My Authors
Read all threads
(Segue e Thread)

Batalha de MC's, História e o poder da Palavra

As batalhas de MC segundo KRS-ONE têm origem em uma antiga brincadeira feita pelos negros escravizados, nas colônias do sul dos EUA, chamada: The Dozen.
Os negros que devido ao transporte transatlântico ou devido aos maus tratados de seus senhores possuíssem algum tipo de deficiência eram vendidos em grupos de 12.
Daí o nome "The Dozen" e também o objetivo da brincadeira que é atacar defeitos físicos ou de caráter que a pessoa possua de modo a desestabilizá-la. Há fortes indícios de que o The Dozen seja uma forma de um jogo nigeriano chamado: Ikocha Nkocha.
Geralmente o The Dozen era jogado diante de uma platéia formada pelos companheiros de senzala, que incentivavam os participantes a responder com insultos cada vez mais flagrantes, a fim de aumentar a tensão e, consequentemente, tornar a disputa mais interessante de assistir.
Uma referência recorrente era a Mãe. Lembra do clássico "A sua mãe é tão gorda, mas tão gorda que..." de o Professor Aloprado? Só que a figura materna na verdade não era a mãe biológica e sim uma metáfora para o Senhor de Escravos. Os pretos sempre foram geniais, na moral!
Para alguns povos africanos as palavras carregam as qualidades físicas daí o fato de muitas religiões africanas abominarem os xingamentos. Entre os povos Dogon do Mali é dito que elas possuem Kutun uma energia que permeia todas a coisas.
Para alguns povos africanos a habilidade mental era tão importante quanto a física já que afetar a mente é afetar o corpo.
Um cara que parece ter entendido isso muito bem foi o boxeador Muhammad Ali, que costumava usar o The Dozens em brincadeiras com os oponentes, confundindo ou irritando-os quando o fazia para os desestabilizar antes das lutas.
"Tá, então você quer dizer que esse tal The Dozen era uma pura e simples troca de ofensas gratuitas?"
Não! Os participantes do The Dozen eram obrigados a exibir acuidade mental e proficiência com palavras.
Em suas memórias Die Nigger Die! (1969), H. Rap ​​Brown escreve que as crianças com quem ele cresceu empregaram o The Dozen para matar o tempo e evitar o tédio, da maneira que os brancos jogavam Palavras-Cruzadas. Brown afirma que jogar era uma forma de exercício mental.
Segundo Lefever, em um sentido mais profundo, a essência do The Dozen não está nos insultos, mas na capacidade de responder a eles que a vítima possuí.
Tomar algo dito como ofensa é ser considerado infantil. Maturidade e sofisticação trazem a capacidade de aguentar os insultos com calma pelo menos e, esperançosamente, com graça e inteligência ser capaz de responder a eles.
O sociólogo Harry Lefever afirma que a habilidade verbal e a inteligência são tão valorizadas entre os afro-americanos quanto a força física: "A habilidade verbal é, portanto, um critério usado para separar os homens dos meninos".
Rosa Parks antes de seu gesto icônico, que daria início a luta pelos direitos-civis, passou por um treino que envolvia se sentar calmamente e ouvir múltiplos insultos de modo a se manter calmo em situações de confronto com a polícia ou com brancos racistas.
A capacidade de manter o autocontrole e não se abalar por qualquer coisa sempre foi apreciada entre os povos africanos. Tanto que o título do rei da Nigéria no século XV era Ewuare algo como "Ele é inabalável."
Apesar do que vem acontecendo recentemente em algumas Batalhas de MC's. Gostaria de salientar que as Batalhas de MC's não são algo vazio de significado como pura e simples ofensa e desrespeito, mas parte do importante legado de nossos ancestrais que aqui foram escravizados.
Transformar ofensa em resistência, violência em autocontrole são princípios fundamentais do Hip-Hop.
Faço minhas as palavras de Amiri nos versos de Mandume: "[...] mano, sem identidade somos objeto da História que endeusa "herói" e forja, esconde os retos na história..."
Então antes de sair por ai pra pegar um mic e ficar falando besteira, aprenda com o outro costume africano que é sentar pra escutar e aprender com os que vieram antes de você.

Paz!
Fontes: Dollard. The Dozens: Dialectic of Insult.
Jordan. "Social Construction as Tradition: A Review and Reconceptualization of the Dozens"
Lefever, Harry . Playing the Dozens A Mechanism for Social Control
James, Dweck, and Monteria Ivey, Snaps: The Original Yo' Mama Joke Book
Missing some Tweet in this thread? You can try to force a refresh.

Enjoying this thread?

Keep Current with Pablo de Moraes

Profile picture

Stay in touch and get notified when new unrolls are available from this author!

Read all threads

This Thread may be Removed Anytime!

Twitter may remove this content at anytime, convert it as a PDF, save and print for later use!

Try unrolling a thread yourself!

how to unroll video

1) Follow Thread Reader App on Twitter so you can easily mention us!

2) Go to a Twitter thread (series of Tweets by the same owner) and mention us with a keyword "unroll" @threadreaderapp unroll

You can practice here first or read more on our help page!

Follow Us on Twitter!

Did Thread Reader help you today?

Support us! We are indie developers!


This site is made by just three indie developers on a laptop doing marketing, support and development! Read more about the story.

Become a Premium Member ($3.00/month or $30.00/year) and get exclusive features!

Become Premium

Too expensive? Make a small donation by buying us coffee ($5) or help with server cost ($10)

Donate via Paypal Become our Patreon

Thank you for your support!