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Lucas Mafaldo @lucasmafaldo
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Estou indo dormir e foi mais um dia sem tempo para uma threadizinha que está marinando há tempos na minha cabeça. Vou lançar aqui um primeiro rascunho e volto ao assunto noutro dia.

Tema: o porquê de pensarem que Bolso ameaça à democracia enquanto o PT é muito pior.
Bom, parte da culpa é que as pessoas raciocinam por associações imaginativas e nosso imaginário está repleto de histórias de ditaduras militares. Já assistimos diversos filmes onde um ditador autoritário resolve tudo no grito e na porrada.
Além desse imaginário, a história brasileira é contada sempre com ênfase na ditadura militar, pois foi o período onde os brutamontes teriam expulsado do país os heróis da democracia que queriam um país mais justo -- o que é um jeito de colocar Lula como herói de saída.
Como esse imaginário já está no ar, Bolsonaro se encaixa perfeitamente na figura do vilão -- pois é ex-militar, defende a instituição incondicionalmente, fala grosso, etc. Logo, a população faz imediatamente essa associação.
É muito difícil quebrar uma associação imaginativa por meio de conceitos e argumentos, mas... essa associação está totalmente errada.

Simplesmente não é assim que ditadura funciona. Ditadores precisam de toda uma estrutura de poder e repressão para se manter no poder.
E, principalmente, precisam de um aparato de propaganda e alianças fortes com membros da elite. No fim das contas, não é uma coisa tão radicalmente diferente do sistema atual -- cheio de conluios, coalizões, concessões, etc. -- e muito diferente da caricatura dos filmes.
Além de não ter nada disso no entorno de Bolsonaro, os militares brasileiros não são pessoas autoritárias com sede de poder. Eles foram criados nos mesmos meios que eu e você, com amigos e parentes não-militares -- e na mesma cultura que a gente, também com ideais democráticos.
Logo, essa hipótese de um grupo maligno que está prestes a tomar o poder é fruto de um excesso imaginativo. Não vejo base alguma na realidade para achar que isso vai acontecer.

Mas aí entramos no perigo do PT...
O PT realmente não oferece um perigo análogo. Não dá para imaginar Haddad dando gritos e espancando adversários. Logo, no nosso imaginário, eles não parecem um perigo para as instituições.

Mas aí está o erro: eles possuem um jeito alternativo (e eficiente) de destruí-las.
A prática petista não possui um lugar em nosso imaginário, mas ela é uma força concreta e extremamente nociva. Quem a viu de perto, sabe do que estou falando. Não é exatamente a tentativa de dar um golpe, mas um messianismo devastador que opera DIRETAMENTE na sociedade civil.
O messianismo petista-socialista está nas micro-relações: na disposição em intimidar os colegas que possuem pontos de vista diferentes, na interferência em concursos para garantir que os futuros aprovados tenham a mesma visão ideológica, na ocupação de espaços na burocracia...
... estatal, na redução de todos os valores à dimensão política, na destruição das fronteiras entre estado e governo, na politização de todas as instituições.

Esse messianismo (que pode ocorrer na direita, certamente, mas que tem sido mais forte no núcleo petista da esquerda)...
... é uma ameaça concreta à democracia, muito mais real do que os temores de uma imaginação excitada com figuras militares. E o Brasil quase sucumbiu a essa ameaça há poucos meses atrás.
O melhor exemplo dessa ameaça está no discurso de que "impeachment é golpe". Isso é típico dessa mentalidade messiânica: temos, em um só discurso, a destruição de uma instituição legítima (o impeachment) e da linguagem (a definição de "golpe" e "democracia").
Esse messianismo não leva necessariamente à caricatura do ditador como um brutamontes que dá ordens arbitrárias -- e é exatamente isso que nos torna mais vulneráveis a ela: não conseguimos imaginar que isso existe, logo não percebemos que ela está chegando.
O messianismo socialista é uma força de desagregação social e deterioração institucional. Eles vão espalhando apadrinhados e divulgando sua propaganda por todo lugar, sufocando a capacidade da sociedade em atingir seus objetivos. Não há um fim claro -- exceto a constante piora.
É um negócio difícil de explicar e ainda mais difícil de comprovar, mas estou convencido que essa é a explicação correta desse fenômeno. E creio que o sucesso de Bolsonaro se deve ao fato de que os brasileiros intuitivamente perceberam a natureza desse problema.
É por esse motivo que eu mesmo não gosto de me definir como sendo de esquerda ou direita. Eu não tenho problemas com políticas públicas de nenhum dos lados -- e, muito menos, aversão a uma identidade tão vaga como as identidades políticas.
Meu problema é com esse messianismo -- é com o princípio de que há um grupo ungido que irá libertar o mundo de todos males assim que assumir o poder total.

E foi exatamente esse messianismo que levou o PT ao poder e o Brasil ao fundo do poço.
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