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As pandemias são terreno fértil para crises políticas. As disputas pelo poder afloram em momentos em que a sociedade é tomada por um fenômeno com o qual tem extrema dificuldade em lidar. E em 1918?

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O momento atual é de crise política entre estados e federação devido ao descaso do presidente. Em 1918, plena disseminação da espanhola pelo Brasil, declarações minimizando tb foram proferidas por parte de membros do poder público e geraram crises políticas de grandes proporções.
Foi o caso da crise gerada pelas medidas tomadas por Carlos Seidl, chefe da saúde pública nacional (que apresentamos na thread anterior) no início da disseminação da gripe espanhola no Brasil.
Se você chegou de paraquedas aqui agora, talvez queira ler a thread anterior sobre o início da gripe espanhola no Brasil. Já aproveita pra dar follow na gente também, por que tem mais por vir!

Seidel era um médico de renome no país. No início de setembro foi nomeado professor catedrático da cadeira de medicina pública da Faculdade Livre de Direito. Sua fama era tamanha que chegou a ser capa da revista Fon Fon, em setembro de 1918, às vésperas da epidemia.
O responsável pelo comando da saúde pública brasileira afirmou reiteradas vezes que a epidemia que se alastrava pelo país era uma gripe comum, mas epidêmica. Defendia medidas de higiene nos barcos e fiscalização dos doentes, mas insistia em afirmar que a gripe era “benigna”.
Afirmou que não se podia fazer muita coisa para além de medidas de higiene, pois a mesma entraria de qualquer maneira pelo país, a não ser que fechássemos os portos do Brasil ao mundo, o que ele considerava impossível.
Por estas posições, o jornal A Gazeta de Notícias (RJ) passou a fazer uma fervorosa campanha contra Seidl. “Quando é que se descolará da Saúde Pública o emplastro que é o Sr. Carlos Seidl?”. Afirma ser o anseio de toda população, que não aguentava mais a “incompetência” de Seidl.
Apesar dos inúmeros casos relatados em setembro, Seidl seguia minimizando o problema, apoiado por setores da imprensa, como o Correio da Manhã. “Até agora nenhum caso suspeito da influenza espanhola nos chegou”, ignorando os doentes do navio Demerara que ele visitou pessoalmente.
Carlos Chagas, renomado cientista, apesar de dizer que outras medidas deveriam ser tomadas como rigorosa desinfecção dos navios, passageiros e suas roupas, não tinha consciência da absoluta gravidade.
Em Pernambuco, a partir do final de setembro, uma crise política teve lugar. O governador Manoel Borba e seu diretor da Higiene Pública do Estado, Dr. Abelardo Baltar, passaram a não autorizar o desembarque de navios de doentes para os hospitais da cidade.
Baltar era um jovem médico, de 32 anos, que também vinha sendo criticado pela imprensa local por falta de medidas para conter a “espanhola”.
A medida confrontava as orientações dadas por Carlos Seidl e publicadas nos jornais do país de recolher e colocar em hospitais em isolamento os casos de doentes que chegassem em navios nos portos brasileiros.
Baltar afirmava que o hospital Santa Águeda, em Recife, não tinha condições de receber os doentes de maneira isolada. A ordem foi comunicada ao inspetor federal do porto de Recife, que ficou revoltado com a medida e ameaçou abandonar os doentes no cais do porto.
Um telegrama do Inspetor de Portos de Pernambuco para Seidl afirma que o Diretor de Saúde Pública de PE, Abelardo Balta, não permitia que doentes fossem transferidos para o Hospital Santa Águeda, tentando impedir que doentes entrassem na cidade.
O inspetor de portos lembrava a Seidl que o hospital recebia isenção de impostos federais e, por isso, o governo federal teria poder para passar por cima das determinações do governo pernambucano.
Seidl enviou telegrama ao inspetor. Afirmou que deveriam ser redobradas as medidas de higiene nos navios e inspecção dos navios de passageiros, “especialmente os de 3ª classe”, mas que os doentes deveriam, sim, ser recolhidos em hospital para isolamento.
No entanto, orienta que, se Baltar se mantiver irredutível, os navios que viessem de portos infectados fossem direto para a Bahia, sem parar em Recife.
Neste impasse, o governo de Pernambuco cedeu e os doentes passaram a ser recolhidos no hospital Santa Águeda. A crise política colocou em jogo inúmeras vidas que ficaram à espera de uma resolução entre o poder estadual pernambucano e o poder federal, representado p Carlos Seidl.
A epidemia já se espalhava por Recife. O Jornal do Recife assume uma postura de ataque ao diretor estadual, Baltar. A história de Abelardo Baltar acaba de maneira trágica.
Menos de uma semana depois, o Jornal do Recife noticia que Baltar encontra-se afastado em sua residência com 40 graus de febre, provavelmente com a “hespanhola”. Mesmo doente, o jornal seguia atacando o chefe da saúde pública, afirmando que ele pagava o preço de seu descaso.
No dia 12/10, o Jornal do Recife culpava Abelardo pela “terrível epidemia” que se espalhava por Recife, por permitir que funcionários da Alfândega e da Recebedoria entrarem em navios com doentes antes da desinfecção destas embarcações.
No dia 13/10, cerca de duas semanas depois do impasse nos portos, Abelardo Braga faleceu, aos 32 anos, acometido pela gripe espanhola.
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o caos se disseminava. Os jornais já contabilizavam inúmeros casos da epidemia. A Gazeta de Notícias seguia sua campanha contra Seidl.
Dia 09/10, “A falência da Higiene” é um artigo de capa pesado sobre Seidl. Critica sua ignorância quanto ao que se passava na Europa (“Carlos Seidl não sabia de nada!”) e que só tomou medidas depois das mortes na missão médica.
Citam as palavras de Seidl, afirmando que não seriam tomadas medidas excepcionais por ser “um mal que nos visita periodicamente de forma benigna, sem caráter grave”.
Na sequência, o texto afirma que Seidl estava “positivamente brincando”, pois já eram noticiados mais de 500 casos no Rio e Niterói e 250 no Exército. O texto previa uma “hecatombe”.
Dia 10/10, na Academia Nacional de Medicina, Seidl pediu para que fossem incluídas nas atas as nove conclusões que redigira sobre a espanhola. Se Academia não as discutisse, tomaria o silêncio como acatamento das conclusões. Publicada na Revista Brasil Médico de 14/12, p. 9.
Para Carlos, a influenza espanhola é a simples influenza, sinonímia de gripe. O isolamento é irrealizável e “a benignidade geralmente reconhecida na gripe, não justifica o terror” que se apodera das pessoas. Todos que se manifestaram o fizeram para apoiar Seidl.
No Correio da Manhã de 11/10 a sessão do dia anterior da Academia Nacional de Medicina é notícia. Almirante Lopes Rodrigues era o único que acreditava ser uma moléstia diferente da gripe comum. Com o apoio de todos às colocações de Seidl, a nota conclui:
“Vê-se, portanto, pelos debates da academia, que a população do RJ não tem motivo para apavorar-se com a moléstia e que a força de ânimo abalada é um péssimo elemento para que se combata”.
Já a Gazeta de Notícias: “O Sr. Seidl deve demitir-se!” e “Temos a Saúde Pública entregue a um cretino!”. Afirmavam que após ouvirem “as conclusões absurdas de seu colega, abaixaram a cabeça envergonhados” e que apenas seus colegas de governo o apoiaram.
Na revista Careta, uma charge foi publicada mostrando os médicos da Academia de Medicina minimizando a gripe espanhola.
O Correio da Manhã, no dia 15/10, adota a defesa da tese de que nada podia ser feito e defendia Seidl. Em sua capa de 15 de outubro aponta que a epidemia se alastrou, mas teria a epidemia “caracter tão grave, que autorize o abandono da cidade?”
Nesses dias, discute-se o fechamento das escolas. O Paíz, de 15/10, na página 4, coloca que Seidl era “dos que não achavam provável que a epidemia assumisse proporções que ora apresenta”.
O governo ñ demite Seidl, mas arranja uma saída política. Criou o cargo de Superintendente dos Serviços contra a Epidemia, dado a Teóphilo Torres, médico que foi chefe da Comissão de Profilaxia da Febre Amarela em Manaus, em 1913. Seidl foi afastado dos trabalhos com a epidemia.
No dia 18/10, pouco menos de um mês desde a crise criada pela chegada do navio Demerara que contamos sobre na outra thread, o Correio da Manhã anuncia que Seidl se demitiu, a demissão foi imediatamente aceita pelo presidente, que nomeou Teófilo Torres.
No dia 19/10, a capa da Gazeta de Notícias denuncia a censura às suas notícias. Por determinação do presidente da república, foram intimados a não mais atacar Carlos Seidl e o governo e pior: não publicar números de mortes pela gripe. 👀
A Revista da Semana apoia Seidl: “Por pouco não é atribuída ao ilustre Dr. Seidl por alguns jornais a responsabilidade do aparecimento da epidemia ‘espanhola’.” Se desviasse os navios do Rio, estaria sequestrando “a capital do Brasil do convívio universal”. 🙄
Olha só os argumentos: “a epidemia tem sido agravada consideravelmente pelo pânico: pânico excessivo e mórbido, porque a enfermidade apresenta-se benigna [...] Os prejuízos são, porém, enormes pelas perturbações causadas nos serviços públicos, no comércio, na indústria, etc.”
A revista Brasil Médico de 21/12 publicou nota da sessão de 21/11 da Acad. Nac. de Medicina em que seu pres., Dr. Miguel Couto, lê uma moção unanimemente aprovada, dizendo ser impossível responsabilizar uma pessoa pela entrada da pandemia e prestando apoio a Seidl, a pedido dele.
O posição de Seidl de não fazer isolamento e de não tomar medidas enérgicas no início da chegada da epidemia ao Brasil dividia a opinião pública. A Gazeta de Notícias foi um dos jornais que mais críticas fez ao governo e por isso foi censurado.
A opção de não isolar a população, ou nem se tentar nenhum tipo de medida desta natureza foi um desastre. O menor deles foi a saída de Carlos Seidl da chefia da Saúde Pública.
No mesmo dia em que foi anunciada a saída de Seidl, a Gazeta de Notícias já listava 20 mortes por gripe espanhola apenas no dia anterior. Na capa deste jornal, mesmo dia, já se exibia foto de uma pessoa morta em plena rua.
Carlos Seidl, em um período de cerca de um mês, foi de chefe da Saúde Pública nacional, capa de revista e nomeação para professor catedrático de medicina pública da Faculdade Livre de Direito, a culpado (por boa parte da sociedade) pela disseminação da gripe espanhola no Brasil.
👉 Aqui uma diferença entre 1918 e hoje: se a comunidade médica e a população se dividia quanto a medidas de isolamento, hoje a comunidade científica mundial é unânime em apontar o isolamento como a mais eficaz forma d combater a pandemia. Inclusive pelas experiências do passado.
O saldo das brigas políticas entre o poder estadual e federal e de subestimar a “hespanhola”, não tomando medidas de isolamento, foram muitos milhares de mortos.
@ANPUH ajuda a divulgar nosso trabalho?? obrigado demais 😊😊
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