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Há pormenores e omissões fatais na reportagem que a Sábado desta semana dedica a Rui Pinto, e que assentou, fundamentalmente, no despacho do Ministério Público que solicita a “especial complexidade” do processo, para fundamentar a extensão do prazo da investigação.
“Todos foram espiados por Rui Pinto”, diz o título. Quem são “todos”? Segundo a Sábado, que se baseia fontes, além da Doyen e do Sporting, PGR, DCIAP, Maria José Morgado, escritórios de advogados como a PLMJ, FIFA, CONMEBOL e Ministério da Administração Interna.
“Uma intrusão sem precedentes nos sistemas informáticos da Justiça, do Governo e de instituições portuguesas, de acordo com as fontes consultadas pela SÁBADO, levanta questões muito graves em termos de segurança e confidencialidade da informação.”
Mais tarde, a Agência Lusa, que teve acesso ao despacho propriamente dito, sem intermédio de terceiros, citou as entidades em causa. Percebe-se, então, que a reportagem da Sábado omitira um nome sonante da lista de “ofendidos” mencionada pela procuradora Patrícia Barão: FC Porto.
A amputação cirúrgica desta parte do despacho, onde o FC Porto surge, pela primeira vez em documentos da justiça, como "ofendido", é determinante para não inviabilizar a tese de que o FC Porto é o “mentor do hacker”.
Tese que, aliás, volta a ser ensaiada pela própria Sábado, através de uma suposta ligação de amizade (inexistente, diga-se) entre Rui Pinto e o seu contemporâneo na universidade Diogo Faria.
Como poderia alguém ser “ofendido” e suspeito ao mesmo tempo? Como poderia a PJ, como garante a Sábado, estar a “seguir o rasto” de um suspeito que é, segundo a mesma investigação, vítima? É simples: não pode.
Mas se é notória a presença do FC Porto na lista de “ofendidos” do despacho do Ministério Público, também é notória a ausência do Benfica — surpreendentemente, nem uma referência. O que volta a ser um revés para a tese e, por isso, parece ter de ser cuidadosamente omitido.
Afinal, como é que se manteriam horas de emissão com “Hacker do Benfica também ataca segredos do Estado”, ou “Amigo do hacker do Benfica por trás de ataque sem precedentes aos sistemas informáticos da justiça”?
Curiosamente, se recuarmos à data das revelações, há dois nomes incontornáveis que estão intimamente ligados à fonte do Football Leaks e uma história já conhecida que continua por explicar: Correio da Manhã e Pedro Guerra e o contrato de Sebastián Coates.
Na edição de 14 de Março de 2016, o Correio da Manhã dizia ter tido acesso ao contrato profissional do central do Sporting e contava detalhes salariais e obrigações impostas.
Na mesma noite, Pedro Guerra, então diretor na estrutura do Benfica, revelava mais detalhes e garantia que o salário de Coates era o mais elevado do plantel, dando a entender que tinha informações de todos os outros salários. (Alô, concorrência desleal?)
Um dia depois, a 15 de Março de 2016, o contrato de Coates era revelado no Football Leaks. (Naturalmente, na altura nenhum órgão de comunicação social se coibiu de dar eco ao leak. Não era informação confidencial privilegiada, não eram mails roubados, era notícia.)
Quem deu ao Correio da Manhã acesso ao contrato de Coates? E a Pedro Guerra? Qual a ligação entre estes e o Football Leaks? A quantos contratos de jogadores profissionais do Sporting Pedro Guerra acedeu?
Se relativamente aos e-mails do Benfica o próprio Francisco J. Marques explicou o acesso à informação, em relação aos contratos do Sporting, a relatórios de árbitros e a relatórios internos de rivais continua a pairar uma nuvem densa que ninguém - Sábado incluída - quer dissipar.
A reportagem da Sábado cumpre 3 propósitos:
- colocar o denunciante no centro do debate e retirar o spotlight dos denunciados;
- adensar a percepção de gravidade das suas ações e virar a opinião pública contra ele;
- criar cortinas de fumo através de jogos de sombras e omissões.
Neste último caso, o FC Porto "como mentor" permanece como hipótese, que importa manter acesa de vez em quando. Uma fábula que, para existir, está dependente de omissões tácticas como a que aqui denuncio.
A questão que se coloca é: de quem está por trás disto? A própria Sábado? Uma fonte que enganou a Sábado - uma toupeira que teve acesso ao processo (a este, em particular, ou a todos no geral e também a este) e que selecionou criteriosamente a informação que passou?
No primeiro caso, não se espera menos do que uma intervenção firme e veemente da ERC, como é sua tradição.
No segundo, a Sábado, tendo sido sido enganada por uma fonte com o intuito de a conduzir à publicação de informação parcial e falsa, deve desmascarar essa fonte, como indica o Código Deontológico do Jornalista.
Em qualquer caso, o diretor da revista, Eduardo Dâmaso, co-autor da reportagem, deve explicar-se, porque na ausência de explicações podemos depreender que a Sábado é autora ou ativamente cúmplice desta fraude jornalística.
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