos pra dormir.
Livia e Vicente na cama, eu e Íris no colchão no chão.
Livia dormiu logo, eu ainda pegava no sono quando Íris começou a gritar muito alto.
Eu corri pra acalmar a ela, mas a raiva que ela sentia no sonho era tanta, que acabei levando uns tapas e socos.
Por fim, consegui acalma-la, só que, minutos depois, novos gritos.
Novamente fui lá, abracei a ela, disse que era somente um sonho ruim, mas cada vez foi ficando difícil de acalmá-la.
Da terceira vez, Lívia levantou para ver o que acontecia, então ficamos lá, nos dois, tentando acalmar Íris.
Só que a coisa piorou…
…porque, logo depois, Vicente também deu um grito enorme e começou a chorar.
Tivemos que nos desdobrar: eu acalmando Íris, Lívia acalmando Vicente.
Mas, vejam bem: apesar de inquietos e dos sonhos ruins, nenhum deles acordou.
Nessa hora, já perto da meia noite, eu achei que talvez houvesse algo errado… que talvez estivesse acontecendo algo…
Me concentrei, busquei ver se sentia alguma coisa, mas não me veio nada.
E, como Íris parecia ter acalmado, fui dormir.
Logo depois Vicente também acalmou, e Lívia e ele voltaram para a cama.
A noite podia ter acabado aí, mas, mal eu sabia, ainda vinha muito mais.
Bem… vamos lá.
Não sei dizer em que momento comecei a sonhar.
Só sei que sonhei e me vi andando por um bando de corredores escuros, entrando e saindo de salas estranhas, encontrando portas trancadas e pessoas desconhecidas.
Eram sempre vultos, sempre escuro, mas não era um pesadelo.
Era um sonho agonizante, uma coisa incômoda que não me dava medo.
Mais uma sensação desoladora de estar perdido, sem rumo.
Só que, no meio do sonho, comecei a ouvir me chamarem, primeiro, baixinho, até que ouvi um grito e acordei.
Lívia estava sentada na cama, com os olhos arregalados, quase chorando:
- Fernando, acorda!!!
Ainda zonzo, perguntei o que tinha acontecido, então ela me contou que eu estava chorando muito, baixinho, e que ela estava me chamando fazia tempo, morrendo de medo.
E, de fato, eu tava com o rosto só lágrimas.
Lívia perguntou o que eu tava sonhando, porque eu tava chorando, mas eu realmente não lembrava muito.
Foi aí que nós sentimos o cheiro.
Do nada bateu um cheiro forte de flor no quarto.
Mas não era um cheiro bom, sabe?
Era aquele cheiro enjoativo de flor quase apodrecendo, que geralmente domina um velório.
E, na mesma hora que senti o cheiro, também senti uma presença muito forte.
Não vi nada, não ouvi nada, não senti toque, nadinha… mas eu soube, imediatamente, que tinha alguém, ou alguma coisa, perdido aqui no quarto.
Não quis aterrorizar a Lívia - que já estava bastante assustada, mas, naquela hora eu entendi os gritos dos meus filhos.
Havia uma presença, que, acho, era uma energia.
Perdida, completamente perdida, muito confusa.
De alguma forma as crianças sentiram, e eu, quando dormi, também fui afetado.
E só pensava em ficar em paz, então deitei, Lívia fez o mesmo, e fingi dormir.
Antes de deitar ainda olhei no celular e postei isso:
Bem, deitado, fiquei falando baixinho com aquilo que estava lá.
Que ele estava no lugar errado, que ali não era lugar dele, que ele precisava ver alguma luz perto dele e se dirigir pra lá. Que eu não podia ajudar muito, mas que ele confiasse em mim…
Fiquei “conversando” com aquele perdido por quase uma hora, tranquilizando a ele, que ele precisava se acostumar com aquilo, até que fui acalmando, acalmando, e o cheiro de flor podre foi sumindo… e dormi.
Hoje de manhã cedo, quando acordamos, eu e Lívia estávamos esgotados… como se tivessem sugado nossas forças.
E recontamos todos os fatos, muito impressionados com tudo.
Ela me falou que também não dormiu, depois que acordei chorando.
Ela ficou na cama, rezando.
Ficou ela na cama, rezando, apavorada, e eu no colchão do chão, tentando orientar o perdido.
E ela disse que sabia que eu estava fazendo aquilo, porque escutava minha voz baixinha, como se conversando ou rezando…
Conversando na mesa do café, com todos os filhos, hoje de manhã, soube que os meninos que dormiram nos outros quartos não sentiram nada, felizmente.
E lembramos que desde a Semana Santa, quando sofri com a covid, não acontecia nada tão forte.
Na Semana Santa Lívia acordou de madrugada e eu estava conversando com alguém, como se hipnotizado.
Eu dizia:
“Não, eu to cansado, não quero conversar…”
Novamente Lívia me acordou no grito.
Só que, 5 minutos depois, lá estava eu falando.
Lívia diz que desta segunda vez eu falava bem brabo:
“Não, por favor, eu não quero conversar agora, to doente, to cansado, preciso dormir”
Novamente fui acordado com Lívia gritando, quase na mesma hora em que a porta do nosso quarto abriu sozinha, uma nesga.
Nessa noite, Lívia conta que sentiu alguém mexer no cabelo dela, como se fizesse carinho - e eu não lembro nada da pretensa conversa que tive com alguém ou algo.
Na real, fiquei muito mal com a covid, estava quase desfalecido mesmo.
Ainda sobre a noite de ontem:
Não veio ninguém estranho aqui, mas, pea primeira vez em muito tempo, fizemos uma saída em família.
Não sei se o perdido nos acompanhou na volta, mas é provável.
Um dia, partiu pra cidade grande para realizar seu sonho. Começou a atuar, foi ficando famoso e acabou indicado a um grande prêmio pelo papel de um gay.
A cidade parou, claro, pra ver aquele seu filho, no auge.
Ele se chamava Cameron Drake e parecia nervoso na plateia.
Todas as tevê da cidade sintonizadas naquele momento fabuloso.
Todos os moradores esperando o momento máximo de um morador dali.
Dentre eles, Howard Brackett, que assistia à premiação ao lado de sua noiva.
Brackett, professor de literatura da cidade, tinha sido o grande influenciador da veia artística de Drake.
Por essa razão, era o mais empolgado com a possibilidade de ver o aluno brilhar daquela forma.
Até que chega o momento da premiação e Drake ganha.
Faz um tempo, eu tava morando em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, e as coisas estava bem estranhas, sabe?
Foi logo no início da pandemia, e vocês imaginam passar por toda aquela loucura, só eu e minha filha, tendo que aguentar as incertezas desses tempos doidos.
Especialmente minha filha, a Juju, estava sofrendo muito.
Apesar de sempre termos sido caseiros, com a chegada da pandemia acabamos nos trancando mais, isolados de tudo e todos, o que certamente a deixou bem nervosa, e eu sentiu tudo também, porque sempre fomos muito ligados.
Nunca achei que fosse loucura, mas Juju começou a falar muito sobre um anjo... uma espécie de anjo da guarda que queria se aproximar e estar ao lado dela naquele momento. Um ser de luz que dizia estar ali para nos proteger.
Eu perguntava sobre ele, mas Juju não sabia falar nada.